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Crimes. E o castigo?

08/07/2008 15:19:07

Bob Fernandes

(reportagem originalmente publicada na edição 302, de 4 de agosto de 2004)

Rua da Consolação, Jardins, São Paulo. Flat Poeta Drummond, pouco depois do meio-dia de 14 de abril de 2004. Dez homens, armados com escopetas, pistolas, revólveres, adentram o saguão. Um deles avisa na recepção:

– Polícia Federal. Viemos fazer prisões!

Próxima à recepção, uma hóspede se apavora, se desespera. Dá a nítida impressão de imaginar-se ela mesma o alvo da prisão. Não é. A senhora em pânico é apenas uma consciência em sobressalto. Os que se anunciam como policiais rumam para o elevador. Um deles permanece à porta, ninguém pode subir ou descer, os demais se espremem na pequena cabine.

Os funcionários da portaria do flat correm para uma sala e estancam diante das imagens na tela, passam a acompanhar a ação pelas câmeras de segurança dispostas pelo hotel.

Os anunciados policiais espalham-se por dois andares, indicam saber com exatidão em que quartos procurar. Buscam oito homens. Um destes, enquanto outro permanece diante do laptop na mesa ao lado da cama, abre a porta. Assusta-se com a ordem, e com uma arma diante do peito:

– Mãos na cabeça, mãos na cabeça!

Um dos ocupantes do quarto, o primeiro a ser cercado, grita:

– Tá maluco, tá maluco, cara, não tá me reconhecendo?

Dez minutos depois, armas abaixadas, estão todos no saguão do flat. Em meio a pedidos de desculpas e apertos de mão trocados com os hóspedes rendidos, os invasores do Poeta Drummond se vão.

Quis o destino que, no primeiro quarto atacado, dois dos protagonistas se reconhecessem de imediato. Não fosse o acaso seria inevitável, em algum dos quartos, a reação e, não improvável, um tiroteio.

Os invasores eram, de fato, policiais federais. Os oito homens rendidos eram, também, policiais federais. Antes de deixar o flat, um dos homens armados desculpou-se, e buscou explicar:

– A informação que tivemos é que aqui estava um comando do PCC...

Tal explicação roçou uma sindicância interna apenas aberta pelo corregedor regional de São Paulo, Antonio Prieto, mas a verdade é outra. Melhor: as verdades são outras.

Uma delas, ao mesmo tempo factual e mais banal: a invasão se deu porque à secção paulista da PF, então em guerra aberta com o comando em Brasília, chegara uma informação: o que se tramava no Poeta Drummond era a Operação Anaconda II.

Anaconda I, a ação da Polícia Federal – sob comando de Brasília – que um ano antes levara para a cadeia, entre vários, o até ali influente delegado José Augusto Bellini, da mesma PF, e o juiz Rocha Matos.

Operação aquela montada à revelia do superintendente da Polícia Federal em São Paulo, delegado Francisco Baltazar da Silva, ex-chefe de segurança nas campanhas do hoje presidente Lula. Operação à revelia, a Anaconda I, porque então, apesar de Baltazar, não se confiava na lisura de boa parte do corpo da PF em São Paulo.

A desconfiança tinha seus fundamentos, como se veria já neste 2004. Um mês, para ser exato 34 dias depois da invasão do Flat Poeta Drummond, um e-mail enviado de Londres para a Itália consolidaria os motivos para a desconfiança quanto a porções da secção paulista da PF. E daria início a mais um capítulo na maior disputa societária da história do capitalismo à brasileira.

Nessa disputa, de um lado, Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity, controlador, entre outras empresas, da Brasil Telecom. Do outro, uma miríade de adversários, boa parte deles ex ou atuais sócios.

Conectado a Dantas por um fundo de aplicações nas Ilhas Cayman e ao longo de uma história que se arrasta desde a privatização do Sistema Telebrás, em 1998, o Citibank, do Citigroup, organização de US$ 300 bilhões. 

