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Sociedade
FECHAR Luiz Antonio Cintra

Brizola sem retoques

24/07/2008 17:23:57

Luiz Antonio Cintra

Assessor de Leonel Brizola a partir da década de 80, o jornalista cearense Francisco das Chagas Leite Filho, FC Leite Filho como é conhecido, extraiu dessa convivência e de inúmeras entrevistas que realizou inclusive no exterior as histórias para a biografia El Caudillo. Recém-lançada na Câmara dos Deputados, em Brasília, onde o jornalista é assessor da liderança do PDT, aborda em detalhes o período em que Brizola foi eleito governador do Rio Grande do Sul, aos 37 anos, quando viveria sua fase heróica. E seus dois mandatos de governador do Rio de Janeiro, marcados pelo enfrentamento com a mídia, de modo geral, e com a Globo, em especial. 

CartaCapital: O Brizola nasceu no meio rural, foi fazendeiro no Uruguai. Em que medida essas origens influenciram sua vida política?
FC Leite Filho:
Não sou sociólogo nem antropólogo, por isso optei por fazer um perfil biográfico. É apenas um lado da biografia que está no livro. Mas é possível pegar o exemplo dos irmãos dele. O Brizola foi o único cara que sobressaiu-se entre os irmãos. Era um cara muito inteligente, muito esperto na verdade, sempre muito ligado à mãe, dona Oniva, professora primária. Todos receberam a mesma educação. Dos cinco irmãos, alguns meio-irmãos do segundo casamento de dona Oniva. tem um motorista de caminhão, outro pequeno produtor rural, um ou outro advogado, mas aí já ajudados pelo irmão governador. Eram classe média. Na verdade, a irmã mais velha, Francisca, a Quica Brizola, também sobressaiu-se. Essa história da influência do meio é muito relativa. Não concordo com aqueles que diziam que o Brizola era uma figura ressentida por ter vindo do meio rural, com o pai assassinado. (O pai de Brizola foi morto pela guarda militar gaúcha, em 1924, quando Brizola tinha menos de dois anos, após a assinatura de um acordo de paz firmado entre os maragatos, grupo de José Brizola e os chimangos, governistas. José participava de um regimento guerrilheiro cujo comandante chamava-se Leonel, de onde menino Itagiba de Moura Brizola tiraria seu nome.) Quando olhamos para a figura do Brizola, vemos que não existe nada disso, ao contrário. Era um bon vivant que trabalhava muito, praticamente vinte e quatro horas por dia. E tinha uma noção incrível do que era a vida. Quando perdia uma eleição, nunca apelava para golpes ou ameaças. Nas três vezes em que foi governador, uma no Rio Grande do Sul e duas no Rio de Janeiro, teve derrotas memoráveis na Assembléia e sempre manteve um relacionamento correto com os deputados. Era muito diferente do Carlos Lacerda, por exemplo, um cara atrabilioso. Na renúncia do Jânio, o Lacerda, governador do Rio na ocasião, prendeu todo mundo, empastelou rádios, jornais, apreendeu o Jornal do Brasil duas ou três vezes... Com o Brizola nunca teve nada disso. Agora (o meio) tem lá as suas influências. A linguagem do Brizola, por exemplo, era uma linguagem toda campesina, as parábolas que ele fazia. Ou o amor dele ao campo. Só a reforma agrária que ele fez no Rio Grande do Sul mereceria um outro livro porque foi uma coisa magnífica. Até hoje essas iniciativas perduram. Os assentamentos que ele realizou lá são até hoje um oásis no estado. Alguns foram abandonados... mesmo com toda a perseguição política a ele, foi uma coisa muito importante.

CC: No seu livro, esses assentamentos aparecem como uma espécie de embrião do MST.
FCLF:
De fato, esses assentamentos foram o embrião. Inclusive o próprio João Pedro Stédile, que é filho de um dos assentados e se orgulha muito disso. Agora é claro que mais tarde houve uma separação entre o PT e o PDT, que repercutiu muito negativamente e destruiu o Brizola, que tinha como meta fazer o Lula seu vice, embora ele nunca tenha falado disso. E seria mesmo uma chapa invencível naquela época.

