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Política
FECHAR Sergio Lirio

Daniel Dantas e seu bando

08/07/2008 15:24:51

Sergio Lirio

(reportagem originalmente publicada na edição 330, de 23 de fevereiro de 2005)

Os contatos políticos no Brasil e a retaguarda de um dos maiores conglomerados financeiros do mundo, o Citibank, permitiram ao banqueiro Daniel Dantas abrir, nos últimos sete anos, várias frentes de batalha. Dantas enfrentou os fundos de pensão, a canadense TIW, a Telecom Italia, investidores nacionais e estrangeiros. Tudo pelo controle de empresas telefônicas avaliadas em mais de R$ 15 bilhões.

O dono do Grupo Opportunity venceu algumas e perdeu outras, mas nunca antes, como acontece nestes meados de fevereiro, sua posição esteve tão abalada. “Olhos azuis”, segundo os amigos, “Darth Vader”, na definição de muitos inimigos, ao que parece, está só – e encurralado.

Dois fatos parecem confirmar essa conclusão. Entre a segunda-feira 14 e a quarta-feira 16, representantes do Citibank, da Telecom Italia e dos fundos de pensão reuniram-se em Nova York. Na pauta, o controle acionário da Brasil Telecom, da Telemar e da Telemig Celular, entre outras. Dantas, administrador dos recursos do Citi aplicados na telefonia, ficou de fora. Segundo uma fonte com trânsito nos fundos de pensão, os encontros nos Estados Unidos talvez não tenham resolvido todas as pendências. Seriam, porém, “outro sinal de que o Citibank não pretende prorrogar a parceria com o Opportunity”.

A aparente disposição do banco americano de abandonar o barco é um baque duro para Dantas, mas nada se compara ao golpe sofrido dentro do Brasil. Relatório parcial da Polícia Federal, produzido a partir de interceptações telefônicas autorizadas e documentos apreendidos durante a Operação Chacal, em outubro de 2004, aponta o banqueiro como líder e mentor de uma “quadrilha” de espionagem internacional.

Ao longo de 54 páginas e dezenas de anexos, os investigadores federais são contundentes e firmes. Logo à página 5, anotam: “Afigura-se perfeitamente o contorno de uma organização criminosa transnacional, reunindo – se não todos – vários elementos caracterizadores (existência de quadrilha, inobservância de fronteiras, previsão de lucros, hierarquia, planejamento empresarial, divisão de trabalhos, ingerência no poder estatal e compartimentação)”.

Mais adiante, os federais escrevem: “Daniel Dantas e Carla Cico, com pleno conhecimento dos meios utilizados pela empresa contratada – mesmo porque eram os destinatários das informações produzidas – traçavam as diretrizes da investigação. (...) Logicamente os citados contratantes são os que menos aparecem na atuação ilícita, vindo a atestar a existência de mais uma característica das organizações criminosas: a compartimentação”. Procurado por CartaCapital, o Opportunity não quis se pronunciar sobre o relatório.

As conclusões do relatório parcial da PF são resultado de uma investigação iniciada em fevereiro de 2004. Aconteceu por acaso. Durante as apurações a respeito de supostas fraudes cometidas pela Parmalat, os policiais esbarraram na espionagem ilegal da empresa americana Kroll, a mando de Dantas e Carla Cico, presidente da Brasil Telecom. A partir daí, começaram a perceber os contornos de uma operação cujo objetivo era espionar executivos da Telecom Italia, desafetos de Dantas e futuros integrantes do governo federal, entre eles Luiz Gushiken, secretário de Comunicação, e Cássio Casseb, presidente do Banco do Brasil até novembro último.

Entre março e julho de 2004, a PF grampeou funcionários da Kroll. O monitoramento foi interrompido depois que o escândalo de espionagem veio à tona em reportagens do jornal Folha de S.Paulo. A Kroll desmantelou a equipe. Três meses depois, em outubro, a Operação Chacal apreendeu documentos nas casas de Dantas e Carla Cico, na sede do Opportunity, em escritórios da Kroll no Rio de Janeiro e em São Paulo, e na residência do espião português Tiago Verdial. Papéis e e-mails apreendidos pela Chacal reforçam as conclusões do relatório parcial sobre a participação direta do banqueiro na manipulação de dados sigilosos de desafetos, adversários e concorrentes.

