Voz do agronegócio
30/05/2008 15:38:15
Cynara Menezes

Filho, neto e tataraneto de agricultores, como diz, Blairo Maggi não se acanha em explicar que migrou do Paraná para o centro do Brasil há 26 anos, como muitos outros, “pela agricultura, não pela natureza”. Até por isso, pede um tratamento para o Mato Grosso diferenciado dos outros estados da chamada Amazônia Legal. E aproveita para jogar o título de “campeão do desmatamento” no colo do Pará.
CartaCapital: Como o senhor se sente tendo sido ungido pelos ambientalistas como o “vilão do desmatamento”?
Blairo Maggi: Tenho de responder? Primeiro, não me considero vilão nem que a opinião deles seja correta. Isso demonstra desconhecimento das coisas de Mato Grosso, do que fizemos, e também um grande preconceito contra a atividade de produção de alimentos. Temos apenas 8% do território para fazer agricultura e ajudamos a alimentar o Brasil e o mundo. Estamos dispostos a conversar com quem quiser vir ao Mato Grosso conhecer todos os setores da economia e os protocolos de intenções assinados com esses segmentos, de não-agressão ao meio ambiente, de devolução de áreas que foram usadas indevidamente. Somos um estado que respeita o meio ambiente, mas que quer continuar produzindo e se desenvolvendo. Temos o mesmo direito de qualquer brasileiro de querer uma vida melhor.
CC: Até que ponto a soja pode ser considerada alimento?
BM: Que desconhecimento. A soja é a proteína mais barata que existe no mundo. Nem sei o que aconteceria com a humanidade se a soja sumisse, como aconteceu com a batata na Europa, no século XIX, matando milhões de pessoas. Se isso ocorresse com a soja hoje, bilhões de pessoas morreriam, porque, além de alimentar animais, também é responsável por uma série de outros alimentos. Se ler o rótulo, vai ver que a grande maioria dos produtos alimentícios contém soja. O simples fato de os americanos passarem a produzir um pouco menos de soja para fazer etanol de milho fez a saca passar de 10 para 22 dólares. Se não fosse um produto importante, não teria esse reflexo no preço por uma mexidinha.
CC: O senhor vai trabalhar pelo fim da resolução do CMN que proíbe o crédito oficial aos municípios com problemas ambientais?
BM: Nunca discuti o decreto impedindo o acesso ao crédito, obrigando o recadastramento dos 36 municípios que mais desmatam, dos quais 19 são de Mato Grosso. Diferentemente da Federação da Agricultura, dos Pecuaristas, que queriam que o estado se posicionasse contrariamente. Sempre disse que, primeiro, tínhamos de fazer a lição de casa para, depois, voltar a discutir qualquer flexibilização. Mas aí saiu a portaria da ministra, incluindo todos os demais municípios que fazem parte do bioma amazônico. Não tem como aceitar. Temos 45% da economia dentro desses municípios, em torno de 12 milhões de toneladas de grãos vêm dessa região, 68% do rebanho bovino. Não dá para simplesmente parar por falta de crédito. Tenho lido e ouvido muitas pessoas dizerem que esses créditos que estão sendo cortados seriam para a abertura de novas áreas ou novos negócios e não é isso que reivindicamos. Reivindicamos a continuidade das atividades econômicas. Até porque não temos condições de recepcionar todas as licenças ambientais que estão sendo pedidas neste momento. Não é um ato simples, tem de ter toda documentação. Demora no mínimo um ano.
CC: Mas pretende agir para que essa resolução caia?
BM: Vou. Inclusive, fiz um documento ao presidente da República, ao Ministério da Agricultura e à Casa Civil mostrando que seria um embargo econômico, iria quebrar literalmente o estado.
CC: Há um conflito entre as atividades econômicas e o meio ambiente em Mato Grosso?