CC: Nesta fase inicial, ainda nos anos 40, Brizola entra para a política na esteira do movimento getulista. Qual a importância da relação dele com o Getúlio Vargas para a formação política do Brizola?
FCLF:
Essa relação é uma relação mais idealizada. Ele forma a chamada ala moça do PTB e, como era um cara muito atirado, ele se vê ainda muito jovem deputado estadual. Mas ele faz um partido orgânico nessa ocasião. Apesar de ser tido como um bagunceiro, Brizola era uma pessoa muito organizada. Para compor a ala moça, ele pega alguns líderes operários, líderes estudantis, comércio… era muito jovem e muito esperto, tinha vivido na pobreza e visto muita coisa, e faz um aglomerado que era de fato um autêntico partido político, um partido na sua essência. Não era essa representatividade que temos hoje, totalmente na base da farsa, quando se engana o eleitor, compra todo mundo, paga sanduíche para todo mundo fazer uma reunião. Brizola não, e isso em um momento em que o Rio Grande do Sul era um estado muito politizado. Então eles pegavam a situação do ferroviário, do estudante, do operário, e estudavam, tiravam propostas.

CC: Como se deu a aproximação com Vargas?
FCLF:
Não consegui saber como se deu essa aproximação, mas de repente está lá o Brizola, então um jovem deputado estadual, sendo quase confidente do Vargas. Ele já tinha acesso ao Vargas, vai visitá-lo naquela fazenda do Itu, em São Borja. E o velho, que também era muito esperto, tinha dois pombos-correios, como fala o Batista Luzardo, inclusive para delegações internacionais. O Brizola, um deles, era então muito novinho, tinha 23 ou 24 anos. Quando o Vargas era presidente, o Itamaraty era chefiado por um cara da UDN, depois demitido pelo Vargas, o Neves da Fontoura, um sujeito terrível. Então o Vargas não confiava no Itamaraty e tinha os seus próprios emissários para mandar recados ao Perón, por exemplo.

CC: A primeira função dele no executivo foi como secretário estadual de Obras Públicas. Ali ele se destacou pela qualidade de sua gestão. Como o sr. definiria o estilo Brizola de administrar?
FCLF:
Essa é uma coisa muito interessante de se observar. Veja que ele fazia tudo mobilizando. Hoje os grandes planos de educação, por exemplo, não funcionam porque a população não está engajada naquilo, não está participando. No Rio Grande do Sul, ele fez escolas pequenas, mas bem organizadinhas. Uma das professoras me contou que aulas eram dadas com grande entusiasmo e os alunos muitas vezes iam descalços mas felizes. Depois o Brizola começou a dar também o calçado para os alunos. Eram feitas em convênio com as prefeituras, que davam os terrenos, usava-se a madeira excedente, e a população ajudava, com material e trabalho. Ele chegou a fazer 6,3 mil escolas no primeiro mandato dele. Mas não foi só educação. Ele trouxe uma refinaria para o Rio Grande do Sul, criou também uma siderúrgica, criou o banco de desenvolvimento regional, abrangendo os três estados do Sul do País. O próprio Juscelino era anti-comunista terrível, um cara muito conservador. Um dos depoentes, radialista, me disse que quando queria debater seriamente a situação da categoria tinha de ir para o Rio Grande do Sul, onde havia liberdade para o debate político. O mesmo acontecia com os estudantes. Enquanto o restante do Brasil era todo conservador, reacionário. Por causa disso, o Brizola foi chamado de comunista, apesar de ele ser o maior inimigo dos comunistas.

