O Caribe é aqui
08/07/2008 18:44:25
Giancarlo Summa

(reportagem originalmente publicada na edição 135, de 8 de novembro de 2000)
Uma banal fita de vídeo de 23 minutos, gravada em 5 de abril de 1999, pode iluminar um dos mais complexos e obscuros caminhos do dinheiro grande no Brasil. Naquele dia, início da tarde, no oitavo andar de um escritório no cruzamento das Avenidas Faria Lima e Rebouças, em São Paulo, Ricardo Kauffman, 24 anos, então funcionário do Banco Opportunity, encontrou-se com o empresário Luís Roberto Demarco, 36, que estava se desligando de uma sociedade de 14 meses com a própria instituição.
Demarco, no encontro, pedia indicações a respeito de suas aplicações no Opportunity Fund, um fundo de investimentos offshore, legalmente reservado apenas aos investidores estrangeiros, gerido pelo Opportunity e baseado nas Ilhas Cayman, o maior paraíso fiscal do Caribe.
A operação, que, a se julgar pela fita, parece ser corriqueira, liga um período da história recente do Brasil. Um dos diretores do fundo – que Ricardo Kauffman estava operando – era Pérsio Arida. Dez meses após deixar a presidência do Banco Central, em abril de 1996 Arida havia se tornado sócio do Opportunity, onde uma de suas atribuições era o “decision-making process” do Opportunity Fund.
Segundo Demarco – entrevista às páginas 58 e 59 – outros brasileiros tinham, e ainda têm, aplicações nesse fundo, registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em 20 de junho de 1996, com autorização para efetuar investimentos no Brasil via Anexo IV. Segundo avaliações do mercado, a carteira do Opportunity Fund deve valer em torno de US$ 200 milhões.
LUVAS DE PELICA. A diferença fundamental entre os fundos de investimento normais – cujas cotas qualquer cidadão pode adquirir no banco da esquina – e os fundos para investimento estrangeiro, é que esses últimos não pagam o Imposto de Renda de 20% sobre ganhos de capital e dividendos. Mais: há poucas semanas, foram também isentados da cobrança da CPMF, de 0,38%, que para os comuns mortais incide até no pãozinho da padaria.
Um tratamento com luvas de pelica que, explica a solícita equipe econômica do governo federal, tem o objetivo de favorecer o ingresso no País dos capitais indispensáveis para fechar as combalidas contas externas brasileiras.
Enquanto isso, lembre-se, o presidente Fernando Henrique Cardoso vem acenando com possíveis novos impostos para a classe média, para permitir o aumento do salário minímo para R$ 180.
As formas de investimento mais comuns para estrangeiros se dão via Anexo IV (ações da Bolsa de São Paulo), e via Anexo VI (renda fixa) – conforme a regulamentação que o Conselho Monetário Nacional formalizou no início da década de 90.
De 1991 até setembro deste ano, entraram no Brasil, pelo Anexo IV, US$ 159,4 bilhões e saíram US$ 145,5 bilhões. Apesar dos péssimos resultados da Bolsa paulista em 2000, que causaram uma saída líquida de US$ 1,3 bilhão nos primeiros nove meses do ano, na Bovespa ainda há US$ 13,9 bilhões de investimentos estrangeiros.
Segundo um ex-funcionário graúdo da CVM, pelo menos 25% dos investimentos via Anexo IV são de brasileiros que, dessa forma, evitam a mordida do Leão.
É uma regra feita para não ser cumprida, disse a CartaCapital.
Em meados de agosto passado, uma discreta matéria publicada no jornal carioca O Globo chamou a atenção da CVM. Nela, Demarco – há tempos em guerra legal com Daniel Dantas – levantava abertamente dúvidas sobre a correção das aplicações de brasileiros no Opportunity Fund.
OFÍCIOS. Após receber uma solicitação formal, no dia 1º de setembro Demarco encaminhou à CVM um ofício, à atenção do gerente de investidores estrangeiros, Roberto da Silva Mendonça Pereira, e, por conhecimento, do presidente da CVM, José Luiz Osório de Almeida Filho. Nele, Demarco confirma, e documenta, a presença de investidores brasileiros, residentes no País, no Opportunity Fund.
É uma denuncia séria. Pela irregularidade fiscal apontada e pelos nomes dos personagens envolvidos. Na página 2 de um livreto de maio de 1998 que ilustra, em inglês, as regras do fundo para os prospective investors, os investidores potenciais, lê-se: “As cotas não podem ser vendidas ou oferecidas a residentes ou domiciliados na República Federativa do Brasil”. Na página 11 do mesmo livreto, a lista dos então diretores do fundo: Daniel Dantas, Pérsio Arida, Verônica Rodenburg Dantas.