BM: De forma nenhuma. O estado vem mantendo sua área de produção, que não cresceu nos últimos três anos. Inclusive os setores compradores, as tradings que operam no estado, têm uma moratória da soja assinada com compradores internacionais. Não se compra 1 quilo de soja, não se exporta de áreas que foram incorporadas ao sistema produtivo depois de 2006.
CC: O senhor se chateia quando seu estado é chamado de “Desmato” Grosso?
BM: Não conhecia esse termo, mas não serve para nós, não. Até porque quem deve ter esse nome é o Pará, que é o maior desmatador nos últimos dois anos. Não somos nós.
CC: Como será o relacionamento do senhor com o ministro Carlos Minc?
BM: Espero que o melhor possível. Estou pronto ao diálogo, a conversar. Nossa conversa começa de um nível muito bom, do zero, porque ele não conhece meu estado, não conhece a Amazônia, as nossas dificuldades, nossas vantagens, nossas potencialidades.
CC: Vocês não começaram com o pé direito, não é?
BM: Fizeram muita intriga e talvez isso tenha sido bom para os dois.
CC: O senhor criticou nos jornais as ações de fiscalização da Polícia Federal. Por quê?
BM: A crítica que fiz foi quanto ao comportamento de algumas pessoas que cometem atos arbitrários contra uma população que às vezes nem está envolvida. Não reclamei só na mídia, reclamei na Presidência da República e com o doutor Luiz Fernando Corrêa, diretor-geral da PF. Também já recebi reclamação que a nossa PM usou de excesso de força e tenho feito as correções necessárias.
CC: Acha que houve exageros, então?
BM: Com toda certeza. Como chegar num bar, num restaurante, com metralhadora, botar em cima da mesa. Brigas que ocorreram em Alta Floresta com a Força de Segurança Nacional, de agredir garotos na rua, ficar desfilando de caminhonete para cima e para baixo. Ora, faça sua operação, mas vá para o hotel, fique à paisana. Não usar da força, do exibicionismo, da pirotecnia. Para quê? Para assustar a população que já está assustada, que perdeu seu emprego porque a fiscalização chegou e apertou? Junto com a fiscalização, têm de vir também as compensações. O cidadão que perdeu o emprego numa serraria ilegal não pode ficar sem nada para comer. Como sustenta os filhos?
CC: Quando os primeiros colonos começaram a vir do Sul para o Mato Grosso, nos anos 60, eram tidos como desbravadores. Hoje, com mais consciência ecológica, são considerados desmatadores. O senhor se sente vítima dessa nova visão?
BM: Isso não é uma nova visão, é um preconceito. E injustificável, porque os mesmos que criticam essa atividade agrícola se alimentam dela. Não existe vida sobre a terra sem a agricultura nem a tão gostosa cervejinha do final do dia. As pessoas vieram para o Mato Grosso, para Rondônia, dentro de programas de governo ou empregados em grandes incorporadoras que receberam terras gratuitamente para vir aqui e começar a ocupar, e que eram obrigados a desmatar 50% de suas áreas na época. Éramos os novos bandeirantes e hoje somos os bandidos da humanidade. Não dá para entender e eu jamais vou aceitar.
CC: As pessoas que foram trazidas não eram extrativistas como os originários da região, mas agricultores, pecuaristas...
BM: As pessoas do Acre, Roraima, Amapá, Pará, Amazonas, nasceram na floresta, vivem dela. Têm uma economia baseada na floresta. Lá, se você tirar a floresta, vai ter um desequilíbrio não só ambiental, mas econômico, também. É diferente aqui. Sou tataraneto de agricultor, vim aqui por causa da agricultura, não da natureza. Não temos floresta no DNA, temos agricultura. Inclusive reivindicamos uma política diferente para o nosso estado. Não podemos esquecer que mais da metade do nosso território não é a Amazônia, é ligado ao Centro-Oeste, dentro do Cerrado. Olhar o Mato Grosso inteiro como floresta é um erro muito grande.