CC: Nesse primeiro mandato como governador, o Brizola estatizou as concessionárias de energia e telefonia que operavam no estado, ambas multinacionais muito importantes, de capital norte-americano. Como foi esse episódio?
FCLF:
O Brizola dizia que tinha vindo como um estalo. Ele não era uma pessoa lida, culta, era uma pessoa vivida. Ele dizia que aprendia tudo no fazer, na experiência. E de repente vê Porto Alegre e o restante do estado praticamente sem energia nem telefone. Quando vai ver o que está acontecendo, encontra as duas empresas querendo aumento nas tarifas e deixando de investir, utilizando equipamentos antigos, alguns caindo aos pedaços. Ele chama os detentores das concessões, dizendo que essa situação era insustentável diante da necessidade de o estado se desenvolver. As duas empresas muito poderosas, inclusive porque contribuíam para as campanhas eleitorais, com grandes contribuições e desconfio que até mesmo para a campanha do próprio Brizola. Brizola propôs a criação de uma empresa mista, mas eles só topariam se houvesse o aumento da tarifa. Então ele decidiu numa operação super complexa encampar as duas empresas. A essa altura o Fidel já estava há mais de um ano no poder e ainda não tinha feito isso, e o Brizola manda ver... É nesse momento que o Brizola sela o destino da vida dele de não chegar a ser presidente da República. Todas as multinacionais e todo o sistema econômico se voltam contra ele.

CC: E pouco tempo depois há o caso da encampação feita pelo João Goulart, mediante uma régia indenização...
FCLF:
O Jango encampa mas as empresas queriam uma indenização absurda, muito alta, que o Brizola denuncia na imprensa e o Jango acaba não pagando. Quem vai pagar essa conta é o Castelo Branco, depois do golpe militar.

CC: Brizola conta com a intensidade da reação contrária à decisão?
FCLF:
Ele foi transformado na ovelha negra do País pela mídia norte-americana. Todos os documentos e relatórios eram contra ele. Para ele, tratava-se de um ato administrativo. Ele não tinha noção da repercussão violentíssima que aquilo teria. E isso serviu de exemplo para outros estados, que não tinham coragem de fazer algo semelhante para não serem apedrejados. E o Brizola cresceu justamente por isso. Em seguida, já em 1961, vem a campanha da Legalidade, quando ele se afirma como grande líder de projeção nacional. E como um grande general também, é preciso ver isso. Com 38 anos, ele foi um verdadeiro Napoleão, cercou o Exército, assumiu todas as comunicações, colocou o rádio dentro do Palácio do Piratini. E foi o grande líder da mobilização. Aquele discurso dele, quando ameaçam bombardear Porto Alegre, é coisa que passou para a história. Às vezes a gente pensa que não tem heróis, mas temos sim. No livro, eu faço uma comparação com o discurso final do Allende, mas também me remete a Shakespeare, na cena do discurso do Marco Antônio. É muito tocante.

CC: Nesse episódio, o fato de Jango ter aceito a saída parlamentarista, apesar da resistência orquestrada pelo Brizola, deve ter sido uma grande frustração, não?
FCLF:
Aí aparece a primeira briga dos dois cunhados. Depois, já no exílio, eles passariam doze anos sem se falar. Quando Jango decide não resistir, Brizola fica puto da vida... O Brizola era um homem da confrontação e sabia que o Jango era um espírito de contemporizações, um homem da conciliação. Quando foi deposto pelos militares, o Jango achava que voltaria em seis meses, porque era um conciliador. Ele ficaria homiziado como ficou Getúlio, depois reascenderia na política, mas acabou morrendo de desgosto, foi o diabo...