No caso em questão – a invasão no Flat Poeta Drummond –, o protagonista ausente, o alvo central, o grande adversário daquele momento era, como ainda é, a italiana Telecom Italia, corporação que informa ter investido US$ 5 bilhões no setor de telefonia no Brasil. A 18 de maio último um certo Bill escreve um e-mail para um certo Omer Erginsoy.

Logo no início adverte que as autoridades brasileiras obtiveram autorização para requisitar as contas telefônicas celulares “de TV desde 3 de maio”. E que tiveram “permissão para gravar seu telefone em 15 de abril”.

Linhas abaixo, Bill relata:

– Você vai lembrar que – segundo a mesma fonte que nos alertou para a situação do TV – o time C foi alvo de um ataque repentino num hotel em São Paulo na última semana por agentes da outra parte da mesma agência. O time da invasão estava fortemente armado com armas mortíferas e deu uma batida policial no time C antes de pegar documentos (...) A razão para estes eventos extraordinários não está clara, mas devem ser relacionados a algo grande. Neste momento a única ligação com a nossa situação é a nossa fonte, e o time C... 

Bill vem a ser William, o “Goodall”, suposto agente aposentado do serviço secreto inglês MI6 a serviço da maior empresa de investigação corporativa do mundo, a Kroll Associates. A empresa já há quatro anos trabalha para Dantas e o Opportunity, controladores da Brasil Telecom, sócia da Telecom Italia nas operações no Brasil.

Bill despacha em Londres e freqüentava – até o alerta geral – o Rio de Janeiro. Omer Erginsoy, de origem turca, é homem da Kroll na Europa.

O “TV” citado vem a ser o português Thiago Verdial, preso pela Polícia Federal no rastro das denúncias de espionagem feitas pela Folha de S.Paulo. Detido no Rio de Janeiro no sábado 24, Verdial também trabalhava para a Kroll numa operação de espionagem coordenada pela base de Londres e denominada Projeto Tóquio.

Bill, em sua correspondência, trata exatamente da invasão do Flat Poeta Drummond de 34 dias antes. Quando se refere à “outra parte da mesma agência”, está se referindo à Polícia Federal. 

Esse episódio é nuclear em todo esse enredo. Ali, ausentes ou embutidos na cena daquele tiroteio ensaiado, mas não executado, alguns dos principais protagonistas do Projeto Tóquio.

Bill refere-se ao repentino “ataque ao time C” e “à nossa fonte”. O time C é a equipe da Polícia Federal hospedada no flat e da mesma PF é a “nossa fonte”. A equipe era composta por agentes não de São Paulo e comandada pelo delegado José Nogueira Elpídio – naquele 14 de abril, Nogueira não estava no flat à hora da invasão.

O delegado Nogueira era o responsável pelas apurações no caso Parmalat. Ao esbarrar nas ações do trio Kroll, Dantas e Carla Cicco no Brasil e mundo afora, assumiu as investigações também nesta operação.

Carla Cicco, contratada da Telecom Italia quando da privatização da Telebrás, mudou de lado e tornou-se presidente da Brasil Telecom, de Dantas.

Cicco surge em um dos e-mails detectados. Este, de 6 de maio último, endereçado a Charles Carr, diretor da Kroll em Milão. Nele, segundo o material que chegou às mãos da polícia já decodificado, DD é Daniel Dantas, CF é Carmelo Furci, ex-presidente da Telecom Italia, e B é Bill.

Em outro e-mail, este de Charles Carr para Omer, Carla é citada:

– (...) Carla disse que mais do que nunca devemos nos mover o mais forte que pudermos no caso do juiz do Rio – alguma sugestão?

Há três anos, quando Dantas se irritou com a Kroll secção Brasil, que espionara o então presidente do Banco Central, Arminio Fraga, pensando tratar-se de Andrea Calabi (ex-ministro, hoje secretário do Planejamento no governo Alckmin), Carla Cicco convenceu-o a contratar a base londrina da Kroll.