Ou seja, pela ordem: o dono do Opportunity, personagem de destaque na conturbada privatização da Telebrás; o ex-presidente do Banco Central; e a irmã de Dantas, braço direito dele na gestão do banco.
EXPLICAÇÕES. O ofício enviado à CVM – ao qual CartaCapital teve acesso – contém ampla documentação sobre os investimentos de Demarco: pouco menos de US$ 800 mil aplicados em vários subfundos do Opportunity Fund. Contém, ainda, o Subscription Agreement (acordo de subscrição) ao fundo de outro empresário paulista, do ramo de móveis (que Demarco diz ter recebido por engano, numa correspondência enviada pelos gestores do fundo nas Ilhas Cayman, e cópia do testemunho jurado de três ex-gerentes de conta do Opportunity em São Paulo, que confirmam ter movimentado os investimentos de Demarco para o fundo offshore.
Quando investi meu dinheiro naquele fundo, não sabia que isso era proibido para os brasileiros. Ninguém me informou, afirmou Demarco a CartaCapital.
Não quis fazer nada contrário à lei.
Pérsio Arida sabia que o senhor tinha dinheiro nesse fundo?
O Pérsio sabia perfeitamente, eu tinha falado com ele. Ele era um dos diretores do fundo e, portanto, deveria saber que esse fundo não podia aceitar investidores brasileiros. Mas nunca recebi dele uma orientação para mudar o investimento.
MURO DE SILÊNCIO. Passaram-se dois meses desde a entrega da papelada à CVM. Nada aconteceu. CartaCapital procurou a CVM, pedindo informações. Há uma investigação em curso? As denúncias de Demarco têm procedência? Algo já foi acertado?
Após ter declarado à imprensa que, até o fim de setembro, entregaria o primeiro relatório sobre o caso, no começo de outubro Roberto da Silva Mendonça Pereira, a quem tinha sido enviado o ofício de Demarco, entrou em férias. Sua substituta, a analista do setor de investidores estrangeiros, Márcia Cantini, diz não saber de nada:
Isso aí é só com o Roberto, não estou a par do assunto.
Travou-se, então, o seguinte dialogo entre o repórter e a funcionária da CVM:
O que acontece quando é detectado que um brasileiro, ou algum estrangeiro residente no Brasil, esteja aplicando num fundo desses?
Seria aberto um inquérito e, inclusive, informada a Receita Federal. Mas ainda não acompanhei um processo desses.
Por que, não é algo freqüente?
Não. Esse é o primeiro de que estou tomando conhecimento e é o senhor quem está me falando.
A senhora nunca tinha ouvido falar de algo parecido?
Não. Trabalho na CVM desde meados de 1996 e desconheço.
Quem é encarregado da fiscalização dos investidores estrangeiros?
O investidor estrangeiro aplica, os recursos entram. Ele assina uma documentação de acordo com a legislação. Nós, aqui, não fazemos a auditoria lá de fora, sair do Brasil para ir verificar um investidor. Se precisar uma auditoria, é solicitada pelo próprio investidor no exterior.
A CVM não sabe quem são os investidores nos fundos?
Os cotistas? Não, não, a CVM não sabe quem são.
Procurado insistentemente por CartaCapital, o presidente da CVM, José Luiz Osório, não quis responder a nenhuma pergunta. “O presidente não quer que se fale sobre isso, depois de muitas afirmações atribuídas à CVM que não correspondem à realidade”, explicou Ricardo Gontijo, chefe da assessoria de imprensa da instituição, que, por estatuto, deve zelar pelo bom funcionamento, inclusive legal, do mercado de capitais no Brasil.
Então, se houve afirmações incorretas, qual é a realidade? Da CVM, silêncio.
LABIRINTO. Quando o Banco Central começou a investigar as denúncias de Demarco, em setembro, se deparou com um complicado labirinto societário – um marco típico, aliás, das empreitadas de Daniel Dantas.
O Opportunity Fund, administrado pelo Banco ABN Amro, foi constituído pela Opportunity Asset Management Ltda., uma empresa baseada nas Ilhas Cayman, e por isso regida pelas leis locais. Por sua vez, a Opportunity Asset Management é uma subsidiária da empresa brasileira Santa Luiza Comercial e Participações Ltda., de propriedade da Dantas. Mas, como a Santa Luiza não é uma empresa financeira, não cabe ao Banco Central fiscalizar suas atividades.
