As recentes críticas à produção de biocombustíveis fizeram o presidente Lula retornar às metáforas futebolísticas para revidar. “Quando a gente não tem um jogador bom no time, a gente pode passar o jogo inteiro sem sofrer uma falta. Assim também é com o Brasil. A partir do momento que passamos a nos tornar uma referência na área de biocombustíveis, as pessoas começam a nos criticar. E, muitas vezes, falam até mesmo com leviandade”, disse na quarta-feira 23, durante a cerimônia comemorativa dos 35 anos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Brasília.
A metáfora tinha como destino o relator da ONU, Jean Ziegler, que dia 14 deste mês considerou o fomento aos biocombustíveis um “crime contra a humanidade”, em vista dos problemas que o mundo enfrenta com a alta dos preços dos alimentos.
O Brasil tem tomado as dores no caso dos biocombustíveis, apesar de as críticas não necessariamente serem dirigidas ao País. Há sinais claros de que a expansão do etanol de milho nos EUA tem reduzido a oferta do grão como alimento. Aqui, porém, a produção de biocombustíveis, especialmente o etanol à base de cana-de-açúcar, não ameaça lavouras de gêneros alimentícios.
“O problema é que a opinião pública mundial associa etanol ao Brasil, enquanto, na verdade, a explosão dos preços dos alimentos está diretamente associada à produção de etanol nos EUA, algo que o senso comum desconhece. É um problema de comunicação”, avalia Antonio Márcio Buainain, pesquisador do Núcleo de Economia Agrícola e Ambiental e professor de Economia da Unicamp. Ele não descarta o risco de que as lavouras de cana pressionem as demais, mas considera que razões econômicas impeçam uma invasão. “O setor canavieiro encontra oferta de terras mais baratas em pastagens degradadas, que podem ser facilmente recuperadas, do que nas áreas de lavouras.”
Buainain destaca, também, o fato de a produção de álcool no País ser regulada pelo Estado. “Este não é um setor totalmente livre. Nasceu regulado, ganhou autonomia e volta a ser regulado. Não interessa nem ao setor nem ao Estado nem à sociedade democrática uma expansão selvagem da cana”, diz. Ele menciona, além da maior conscientização de que é preciso respeitar uma série de regras civilizadas (como as trabalhistas), a elaboração do novo zoneamento das áreas para lavouras, a ser apresentado pela Embrapa ainda neste primeiro semestre. “Não é permitido plantar cana na bacia do Pantanal, por exemplo. O novo zoneamento será mais sério e rígido.”
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgará em breve um estudo que derruba a tese de que o etanol reduz a produção de alimentos. O levantamento das áreas de expansão da cana na última safra mostrará que o avanço se deu principalmente sobre áreas de pastagens. No Centro-Sul, que concentra a maior parte das novas lavouras, dos 617 mil hectares de áreas de expansão, 409 mil eram pastagens, 110 mil hectares eram lavouras de soja e 32 mil, de milho.
“Não faz sentido proibir a biomassa simplesmente porque isso não é uma escolha, é uma necessidade”, categoriza Ângelo Bressan Filho, consultor da Conab e ex-diretor do Departamento de Agroenergia do Ministério da Agricultura. “A questão energética está a cada dia mais grave e isso tem de ser discutido de outra perspectiva. Os países ricos precisam desenvolver grandes programas de transferência de tecnologia, crédito e modelos de organização da produção, tanto de combustíveis como de alimentos, aos mais pobres. Não há saída.”
No entender de Bressan Filho, é impossível comparar o Brasil com qualquer outro país. “Nós temos espaço, água, matéria-prima e somos capazes de produzir quase tudo. O Brasil tem de liderar esse processo e ser capaz de mostrar ao mundo que mudanças são possíveis, viáveis, e para todos.”
Mais uma vez, e como parece ser a característica nacional, o horizonte apresenta magníficas potencialidades. Resta, como sempre, cumprir a promessa. Na avaliação de Lucilio Rogério Aparecido Alves, professor da Esalq/USP, o sonho ainda está distante. Ele reconhece a inegável vantagem da produtividade do etanol da cana-de-açúcar (superior a qualquer outra cultura), mas entende que o governo se precipitou ao lançar o programa de biocombustíveis. “O anúncio ocorreu em um momento de euforia e otimismo mundiais com a energia limpa. Hoje, 90% do biocombustível brasileiro é produzido com soja, simplesmente porque não há outra matéria-prima disponível. Para se ter uma idéia, não produzimos mamona suficiente, e há usinas de processamento de biodiesel paradas por falta de material. As pesquisas com matérias-primas diferentes começaram apenas em 2007 e ainda são preliminares, essa é a realidade”, critica.