CC: E o Brizola chegava a fazer críticas mais duras ao Jango?
FCLF:
O Brizola era uma pessoa muito íntegra, apesar de ser puto da vida com o João Goulart. Agora o Jango era irmão da mulher dele, da dona Neusa, que tinha o Jango como o irmãozinho querido. Era uma situação complicadíssima, porque o Brizola amava a mulher, quase a santificava, sobretudo no final da vida. Ele tinha ela quase como uma santa, ela era uma espécie de arrimo moral dele também. Também no final do livro eu conto que ele chamou a Denise Goulart, dizendo que eles tiveram mesmo discrepâncias muito fortes ao longo da vida, deixaram de se falar, mas que ele também achava que o Jango era um grande homem, mas não o homem certo para o momento, que requereria um homem do confronto. E na verdade ele tinha razão. Ele ganhou aquela parada da legalidade e chega o Jango e faz o acordo com o Tancredo... O Brizola lembrava muitas vezes desse episódio e dizia: “O Getúlio não, o Getúlio não quis saber de conversa com aquela cúpula do Rio de Janeiro. Ele chegou lá, colocou todo mundo para fora e ainda amarrou o cavalo no obelisco da avenida Rio Branco. Era isso que ele tinha de fazer”. O Brizola a essa altura tinha cem mil homens para ir para Brasília. E não precisava nem de tanto. Bastava falar forte para os militares concordarem, ele sabia disso. No Brasil, é tudo na base do fato consumado. Então o Jango, achando que a política era coisa de conversa, de gabinete, quando não é, na realidade. Aí se perdeu uma grande oportunidade, tanto é que o Brizola se recusou a indicar ministros. Na verdade, ele não se recusou porque o Jango já encontrou o ministério pronto. Os três ministros das Forças Armadas tinha sido escolhidos pelo Tancredo. O da Fazenda, o Moreira Salles, pela comunidade internacional, então os cargos-chaves estavam todos ocupados. Quando Jango já está muito fraco, o Brizola pede para assumir o Ministério da Fazenda e o Jango não deixa. 

CC: O próprio Brizola anuncia ter sido convidado, mas o Jango o desautoriza e convida outra pessoa.
FCLF:
Não teve nada de bastidor, inclusive porque o Brizola sempre agiu às claras. Ele fazia o movimento para que ele fosse o ministro da Fazenda para sustentar o governo, se não o governo ia cair... com aquela política econômica, como ia ser? Aí o Jango com medo, porque o Brizola era muito forte na ocasião e Jango queria continuar no poder, ia ser superado pelo Brizola em termos políticos.

CC: O Brizola chega a denunciar o acordo que o Jango fazia por baixo dos panos para indenizar as empresas norte-americanas com o pagamento de valores exorbitantes. Qual foi o impacto dessa denúncia?
FCLF:
O impacto foi violento. O João Goulart ia viajar para os Estados Unidos em seguida... caiu ministro, caiu o diabo, foi um escândalo enorme. Isso é muito próprio dos governos, que sempre têm responsabilidades de sustentação, e o Jango não queria ficar mal com os Estados Unidos, achou melhor abrir mão. Qualquer outro governo faria o mesmo, provavelmente, agora o Brizola não. Ele tinha um corte transformador, revolucionário, se bem que no final da vida ele dizia que não era revolucionário mas reformista. E não tinha coisa nenhuma de reformista, ele seria um Hugo Chávez aqui, só que com os devidos cuidados. O Chávez, por sinal, não fechou o Congresso, ao contrário, fez eleições, apesar de ser tido como um déspota. Mas faz eleição, perde eleição e respeita o resultado.

CC: O sr. menciona o dilema que ele viveu durante o exílio, quando optou pela guerrilha. Como foi esse episódio?
FCLF:
Na verdade, ele foi forçado a isso. O Brizola tinha muito disso. Quem participou de grupos políticos fortes sabe que os grupos internos muitas vezes se engalfinham e que é preciso atender mesmo sendo contra, às vezes para mostrar a esses grupos que eles estavam errados. Mas tinha que dar uma oportunidade a eles. Ele tentou várias vezes, chamou o Neiva Moreira para ir lá no Uruguai e mostrar a esse pessoal... E ele tinha todo o contexto dos barbudos de Cuba, do Vietnã, então ele falou ‘vamos deixar esse pessoal fazer o que bem entender’, mas não se envolveu diretamente. Ele autorizou, emprestou o nome dele, mas não participou diretamente. Mas ele sabia que não ia dar em nada. E pagou um preço por aquilo. Não se é líder à toa, sempre se paga um preço. 

