Com traje de guerra, um índio desponta do emaranhado de barracas de lona preta erguido às margens da rodovia MS-289, na área rural de Coronel Sapucaia, Mato Grosso do Sul. O sol abrasador do meio-dia fustiga o rosto do jovem guerreiro, ornamentado com expressivas pinceladas de tinta negra. O olhar atento às movimentações na entrada do acampamento e as mãos atarracadas ao arco e flecha transparecem um ar belicoso, estranho à tradição pacifista dos indígenas guarani-kaiowá, que ocupam a área. Tão logo os visitantes são identificados, a tensão é dissipada. Dá espaço a uma calorosa recepção, com direito a dança de boas-vindas animada por chocalhos e apitos.
A desconfiança dos indígenas não é gratuita. Deve-se à constante presença de pistoleiros nas imediações da aldeia. Localizado na divisa com o Paraguai, Coronel Sapucaia detém o título de município mais violento do Brasil. Está na liderança do Mapa da Violência, divulgado em janeiro deste ano pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), por ostentar a elevadíssima média de 107,2 assassinatos para cada 100 mil habitantes, índice três vezes superior ao da capital, Campo Grande. A cidade fronteiriça está na rota do contrabando e do tráfico de drogas, um obscuro ponto do estado onde a vida de um homem pode custar menos de 150 reais, conforme revelam inquéritos policiais sobre a atuação de matadores de aluguel.
Mas não são os traficantes e contrabandistas que preocupam os indígenas do acampamento, montado nos limites entre a aldeia Taquapiry e um vastíssimo milharal, que nos meses de chuva abriga o cultivo da soja. Desde janeiro de 2007, um grupo de aproximadamente 200 índios protagoniza uma trágica epopéia envolta em conflitos com fazendeiros da região. De lá pra cá, os sucessivos confrontos resultaram no saldo de dois índios assassinados, quatro baleados e três lideranças da aldeia presas.
O grupo reivindica a posse de uma área de 2 mil hectares, onde hoje está erguida a Fazenda Madama, na divisa entre os municípios de Amambaí e Coronel Sapucaia. “Essa terra pertenceu aos nossos avós, que foram expulsos pelos brancos”, afirma o líder kaiowá Roberto Martins, de 38 anos. A aldeia Taquapiry, argumenta Martins, tornou-se pequena demais para abrigar a crescente população indígena: tem apenas 1,7 mil hectares para 2,4 mil índios. “É pouca terra para plantar. A mandioca, o milho... Não dá para todo mundo”, diz.
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