Verdial, segundo o relatório, integrava o escalão intermediário da “organização criminosa”. O português era o responsável por manter uma rede de informantes em diversos pontos no País. Na lista, ex-servidores do Banco Central (BC), agentes da própria PF e funcionários de empresas privadas espionadas a mando do Opportunity.

Acima dele estava o inglês William Peter Goodall, o Bill, suposto agente aposentado do serviço inglês MI-6 a serviço da Kroll. Bill foi deslocado de Londres para atender o Opportunity depois de gafes cometidas por arapongas do escritório brasileiro. Uma delas, confundir o ex-presidente do BC Arminio Fraga com o ex-ministro Andrea Calabi. Em 2002, ao perceber que estava sendo seguido, Fraga pediu auxílio à PF. A trapalhada chamou a atenção da polícia para a movimentação de funcionários da Kroll.

Acima de Bill estavam diretores lotados no Brasil e no exterior. Segundo o relatório, 12 cidadãos brasileiros e estrangeiros, “reuniram-se com o objetivo de praticar crimes”, com “orientação, incentivo e suporte financeiro dos contratantes (Dantas e Carla Cico)”.

Há uma farta relação de provas das ações ilegais cometidas pela Kroll. De acordo com a PF, por meio de funcionários públicos corrompidos, os arapongas tiveram acesso a dados financeiros e pessoais, legalmente protegidos por sigilo, dos principais alvos de interesse do Opportunity.

Um dos objetivos centrais era esquadrinhar os negócios da Telecom Italia no Brasil e a vida de seus executivos, em busca de algo que pudesse incriminar a empresa. Os italianos e o Opportunity disputam o controle acionário da Brasil Telecom. A Kroll vasculhou a vida do empresário Gianni Grisendi, ex-presidente da TIM e da Parmalat, e de Carmelo Furci, um dos diretores da companhia telefônica no Brasil. Por causa da sociedade no portal Globo.com, rompida há cerca de dois anos, a Globopar, holding controladora das empresas da família Marinho, foi investigada.

Conforme trechos do relatório publicados pelo Jornal do Brasil na segunda 14, Tiago Verdial obteve dados sigilosos da Globopar. Em uma das conversas interceptadas, o funcionário aposentado do Banco Central, Alcindo Ferreira, repassa a Verdial informações do Sisbacen, cujo acesso é restrito a funcionários da autarquia e a instituições financeiras credenciadas. “A Globopar não tem nenhum capital estrangeiro na composição societária”, informa Ferreira.

A pedido da polícia, o BC informou em ofício, anexado ao relatório: “É de se esclarecer que as transações, alterações, impressões e consultas ao sistema são de uso exclusivo das instituições credenciadas a operá-lo”. A Kroll não é uma delas.

Os espiões também vasculharam a vida de adversários de Dantas. Em mensagens eletrônicas nos computadores da empresa americana, foram apreendidos os números do CPF do empresário Luís Roberto Demarco e familiares. Os dados, informa o relatório, eram repassados a Ferreira e ao policial federal André Ordoñez Filho, a quem cabia levantar informações financeiras e judiciais dos investigados.

Demarco, provavelmente, é o maior desafeto do fundador do Opportunity. Por causa de pendências financeiras surgidas na época em que o empresário trabalhou para Dantas, ambos travam uma guerra judicial, no Brasil, no Reino Unido e nas Ilhas Cayman, há seis anos.

Na segunda 14, o empresário conseguiu, no Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, uma vitória com o potencial de lançar novas luzes sobre a espionagem contratada por Dantas. Por unanimidade, os desembargadores decidiram reabrir o processo sobre o roubo de e-mails e documentos do empresário.

Reportagem de Bob Fernandes, publicada por CartaCapital há quase quatro anos, revelou que a violação foi tocada pela ex-mulher de Demarco, Regina Yazbek, e um ex-funcionário dele, José Luiz Galego.

Por trás da ação criminosa, aparecem indícios de participação da Kroll e de Dantas. Por causa desse roubo, os arapongas capturaram mensagens trocadas entre Demarco e Gushiken. Em 2002, a Justiça de Cayman, que também analisou o furto em um dos processos contra o Opportunity, considerou Regina e Galego culpados.