CC: A maior parte do exílio ele passa no Uruguai?
FCLF:
Sim, no Uruguai, tendo sido inclusive proibido de sair do Uruguai, a não ser por uma viagem a Escócia, para uma cirurgia séria que um filho teve de fazer. Nessa mesma época, morreu a mãe dele, a dona Oniva, e dizia que tinha sido a sorte dele, que enfrentaria os militares para ir ao enterro da mãe. Ele saiu do Uruguai quando foi expulso. 

CC: E como era vida dele no exílio?
FCLF:
No primeiro mês após o golpe de 64, Brizola ficou clandestino em Porto Alegre, tentando organizar o que seria a resistência, tentando levantar o Brasil contra o golpe. Só depois disso decide ir para o Uruguai. Ele ficou em Porto Alegre, escondido na casa do então vice-prefeito da capital gaúcha e de lá saía à noite inclusive indo para o interior do estado. Quando ele chega ao Uruguai, vai para a chefatura de polícia de Montevidéu, onde está toda a imprensa internacional a sua espera. Na verdade, ele já estava no Uruguai a dois ou três dias, tendo viajado em um avião do Jango, com um piloto que trabalhava para o Jango. Para disfarçar e como não queria comprometer ninguém passa esses dias escondido na capital gaúcha. Quem me contou isso foi o João Otávio, filho do Brizola, e a família. A vida dele era aquela vida de fazendeiro. Ele se alimentava muito da vida no campo. Ele nunca vendeu a fazenda dele no Uruguai. Quando ele tinha problemas no Rio de Janeiro, já nos anos 90 e como governador, quando a crise era muito forte, ele ia lá no meio do campo, gostava de campear o gado, era um homem de muita energia, gostava muito de cavalo. Ficava no Uruguai três ou cinco dias e voltava novinho em folha para enfrentar os problemas no Rio. E era de fato terrível, com a Globo em cima. Ele inaugurava um Ciep com piscina e tudo, a maior novidade, e no dia seguinte os jornais noticiavam que a obra teria sido superfaturada. Daí ele precisava de três anos para provar que aquilo não era verdade. E quando saia a decisão da Justiça o jornal dava um rodapezinho de quinta ou sexta página, então era mesmo muito complicado. 

CC: Desde o caso da eleição de 1982, quando uma tentativa de fraude eleitoral quase tira o governo dele. Esse episódio marcou a relação que ele teria como governador com a Globo.
FCLF:
E na realidade não era só a Globo. No final da vida, ele fala que, apesar de a Globo pegar muito no pé dele, era todo o sistema econômico... era Globo, Bandeirantes, Manchete, que ele tinha ajudado muito, eram todos contra ele. Ocorre que esse pessoal tem um padrão internacional e nacional da publicidade que sustenta essas emissoras e não pode se permitir a aberturas mais democráticas em termos de liberdade de imprensa. 

CC: E o que mais assustava na figura do Brizola?
FCLF:
O que metia medo era o fato dele ser um cara que mandava. Muitos empresários querem mandar no governo, querem tutelar o governo. E ele não deixava, era um cara de pegar o touro pelo chifre. Veja aquele caso daquele festival de música, o Rock´n´ Rio. O festival estava programado para durar três dias, mas fez muito sucesso. Só que a vizinhança reclamou, deu uma confusão danada. Ele queriam estender o festival, quando o contrato dizia que o prazo era de três dias. Aí veio a Globo, o Caetano Veloso cantando que o governo estava contra a cultura. Só sei que no outro dia o Brizola mandou passar o trator. E claro que ficaram p. da vida com ele. Então eles sabiam que o Brizola era um cara que mandava realmente e tinham um medo danado porque sabiam que o Brizola ia intervir. Quando ele era governador do Rio, apesar do ódio que o Exército tinha a ele, ele pegava o helicóptero e dissolvia greve de caminhoneiros com forças do Exército. Ele parava o helicóptero na frente do comboio de caminhões, parlamentava com os caminhoneiros e estava acabada a greve. Era uma coisa mais de negociar, não ficava no gabinete dando ordens ou falando com retórica, nada disso, ele descia e ia fazer. 