O Opportunity Fund é vinculado ao Grupo Opportunity e não ao Banco Opportunity, duas entidades que, oficialmente, não têm vinculações entre si, explicou um técnico do Banco Central a CartaCapital. Por isso, a fiscalização do Opportunity Fund está fora da alçada do BC.
A quem caberia, então, fiscalizar o fundo? Mais uma pergunta sem resposta.
PASSADO E PRESENTE. Economista destacado, um passado longínquo nas fileiras da VPR, uma organização que atuou na luta armada contra a ditadura, outro, mais próximo, nas salas de aulas da PUC do Rio e do MIT nos Estados Unidos, Pérsio Arida participou da elaboração dos Planos Cruzado e Real.
Nos primeiros anos da era FHC, Arida foi presidente do BNDES e, no primeiro semestre de 1995, do Banco Central. Saiu de lá em junho de 1995. Em abril de 1996, foi trabalhar no Opportunity, de onde se desligou no começo de 1999. No banco de Daniel Dantas, trabalhou também a mulher de Arida, a economista Elena Landau, ex-diretora de privatizações do BNDES.
Arida pediu que CartaCapital lhe transmitisse perguntas por fax. Ei-las:
— O Opportunity, na época em que o senhor trabalhava lá, permitia, ou incentivava, que brasileiros aplicassem em fundos de Anexo IV?
— Segundo Luís Demarco, o senhor estava ciente de que ele tinha aplicações no Opportunity Fund, nas Ilhas Cayman. Demarco afirma que ele não tinha, à época, conhecimento da irregularidade da aplicação, mas que o senhor não podia ignorar o fato.
Dois dias depois, o ex-presidente do Banco Central ligou para a redação.
Sei que existe uma pendência judicial entre o Demarco e o Opportunity. Não conheço os detalhes. Essa história que falou aqui (no fax), também não estou sabendo. É uma questão judicial... não quero me pronunciar sobre o assunto.
Demarco faz uma acusação específica em relação à gestão de um fundo offshore.
Realmente, prefiro não me manifestar. Não quero entrar em nenhum debate com o senhor Demarco. Sobre as questões do Opportunity, imagino que o Opportunity responda aos órgãos competentes. Não cabe a mim defender o Opportunity, foi a lacônica resposta de Pérsio Arida.
ADMISSÃO. A assessoria de comunicação do Opportunity tentou minimizar a história, mas admitiu a CartaCapital a presença de brasileiros entre os cotistas do fundo nas Ilhas Cayman:
O regulamento do fundo não foi contrariado, pelo fato de ter entre seus cotistas investidores residentes no Brasil.
Pela interpretação do Opportunity, seria uma irregularidade se os clientes brasileiros do fundo aplicassem via Anexo IV – ou seja, em ações –, mas não haveria problemas por outros tipos de aplicação em diferentes subfundos. E mais:
No caso de Luís Roberto Demarco, cotista do Opportunity Fund, seu dinheiro não foi aplicado via Anexo IV e, portanto, não há irregularidade.
Entre a documentação enviada pelo empresário paulista à CVM, no entanto, está o comprovante da movimentação de centenas de milhares de dólares no subfundo Agressive Equities do Opportunity Fund, cuja carteira é composta primariamente por ações: ou seja, uma típica aplicação via Anexo IV.
Para o Opportunity, no entanto, se responsabilidades há, são apenas de seus clientes:
No boletim de subscrição do Opportunity Fund é o investidor quem declara que não é brasileiro, ou não residente. Se mentir, é problema dele.
TRIBUNAIS. Luís Roberto Demarco, hoje com 37 anos, é sócio-controlador da Internetco Investments – uma incubadora de negócios na Internet com participações avaliadas em torno de US$ 100 milhões. Trabalhou no Opportunity de outubro de 1997 a fevereiro de 1999. Depois da saída, começou uma disputa judicial com Daniel Dantas, na tentativa de receber o dinheiro que foi retido no Opportunity Fund em Cayman e, principalmente, o equivalente em dinheiro de sua participação de 3,5% no fundo CVC/Opportunity Equity Partners. Esse fundo fora constituído nas Ilhas Cayman, com capital de US$ 600 milhões oriundo do Citibank, para comprar, sanear e vender empresas brasileiras. Entre outras empreitadas, o CVC/Opportunity participou da privatização da Vale do Rio Doce, do metrô do Rio e do Porto de Santos. É, também, um dos acionistas do site de Internet gratuito iG.