Segundo investigações em curso, também em Milão dirigentes da Telecom Italia teriam sido alvos do esquema de espionagem. Inclusive seu presidente mundial, Tronchetti Provera, que ocupa o mesmo cargo na Pirelli.

Dantas e Cicco, desaparecidos desde o estouro da boiada e que em breve deverão ser convocados para depor na Polícia Federal, negam, tudo e qualquer coisa.

Cicco, em nota enviada por sua assessoria à Folha de S.Paulo, informou ter contratado a Kroll para “ajudar a esclarecer o superfaturamento decorrente da aquisição da CRT” e dar suporte às ações judiciais em curso e por vir.

No curso das apurações do caso Parmalat, a Polícia Federal esbarrou, em março último, num link entre Adelson Pugliese, ex-motorista de Gianni Grisendi (ex-Parmalat e ex-TIM no Brasil) e Verdial.

O espião da Kroll, ao entrar em contato com Pugliese (para Verdial um potencial informante sobre as entranhas da Telecom Italia), foi detectado pela equipe que investigava o caso Parmalat e, desde então, a Kroll começou a ser alvo de escutas telefônicas e ambientais autorizadas e monitoramento constante.

Quando se refere ao “time C” e à “outra parte da mesma agência”, Bill abre uma porta já aberta – a que mostra o embate entre a Superintendência paulista da PF e o comando em Brasília –, mas, sem querer, revela uma ponta dos bastidores da pesada e generalizada batalha de espiões.

Desde que o delegado Nogueira e sua equipe esbarraram na Kroll e em sua parceria com o Opportunity, em torno dessa investigação da PF três grupos se constituíram.

Um, ao longo de quatro meses, monitorou as ações dos espiões e estava perto do desfecho – interrompido pelo vazamento de informações.

Outro, formado basicamente por policiais da secção paulista, trabalhava informalmente para a Kroll, que, por sua vez, investigava um amplo leque de adversários de Daniel Dantas.

Segundo comunicados das duas empresas, a Kroll buscava irregularidades em ações da Telecom Italia no Brasil. A Kroll foi ainda mais adiante. 

Afirmou a empresa em nota oficial que seus trabalhos “visavam exclusivamente a apuração de possíveis irregularidades da Telecom Italia que pudessem prejudicar a administração da Brasil Telecom...”

Um outro grupo de agentes da Polícia Federal, e mais uma vez informalmente, free lances, digamos assim, operava com a equipe de investigação da Telecom Italia.

Ex-coronel dos Carabinieri, uma força pública italiana, Angelo Jannone, vice-presidente do Setor de Segurança Orgânica da Telecom Italia, comandou as operações na reta final.

Sob a liderança do delegado Nogueira, num jogo de gato e ratos que se arrastou por mais de quatro meses, a equipe da PF abalroada no Poeta Drumond investigou a Kroll, Carla Cicco e Dantas, enquanto era investigada pela Kroll e por alguns dos próprios colegas.

Angelo Jannone foi quem, no dia 16 de julho, entregou à Polícia Federal uma cópia do Projeto Tóquio (à página 28 trechos da conversa grampeada entre um agente italiano e Verdial). 

Às vésperas do Projeto Tóquio vir à luz, a Telecom Italia montou um QG numa das salas do Hotel Fasano, Jardins, em São Paulo, onde, além de seguranças, estava presente Carmelo Furci, ex-presidente da Telecom Italia no Brasil.

Em Milão, dias antes, a direção mundial da empresa reuniu-se por diversas vezes para examinar o material obtido pelo Setor de Segurança. Então, ouvindo-se também a filial, tomou-se a decisão sobre os caminhos imediatos do Projeto Tóquio.

No Projeto, dentre os espionados pela Kroll, o presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb. Diz-se que espionado foi ainda o ministro Luiz Gushiken, da Comunicação de Governo, mas tanto não é fato – é apenas a percepção de quem, três anos depois, pegou o bonde andando.