CC: Como era a relação do Brizola com a Assembléia do Rio?
FCLF:
Era uma relação normal, apesar de algumas sacanagens que havia contra ele. O Brizola gostava muito de ir ao exterior e a Assembléia não queria dar a licença para ele viajar. Daí ele conseguiu no Supremo uma resolução pela qual eu precisaria de apenas uma licença da Assembléia, e não mais a toda viagem. Antes, sempre que queria viajar, tinha de pedir licença à Assembléia e aí vinha mais uma sacanagem, pedindo coisa e tudo para aprovar. Mas na época do Collor, quando já estavam preparando o impeachment dele, ele teve de comprar os deputados, inclusive os do PFL, daí deu uma merda danada, deu escândalo, mas na área do PFL, a Saúde. E ele dizia que ou ele fazia isso ou era deposto, e a sua deposição colocaria em risco toda o seu programa de educação dos Cieps. 

CC: O sr. concorda que os Cieps são a grande marca do Brizola no Rio.
FCLF:
Essa foi a marca dele, eu diria, para efeito externo. A grande marca dele foi a do realizador. O Brizola era o cara que mandava, tinha comando da coisa. 

CC: A relação do Brizola com a educação, no caso dos Cieps, passa pelo contato dele com o Darcy Ribeiro. Como se deu esse encontro?
FCLF:
Era o Darcy e o Niemeyer. O Darcy era muito ligado ao Jango e se aproximou do Brizola já no exílio, quando o Jango morre. Aí o Darcy volta antes do exílio porque não tinha muitos problemas com a ditadura, fica só dez anos fora. Eles têm uma grande aproximação, a ponto de o Darcy ser vice-governador do Brizola, e o Darcy começa a colocar em prática o programa do Anísio Teixeira, aquela história da escola em período integral que era um velho projeto do Brizola também. Eu sei que o Brizola dizia que a educação estava acima de tudo, ele não se preocupava com quanto ia gastar, com o orçamento. “O Estado tem de se virar para conseguir o dinheiro para a educação. Não quero saber se tem dinheiro, tem de estar acima de tudo”, costumava dizer. No último ano do governo de Brizola, 55% do orçamento do estado vai para a educação no Rio de Janeiro. No caso dos Cieps se vê de forma a mídia trabalhava, porque na verdade a mídia é o braço direito do poder econômico. A mídia colocava a classe média contra o Brizola, dizendo que os Ciep iam ameaçar as escolas da classe média, inclusive a particular. Eram escolas fenomenais, mas eram para o estudante pobre. E começaram a fazer a cabeça, colocando os professores do ensino tradicional contra os professores do Ciep. O professor do Ciep tinha de ser um professor especial, ganhavam o dobro, eram mais jovens e portanto bem mais motivados. 

