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Sociedade
FECHAR Rodrigo Martins

Júri popular

25/04/2008 13:01:45

Rodrigo Martins

Quarta-feira, 2 horas da tarde. Mais uma vez, a cena se repete diante do 9º Distrito Policial, na zona norte de São Paulo. Num vaivém intenso, um pelotão de repórteres, cinegrafistas e fotógrafos disputa espaço na porta da delegacia com os curiosos de plantão. Há de tudo. Operários em horário de almoço, vizinhas bisbilhoteiras, homens fantasiados e com nariz de palhaço.

Tem sido assim desde a morte da menina Isabella, de 5 anos, atirada da janela do sexto andar do apartamento do pai, Alexandre Nardoni, no fim de março. Nas últimas semanas, as casas de familiares e vizinhos já foram alvo de pichações, depredação e tentativas de arrombamento. Para evitar invasões, a família de Alexandre, principal suspeito do crime, ao lado da esposa, Anna Carolina Jatobá, contrataram seguranças.

“O circo começa a pegar fogo por volta das 5 da tarde, quando começam os telejornais”, comenta um vigia sisudo, postado na frente da casa do avô paterno de Isabella, no bairro do Tucuruvi. O vizinho José Roberto Bernardes, de 49 anos, confirma a versão. “Até acho válido a imprensa divulgar e a população protestar. Mas o pessoal jogava pedra, chutava o portão. Isso não é certo”, comenta. Diante do prédio onde mora a família Jatobá, em Guarulhos (SP), dois invasores foram detidos pela polícia. Nas paredes do prédio, restam os cartazes de protesto, com fotos do casal atrás de grades traçadas à caneta.

Naquela tarde, diante da delegacia, todos aguardam a chegada de Antonio e Cristiane Nardoni, avô paterno e tia da garota, convocados para depor sobre o caso. Ávidos por novidades, quaisquer que sejam, os jornalistas caçam funcionários da delegacia atrás de informações. Um mínimo detalhe, quase sempre irrelevante, basta para um flash. “A polícia já está ouvindo outra testemunha, mas não tivemos a confirmação de quem seria”, informa um repórter ao vivo, com ar circunspeto de quem acaba de dar uma informação bombástica.

Enquanto isso, os curiosos se multiplicam. No começo, não passavam de meia dúzia de espectadores. Com o passar do tempo, somam 30, talvez 40 manifestantes. “Todo mundo sabe que a família está envolvida no caso. O avô da menina é advogado e tenta acobertar o filho. Vi tudo na tevê. Acho que o povo tem de ficar em cima para acelerar o trabalho da polícia”, afirma o segurança Francisco Marques, de 55 anos, que trocou o período de descanso pela vigília na porta da delegacia.

O aposentado João Mendes da Silva, de 66 anos, vive em Barueri e enfrentou mais de uma hora de viagem de ônibus apenas para acompanhar o caso de perto. “Vim aqui para xingar esses canalhas, facínoras. Trinta anos de cadeia é pouco. Precisamos é de pena de morte no Brasil”, defende. 

O clamor pela pena capital ganha eco na fala da dona de casa Neusa dos Santos Pasqua, de 65 anos, que aumentou a freqüência das visitas à casa da irmã, Diva, só para dar umas escapulidas para a porta da delegacia, que fica nos arredores. Era a quarta vez que ficava plantada ali, na calçada. “Não resta dúvida de que o pai e a madrasta são os culpados. O pior é que um advogado disse na tevê que, mesmo condenados, eles poderão sair da cadeia em dois anos. Então, é melhor cortar as mãos deles.”

Alguns curiosos não escondem o desejo de aparecer diante das câmeras. Ora fantasiado de anjo, ora de caveira, o aposentado Amaury Guedes, de 75 anos, busca os holofotes para advogar sua causa. “Quero aproveitar essa tragédia para divulgar a minha e de outros 8 mil funcionários mantidos pelos fundos de pensão Aeros e Aerus, que estão morrendo de fome por não receber os benefícios”, diz o ex-comissário da Varig, pouco antes de reclamar da falta de atenção da mídia. O desdém dos repórteres não é por acaso. Há tempos, Guedes utiliza a mesma estratégia. Já esteve fantasiado, por exemplo, no desabamento da Linha Amarela do Metrô e ao lado dos destroços do avião da TAM.

A curiosidade do público também é vista, por alguns, como uma oportunidade de obter uma renda extra. O sorveteiro Antonio Pereira da Silva, 66 anos, resolveu se instalar na frente da delegacia há três semanas. “Vendo cem picolés por dia. Uma vez, vendi mais de 200. Somente agora o movimento está caindo um pouco. Acho que essa história já está cansando o pessoal.”

Para a mídia, o caso deixará saudades. Com a morte da menina Isabella, a audiência dos telejornais cresceu até 46% na primeira quinzena de abril. O fenômeno talvez explique a ampliação dos horários de programas noticiosos, a inclusão do tema em atrações de culinária e a mobilização permanente de ao menos 60 jornalistas para acompanhar o caso na delegacia.

Ao chegar a notícia de que o avô e a tia de Isabella já saíram de casa para o depoimento, o público se assanha. Com câmeras em punho, os jornalistas suspeitam de cada veículo que passa. Os curiosos fazem chacota. “Esse daí deve ser o tio do Nardoni.” Surpreendidos com o reboliço, alguns motoristas entram na brincadeira. “Não sou eu, não. O assassino vem mais tarde.” 

Passados alguns alarmes falsos, desponta o carro verdadeiro. Os jornalistas correm para fechar o cerco. A população também avança aos berros: “Família de assassinos. Vai morrer!” Até mesmo mulheres com criança no colo e idosos trotam em direção ao carro ensandecidos. Muitos começam a socar e a chutar a lataria do automóvel. Um cordão de policiais procura proteger as testemunhas quando tentam sair do veículo.

Os microfones avançam na direção de Cristiane Nardoni, que perde o equilíbrio e cai diante de um repórter. O pai consegue se desvencilhar da turba com mais facilidade. Mesmo após entrar na delegacia, são alvo de xingamento por mais alguns minutos. Depois, a turba volta para a calçada e desenrola uma faixa de 5 metros, a elogiar o trabalho dos investigadores e a pedir a revisão do Código Penal, por punições mais severas.

Uma das mulheres que ostentam a faixa é Márcia Soares de Souza, de 45 anos, que ajudou a esmurrar o carro. “Se eles fossem pobres, já estariam presos, julgados e condenados”, exalta-se. 

Sem ser convidado, um bêbado se agarra à faixa. “Filma mesmo, filma mesmo. É a massa que se levanta”, grita, com a voz pastosa. A distância, uma senhora ironiza a situação: “Esse daí é o advogado de defesa. Abandonou o caso, caiu na bebedeira, perdeu os dentes e agora quer justiça”. 

O grupo demora a ir embora. Durante a saída das testemunhas, por volta das 9 horas da noite, ainda houve confusão. João, o aposentado que defende a pena de morte, tentou atirar uma pedra contra Antonio Nardoni e quase acertou o carro dos advogados. Acabou detido pela polícia e liberado mais tarde.

Quando os holofotes se apagam, os anônimos se dispersam.

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