O que contém o relatório de mais de cem páginas da Kroll quanto a Gushiken é a troca de correspondência, via e-mail, entre o hoje ministro e o empresário Luís Roberto Demarco – sócio litigioso de Dantas e seu inimigo há cinco anos – em 2001.

A correspondência foi capturada nos computadores de Demarco por um então funcionário e sócio, José Luiz Galego Júnior.

Essa foi a segunda das sete capas de CartaCapital sobre a maior disputa da história do capitalismo à brasileira. Na primeira delas, CartaCapital revelou como, através de um fundo de investimentos offshore legalmente permitido apenas a cotistas estrangeiros, o banco de Dantas levou brasileiros a aplicar no seu Opportunity Fund em Cayman, maior paraíso fiscal do Caribe.

Na capa “Dantas versus Demarco”, o DNA do escândalo de agora. O inquérito policial 597/01, em andamento no 14º Distrito Policial de São Paulo à época, revelava por trás de uma briga de casal mais um embate de Dantas – contra o sócio litigante Luís Roberto Demarco.

Demarco havia se separado de quem escolhera como sua mulher, Maria Regina Yazbek, dona da Movicarga, empresa de movimentação de cargas que estimava à época faturar US$ 20 milhões. O amor se fora. Restara o ódio.

Do ódio, segundo o exposto no inquérito, nasceu a traição. Aliado de Regina, sempre segundo os depoimentos, José Luiz Galego Júnior, sócio de Demarco, ordenara a um funcionário a quebra da senha do dono da empresa e a subtração de e-mails.

Então, 4 mil mensagens foram capturadas. Dentre elas as trocadas com Gushiken, isso ainda em 2001. Aquelas mensagens e trechos de outras surgem, agora, como recheio no pacote do Projeto Tóquio.

No inquérito de 2001 noticiado por CartaCapital acusava-se Regina, a ex-mulher de Demarco, de ser aliada de Galego, o responsável pela subtração de e-mails do empresário adversário de Dantas.

Um dos documentos subtraídos, a minuta de um acordo entre Demarco e outro sócio litigante de Dantas então, a telefônica canadense TIW, brotaria numa ação do Opportunity em Cayman. O juiz Graham J., em sua sentença, foi devastador:

– ...descobri que o comportamento do Opportunity e de seus representantes foi desonesto e que o documento foi obtido dessa maneira (desonesta).

Isto à página 7. Três páginas antes, o disparo do juiz:

– Descobri que o documento havia sido roubado pelos representantes dos Dantas (...). Concluo (...) que a cópia do contrato foi realmente roubada por alguém e que isso não é caso de revelação involuntária de Demarco aos Dantas (inclua-se nessa longa história sua irmã e sócia, Verônica) ou ao Opportunity. O Opportunity deve ter tido conhecimento de que ele (o documento) havia sido roubado quando chegou ao seu poder. É desnecessário falar mais sobre o comportamento do Opportunity e seus representantes, muito embora eu tenha em mãos material que poderia justificar severas descobertas nesse aspecto...

CartaCapital, uma capa antes, na do “Amor, Ódio e Traição”, publicara trechos de conversas telefônicas gravadas em fita e entregues à revista.

Num dos trechos, Regina e a mãe, Sohad, mantêm um diálogo que hoje é ainda mais revelador:

– Oi, Regina, alguma novidade?

– Não, não, é que eu fui lá na Kroll e a Kroll queria que eu passasse um e-mail pro Demarco, mas eu não vou passar nada. Falei, ah, manda para o Opportunity passar, eu não, entendeu? Eles vão entrar com um mandado de busca e apreensão no computador dele (Demarco).

No inquérito, num dos depoimentos, se revelaria o mistério do e-mail acima citado:

– O plano deles era, depois de quebrada a senha do Demarco, usar o computador dele para enviar uma mensagem criminosa. Com isso, eles conseguiriam de um juiz uma ordem de busca e apreensão e o acesso legal a todos os documentos e mensagens do Demarco.