CC: Durante o mandato como governador no Rio, o Brizola também foi um dos últimos a deixar de apoiar o Collor, que havia sido eleito com apoio da Globo. Não era contraditório?
FCLF:
O Brizola dizia que se aliava até com o diabo, desde que seja em benefício da população. Ele se aliou até ao Plínio Salgado, que era o líder do integralismo. Antes do Brizola assumir, o governo federal estadualiza a dívida da construção do metrô no Rio, e o Brizola fica sem dinheiro para gastar em obras porque que pagar o metrô e outras dívidas, já que o estado, como sempre, tinha muitas dívidas deixadas pelo governo anterior. Com o tempo, ele tem as obras dele, a Linha Vermelha. E tem os Ciacs, que são a versão federal dos Cieps. Quando o Collor decide fazer 4,5 mil Ciacs, e era mesmo um plano fabuloso, já que o Collor não tinha mesmo nenhum projeto e acabou tendo. Porque muita gente se empolga com essa história de mídia, mas a mídia é algo muito rápido, passageiro, quase volátil. Porque cria-se uma grande empolgação e no final o que você fez como governo? Nada. O Sarney sofreu isso, inventou aquela ferrovia Norte-Sul que nunca deu em nada e acabou se lascando, saindo desmoralizado. E o Collor foi mais vivo, preferiu pegar esse projeto e talvez por causa disso tenha caído também. O Collor foi escalado para fazer as privatizações, e o PDT era contra. Alguns se assanhavam querendo cargo, e o Brizola não quis nada. Houve muita briga na bancada, porque muita gente queria ser ministro. A relação foi meramente administrativa, não foi política. 

CC: E quando começa o processo de impeachment?
FCLF:
Ele vai com o Collor até o final. Quando vê que realmente não tem condições, o presidente estava muito impopular, e aí o Brizola não ia comprometer o partido nesse história. 

CC: E a relação dele com o PT e o Lula?
FCLF:
O Brizola nunca falou isso, mas eu sempre senti pelos seus movimentos que ele queria que o Lula fosse o vice dele. Mas o Lula já estava envenenado contra o Brizola, isso quando o Brizola chega do exílio. Ele tenta várias vezes e leva várias portas na cara do Lula e do pessoal que o cerca, da entourage do Lula. As coisas vão se encrespando, se encrespando, e chegam a um rompimento. Mas como são ambos homens do campo popular, sempre se unem no segundo turno, tanto é que o Brizola, na eleição de 1989, transferiu todos os votos para o Lula. No primeiro turno, a votação do Brizola foi de 400 mil votos a menos que o Lula, mas já estava na cara que era tudo feito para o Lula ir para o segundo turno. 

CC: E o Brizola dizia o que do Lula?
FCLF:
O Brizola dizia que o Lula era um homem marcado para perder. Eles foram juntos em várias eleições. Na primeira, em 89, ele perdeu para o Lula. Na segunda, em 94, o Brizola também teve um desempenho fraquíssimo, ficou abaixo do Enéas. E em 98 foi candidato a vice do Lula. Há sempre uma convergência. O PDT ainda hoje apóia o governo e não duvido que estaria apoiando mesmo se o Brizola fosse vivo, porque senão ele estaria alimentando a direita. Se você faz um governo de esquerda, especialmente no campo internacional, o Brasil está muito bem, o Lula está indo muito bem e mesmo no campo social. Apesar de o Brizola ser muito contra essa história do bolsa-família. Ele achava que o correto era invadir o País com os Cieps e empregos. 

CC: Nos últimos anos de vida ele teve várias derrotas eleitorais. Como ele reagia a essas derrotas?
FCLF:
A partir de 1989 foi um plano inclinado, só derrotas. Basta olhar para a conjuntura internacional. Em 89, tinha caído o muro de Berlim, o regime soviético tinha se dissolvido. Apesar de ele não ser comunista, a esquerda ganhava muito com aquilo porque existiam dois pólos de poder. Hoje é um poder só, é a unipolarização. A Nicarágua tinha caído com o Ortega. E os governos que estavam saindo da ditadura não eram governos nacionalistas ou de esquerda. Eram todos governos, apesar de democratas, neoliberais que cumpriam fielmente a chamada reagonomics, a política do Reagan e da Thatcher de privatizar e de dissolver todo o poder estatal. Imagine o dinheiro que corre nessa história toda. Então não teve mais para ele. E ele tinha noção perfeita disso, trabalhava e lutava só de teimoso.

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