O Opportunity acusou publicamente Demarco de ser um chantagista, que estaria tentando difamar o banco, de onde teria sido demitido por incompetência. O empresário paulista, no entanto, ganhou o primeiro round judicial na Grande Corte das Ilhas de Cayman, que em meados de agosto passado decidiu que ele tem direito de pedir a dissolução do CVC/Opportunity para receber o quanto lhe é devido.
O Opportunity apresentou recurso para o Privy Council – a corte de apelação, em Londres, dos países regidos pela “common law” do Commonwealth britânico. A decisão final deverá sair nos próximos meses.
BLUE EYES. Demarco é apenas um dos desafetos que Daniel Dantas acumulou em sua fulminante carreira. Dantas, 45 anos, já chegou a ser considerado um dos mais brilhantes banqueiros do País. Baiano, engenheiro de formação, se aproximou do mundo dos negócios na Fundação Getúlio Vargas do Rio.
O ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, que o tinha em alta consideração, o ajudou a obter uma bolsa de pós-doutorado no MIT – onde chegou a dar aulas – e, de volta ao Brasil, a se lançar no mercado. Dantas trabalhou no Bradesco e, em 1989, foi para o Banco Icatu, que acabava de ser fundado, para cuidar dos investimentos da família Almeida Braga. Dantas já era um homem rico quando, cinco anos depois, deixou o Icatu e fundou o Opportunity, já de olho no negócio gordo das privatizações.
Diferente de muitos outros economistas de sua geração, como o ex-sócio Pérsio Arida, Dantas nunca teve passagens pelo governo – quando o então presidente Collor o convidou a participar de seu ministério, em 1990, recusou. Isso não atrapalhou os contatos políticos de Dantas, que soube costurar ótimas relações com o PFL – através do baiano-mor, Antônio Carlos Magalhães – e, melhores ainda, com os tucanos.
Na véspera da privatização da Telebrás, em julho de 1998, porções do governo de Fernando Henrique Cardoso fizeram o que podiam, e também várias coisas que, absolutamente, não deveriam, para tentar ajudar os consórcios organizados pelo Opportunity.
O próprio FHC, recorde-se, autorizou o então presidente do BNDES, André Lara Rezende, a usar o nome do presidente da República (“a bomba atômica”) para forçar a Previ – o fundo de pensão do Banco do Brasil – a participar de um consórcio com o Opportunity e a Telecom Italia para o leilão da Tele Norte Leste.
De sua parte, o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, entre um ataque e outro aos “babacas” Pedro Malan e Pedro Parente, se esmerou em tentar atrapalhar o consórcio Telemar, definido, alternativamente, como “telegangue” e “ratada”. Muitas foram as ligações para o velho amigo Pérsio Arida, lá no Opportunity.
BRIGA DE FOICE. Como se sabe, os consórcios organizados pelo Opportunity acabaram levando a Tele Centro Sul (hoje Brasil Telecom), a Telemig Celular e a Tele Norte Celular. O escândalo do grampo custou o cargo a Mendonça de Barros e Lara Rezende, mas não chegou a afetar o banco de Dantas, que comemorou, satisfeito, o resultado.
Passados dois anos, a situação é outra. Literalmente, todos os parceiros do Opportunity nas telefônicas privatizadas estão brigando na justiça contra Dantas. O banqueiro baiano bateu de frente com a Telecom Italia e a TIW canadense (as operadoras internacionais que detêm a tecnologia das empresas), e com os fundos de pensão (Previ, Petros, Funcef, Telos, etc.), que injetaram o dinheiro necessário para dar músculos financeiros aos consórcios.
A queixa é sempre a mesma: Dantas quer mandar sozinho, ignorando as exigências dos demais sócios, e as prestações de contas do Opportunity costumam ser nebulosas. Graças a uma complicadíssima e refinada engenharia societária, o Opportunity conseguiu o controle absoluto sobre as telefônicas, apesar de ter injetado apenas 0,36% do capital no momento da privatização.
Numa tensa reunião de 14 horas, em 23 de outubro último, os representantes dos fundos de pensão chegaram a rejeitar as conta apresentadas pelo Opportunity relativas à administração da Telemig e da Tele Norte no período de 1º de janeiro de 1999 a 30 de março deste ano.
Demoramos a entender isso, mas hoje está claro que o Opportunity entrou desde o começo com má-fé, disse a CartaCapital um economista de um importante fundo de pensão, que tem relações com o Opportunity, falando em condição de anonimato.
Na época da privatização da Telebrás, os fundos não tinham pessoal qualificado o suficiente para acompanhar o que o Opportunity fazia. Hoje, as coisas mudaram.