O acesso interessava a Daniel Dantas. Serviria para alimentar o Opportunity na batalha judicial contra o sócio em Cayman. Na mesma edição, CartaCapital mostrava sinais de ligação entre Regina Yazbek e o Opportunity. 

Agora, neste contexto do Projeto Tóquio em julho de 2004, CartaCapital publica um inédito e indicativo diálogo entre a mesma Regina Yazbek e Eduardo Sampaio, presidente da Kroll no Brasil. Trechos abaixo, integra abaixo:

Regina:
– Eduardo!

Eduardo:
– Tudo Bom?

– (...)

Eduardo:

– Pode ser, né? Pode ser que (ele) esteja percebendo que tem alguma coisa vazando, que tem informações...

Regina:

– Eu acho que ele tá percebendo mesmo, viu? ...por isso eu quero mandar os e-mails para você e outros CDs para não deixar aqui também.

Eduardo:

– Tá jóia, manda tudo pra mim, então.

Sete foram as capas sobre a maior disputa societária do capitalismo amarelo – e verde – desde 2001. Nas últimas, “Opportunity: o governo fecha o cerco”, de 24 de setembro de 2003, e “...E Daniel Dantas caiu...”, de 15 de outubro passado, antecipavam-se as manobras da antevéspera numa, e narrava-se noutra como o governo, através da Previ e do BNDES, operou para destituir Daniel Dantas da gestão de fundos que controlam empresas privatizadas.

Por quatro anos, na chamada “grande imprensa”, a imprensa de papel, silêncio a cada capítulo dessa gigantesca batalha. Salvo surtos sazonais, ora no JB, ora na Folha, e matérias, muitas, apenas quanto aos aspectos comerciais da disputa.

CartaCapital, tantas batalhas depois, permite-se opinar. Até porque, no caso, a opinião é um elemento a mais de reflexão para os leitores, para compreensão dos mecanismos de poder no Brasil. E a mídia é, cada vez mais, poderoso instrumento de poder.

Marcio Aith, editor do caderno Dinheiro da Folha de S.Paulo, e equipe, de posse do material do Projeto Tóquio, fizeram o que deveriam fazer sempre os jornalistas: trabalharam – com competência, eficácia e brilho – e o publicaram.

É preciso anotar, porém, que as coisas chegaram aonde chegaram, mais uma vez, por conta do silêncio da imprensa de papel. A mesma que se esconde, faz de conta que nada vê, lê, ou ouve, por exemplo, quanto à humilhante, e mais que isso, corrosiva perigosíssima, infiltração de Serviços de Inteligência estrangeiros no Brasil. (Estatais ou mesmo privados, como se vê agora na batalha Opportunity vs. TIM.)

Não notam, ou fazem de conta não perceber, a solar conexão entre fatos e casos da espionagem verde-amarela – de resto analisada nesses dias pelo colunista Jânio de Freitas, da Folha – e a grampearia gringa. Uns, como agora se viu com clareza, se alimentam de outros num ambiente de avassaladora permissividade.

Daqui a alguns meses ou anos, anotem, caros leitores, a pólvora será descoberta. Espera-se que antes de os barris explodirem. Por que tanto silêncio? Por que tantos tiveram de esperar tanto tempo para saber o que de fato eram, são, significam o Grupo Opportunity e, mesmo, tantos dos seus adversários?

No caso de CartaCapital, uns murmuram – com suas razões ou não – não simpatizar com quem dirige esta revista, que seria excessivamente crítica para o paladar local. Outros, por osmose, incluem no pacote além de toda a equipe quiçá o Max, da administração, e a Ritinha – que faz tudo e ainda providencia o cafezinho. A arma é a de sempre: silêncio.

Sabe-se que idiossincrasias contam, e muito, mas é de se supor que jornalistas conheçam o bê-á-bá da profissão: não se discute com os fatos.

Os fatos indicam que, na trilha da repercussão do caso Kroll/Opportunity, o governo, ou setores da administração, ensaia ressuscitar a Lei da Mordaça, legislar para impedir a divulgação do conteúdo de fitas grampeadas...

