O dólar afunda nos mercados globais e Ben Bernanke promete novas reduções dos juros básicos americanos. Nesse cenário, as taxas brasileiras e as expectativas de valorização do real fazem boa figura. A despeito da redução gradual dos juros nativos, a distância entre as taxas em dólar e em real ampliou-se significativamente. Nos últimos meses, tudo indica, a diferença estimulou o carry trade entre a moeda brasileira, em processo de valorização, e a americana, em queda nos mercados globais.
Na contramão dos resultados dos últimos anos, não haverá surpresa no campeonato de taxas de crescimento de 2008 se o ritmo de expansão da economia brasileira se alçar acima da média. Associada ao câmbio generoso com as importações, essa vantagem na disputa pelo crescimento costuma produzir reversões inesperadas e funestas na balança comercial e, daí, no saldo em conta corrente.
O Brasil tem a seu favor a febre das commodities, agora reforçada pelo desespero dos hedge funds, que correm atrás de grana para contrabalançar os prejuízos acumulados com os micos do mercado imobiliário. Oremos.
As melhores simulações antecipam um déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. Mantidas as taxas de crescimento das importações e das exportações de mercadorias – mais o buraco na conta de serviços –, não é improvável que o saldo negativo seja alentado. As crises de balanço de pagamentos são temidas por seu potencial desestabilizador em países de moeda não conversível. A força da moeda brasileira enriqueceu os espertos como Warren Buffett e alimentou as ilusões dos desavisados.
Nos dois primeiros meses do ano, o ingresso de investimento estrangeiro de portfólio – mais renda fixa e menos Bolsa – adicionou combustível extra ao estoque dos ativos líquidos no passivo externo. Nada que desmoralize as operações com derivativos (DI x dólar). A política monetária do Banco Central convenceu o mercado: a aposta no real é de baixo risco e de lucros garantidos.
Em sistema com taxas flutuantes – ampla e rápida mobilidade de capitais e provimento de liquidez através do mercado, mediante a ação de agentes privados especializados –, as taxas de câmbio dos emergentes tornam-se cada vez mais sensíveis às bruscas mudanças de expectativas. Nesse sistema são muito mais freqüentes as crises de liquidez, resolvidas de forma truculenta. Ciclos de valorização de moedas frágeis são seguidos de desvalorização abrupta. As intervenções ex-post da política monetária – elevação dos juros – são ineficazes quando se estabelece um novo “consenso de mercado” a respeito da direção do câmbio.
A literatura recente é quase unânime em reconhecer: depois da crise de 1997-98, a estratégia dos asiáticos de geração de saldos comerciais e acumulação de reservas foi concebida para defender a moeda nacional de ataques especulativos. Os episódios do fim dos anos 90 são recentes ou nem tão remotos a ponto de apagar da memória dos brasileiros os custos de uma crise cambial.
Com indiferença, quase desdém, os analistas reagiram à investida do governo destinada a conter o apetite dos investidores pela moeda local. Houve moderação nas medidas. O IOF de 1,5% sobre o valor das operações em renda fixa foi camarada. Em tempos de crise financeira global, é de cautela amaciar as barbas no molho. Como o lusitano da piada, o governo tratou de advertir os incautos: sua mãe subiu ao telhado.