Não por acaso, o relatório da PF, no intuito de reforçar a simbiose entre o banqueiro e a empresa americana de espionagem, descreve: “O vínculo entre os contratantes DD (Dantas) e CC (Cico) com a Kroll já era mencionado em outras oportunidades, especialmente em razão da briga entre Daniel Dantas e seu ex-sócio Luís Roberto Demarco. A revista CartaCapital de 4 de julho de 2001 noticiou, em matéria que ocupou a capa da edição 150, a possível utilização, já àquela época, da Kroll, contratada pelo grupo de Dantas, em investigações sobre concorrentes”.

Outro desafeto com a vida devassada foi o empresário Nelson Tanure, proprietário do JB e da Gazeta Mercantil. Durante a Operação Chacal, a PF apreendeu na casa de Verdial relatório sobre Tanure. Além do perfil e das polêmicas em torno da carreira do empresário, o documento relacionava declarações de Imposto de Renda de 2002 e 2003.

Diante do exposto até aqui e do que será descrito nas páginas adiante alguém poderá se perguntar por que a Polícia Federal ainda não concluiu a Operação Chacal? A leitura do relatório mostra que a PF tem convicção da existência de uma “quadrilha de espionagem” comandada por Dantas. Mas os agentes evitam agir antes de esgotadas todas as possibilidades de acesso à memória dos computadores apreendidos na sede do Opportunity durante a Operação Chacal.

De acordo com uma fonte da PF, não faria sentido encerrar as investigações sem analisar as informações no computador dos principais acusados de chefiar uma organização criminosa. O acesso dos policiais ao conteúdo foi proibido pelo juiz Renato Pacheco Chaves de Oliveira, da 5ª Vara da Justiça Federal de São Paulo. No dia 23 de dezembro de 2004, Oliveira, com base em recurso dos advogados do Opportunity, considerou a apreensão ilegal.

Os advogados alegaram que os dados não diziam respeito à investigação e continham informações sigilosas sobre clientes da instituição financeira. O Ministério Público de São Paulo recorreu da decisão, mas o pedido de revisão ainda não foi analisado.

Quanto mais Dantas é envolvido em uma ação criminosa, mais difícil fica para o Opportunity manter sua posição no bilionário jogo da telefonia brasileira. As acusações da PF são um complicador na vida do Citibank, que até meados de 2004 mantinha o apoio incondicional ao banqueiro. Uma série de motivos tem levado o Citi a reavaliar sua opinião sobre o sócio, mas existe algo a apressar os movimentos do conglomerado americano. Em 28 de fevereiro terminam os testes para a implementação da Sarbanes-Oxley, lei aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos em 2003, na esteira dos escândalos financeiros da Enron e da MCI.

A legislação torna os controles das empresas americanas mais duros e aumenta a responsabilidade dos principais executivos caso a companhia seja envolvida em algum tipo de crime, dentro ou fora do País. Isso faz do Opportunity, nas atuais circunstâncias, um parceiro indesejado.

O contrato de gestão entre Dantas e o Citibank termina em setembro deste ano. Os americanos têm dado sucessivos sinais de que não pretendem renovar o acordo. O rompimento, especula-se, pode ocorrer bem antes da data final.

Em novembro, o Citi fez um acerto com Demarco e se livrou de duas liminares na Justiça de Cayman que impediam a venda das participações nas companhias telefônicas e o afastamento do Opportunity da gestão do fundo de investimentos que administrava essas participações.
O Citi não fez, porém, nenhum esforço para livrar a cara do parceiro. As ações de Demarco contra Dantas em Cayman não foram encerradas.

Segundo apurou CartaCapital, as conversas do Citi com os fundos de pensão e a Telecom Italia, principais adversários do Opportunity, estão avançadas. A reunião em Nova York, na última semana, é uma mostra disso, principalmente por ter deixado o banqueiro brasileiro de fora.

Dantas, no momento, está isolado. Em outras ocasiões, o banqueiro, considerado um gênio das finanças, mostrou capacidade rara de reação. Desta vez, todos os fatores parecem conspirar contra ele. Ao que tudo indica, o fundador do Opportunity terá de rebolar muito para sair das cordas e evitar um duplo nocaute. No mundo dos negócios e no mundo da lei.

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