Não deixam de ser idéias, opiniões, mas que tal o governo trabalhar para impedir o festim do grampo, da espionagem desenfreada, antes de obrar para vetar a divulgação dos resultados da grampearia? Veto, além de tudo, inútil, ainda mais em tempos de internet.

Vejamos o desfecho desse capítulo da novela Daniel Dantas contra o mundo.

A polícia do Estado brasileiro, depois de uma luta encarniçada contra uma rede de arapongagem que incluía num só campo porções da multinacional Kroll, dos investigados Dantas e Cicco, e de si mesma, foi surpreendida quando se preparava para o desfecho do caso. O vazamento do Projeto Tóquio, é seguro afirmar, espantou a caça.

Anuncia-se, agora, depois da detenção do jovem luso Verdial, a existência de outros pedidos de prisão: um deles contra William, o Bill, o Goodall. Talvez, quem sabe, um ou outro espia verde-amarelo também sambe, mas resta um fato; mais uma vez os fatos. Este, carregado de ironia. 

A Telecom Italia, ao entregar à Polícia Federal o relatório do Projeto Tóquio e não perceber as conseqüências do iminente vazamento, provocou dois movimentos.

No primeiro, a seu favor, transformou em moribundo o proprietário de uma sigla que, ela mesma, já se esboroara por conta de sua própria história. No segundo movimento, extrema ironia, abortou a operação que ultimava ações para, como diríamos, reduzir o espaço de liberdade exatamente de seus maiores adversários.

A propósito, recorra-se à literatura. No livro de Josimar Melo – Berinjela se Escreve com J – (DBA, 1999) a epígrafe é de Daniel Dantas. Profético, o banqueiro ensina:

– O ideal é não esperar pelo momento ideal.

Documentos, Regina, a Kroll e o Opportunity
O presidente da Kroll no Brasil, a ex-mulher de Demarco e a entrega de certos e-mails e Cds...
Regina Yazbek: Eduardo!
Eduardo Sampaio: Tudo bom?
RY: Então, deixa eu te falar um negócio.
ES: Recebi o negócio, obrigado.
RY: Ah, recebeu o último, mas eu vou mandar todos para você… tá acontecendo alguma coisa esquisita lá… o seguinte:
ES: O camarada do helicóptero???
RY: Hã?!
ES: Você falou do rapaz do helicóptero?!…
RY: Não, com o Demarco mesmo. Ele pediu pro… pro sócio do Galego, é superamigo do Galego. Disse: “Olha, eu posso guardar o carro lá, a BMW, na sua casa? E o menino falou que não! …porque na minha leitura, e do Galego também, fazendo uma leitura rápida… aí ele vai dizer para mim onde está o carro, eu vou lá e pego, aí o Demarco me liga a ele, entendeu? …É muito esquisito a gente estar pensando a mesma coisa que ele.
ES: Pode ser, né? Pode ser que esteja percebendo que tem alguma coisa vazando, que tem informações…
RY: Eu acho que ele tá percebendo mesmo, viu?! …por isso que eu quero mandar os e-mails para você e os outros CDs, para não deixar aqui também.
ES: Tá jóia, manda tudo para mim, então.
RY: Tá. E o negócio do carro, você conseguiu?
ES: Eu não tive resposta do pessoal. Eu pedi para o Fernando cuidar disso. Ele ligou para o camarada, eu não sei se tem alguma resposta. Me dá um minutinho…
RY: Pede para ele… porque eu estou achando que tem que tirar este carro hoje de lá, viu?!
ES: O assunto é que… eu vou fazer o seguinte: eu vejo com ele, que a gente pediu para o pessoal dar uma olhada naquele endereço que você nos passou.
RY: Olha que coisa esquisita!
ES: Se tiver alguma coisa, eu passo para você.
RY: E você pediu para, se estivesse lá, alguém ficar lá, não?
ES: Exatamente, para manter a gente informado. Para que ligasse assim que tivesse.
RY: É muito esquisito, né? Ele pedir para o menino?

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