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Pérsio arida sabia de tudo
Luís Roberto Demarco trabalhou 14 meses no Opportunity. Agora, conta como funcionam os fundos de Anexo IV
CARTACAPITAL: Como o senhor conheceu Daniel Dantas?
LUÍS ROBERTO DEMARCO: Conheci o Daniel através do Pérsio Arida. Foi no começo de 1997. Pérsio era uma pessoa muito educada, encantadora. Eu vinha da IBM, tinha adquirido experiência em private equity, estava no GP Investimentos e achava Pérsio o máximo: um ex-presidente do Banco Central, um dos formuladores do Plano Real. Naquela época, eu era muito mais iludido com as pessoas. Certo dia, o Pérsio me convidou para trabalhar com ele. Eu respondi: se me fizerem uma proposta espetacular, eu vou. E eles fizeram.
CC: Quais foram as condições?
LRD: Ser sócio, com 3,5%, do CVC/Opportunity, um ótimo salário e mais um bom dinheiro na frente: US$ 1 milhão. Eu conheci o Daniel apenas na finalização da contratação. Já tinha ouvido coisas no mercado sobre a maneira de agir dele: que não é muito confiável, que o Opportunity é gerido como um negócio de família, que muitos executivos já tinham saído de lá por isso. Mas estavam pagando na frente, o que minimizava o risco. Além disso, a minha ligação era o Pérsio, tinha confiança nele. Hoje, avalio que foi o maior erro que cometi em minha vida.
CC: Como funciona o Opportunity?
LRD: Olha, o Pérsio, o Rodrigo Andrade e eu trabalhávamos aqui, em São Paulo. Lá no Rio, tudo era gerido pelo esquema da família: Daniel, a irmã Verônica e o ex-marido dela, Carlos Rodenburg. Cheguei à conclusão de que o Daniel usou alguns nomes — o do Pérsio, principalmente — para conseguir levantar esse fundo CVC. Quando você vai levantar um fundo de private equity, deve ter um management com histórico de competência, de credibilidade.
CC: Para oferecer garantias?
LRD: Exatamente. E o Daniel, com dois cunhados e a irmã, não representa isso. Uma coisa muito estranha nesse processo é que o Daniel, mesmo com o apoio e o nome do Citibank, não conseguiu nenhum outro investidor estrangeiro.
CC: Após sua saída do Opportunity e início da disputa judicial, Dantas reagiu dizendo que o senhor fora demitido porque não tinha conseguido atingir os resultados esperados.
LRD: É muito difícil poder fazer um trabalho profissional no Opportunity. O fato é que o Pérsio saiu, eu saí, várias outras pessoas saíram: executivos e/ou sócios de algum negócio. Se você olhar, o Opportunity praticamente não fez nenhum negócio privado, só participou de privatizações, onde não se requer muita competência, mas sim operar bem a coalizão governamental, a parte política. Você viu isso nas fitas da privatização, todo mundo assistiu a esse processo. Agora, com relação aos meus resultados profissionais, parece que a realidade tem opinião diferente da do sr. Daniel Dantas.
CC: O senhor participou do processo de privatização da Telebrás?
LRD: Não participei. Naquele momento, já estava evidente a modelagem das coisas, a absoluta falta de profissionalismo. Para você ter uma idéia, no começo do CVC, havia uma reunião semanal com o Citi. Logo depois que o dinheiro entrou, essa reunião acabou. Aliás, numa certa altura, nem mais a reunião dos diretores acontecia.
CC: Como assim?
LRD: Certa vez, a Maria Amália Coutrim, encarregada da parte burocrática, mandou um e-mail avisando que os sócios teriam uma reunião todas as segundas-feira às 9 horas. A gente pegava o avião, chegava lá, ficava esperando horas. Às vezes, acabava não tendo reunião alguma. E você era obrigado a ficar como se estivesse esperando a vontade absoluta de um senhor feudal. Enquanto isso, na verdade, o Daniel Dantas fazia uma reunião todos os dias, à primeira hora, com a família.
CC: Quem é quem na família Dantas?
LRD: Verônica é o braço direito do Daniel. O ex-marido dela, o Carlos Rodenburg, é amigo do Daniel desde a adolescência. Tem também o Arthur Carvalho, que é irmão da mulher do Daniel, Maria Alice. O Carlos é encarregado do lobby, a Verônica opera a parte administrativa interna, e o Arthur Carvalho tenta operacionalizar o que o Daniel ordena. Além disso, todas as operações do Opportunity são compostas de gente próxima, a maioria vinda da Bahia. Admiro o povo baiano, mas existe muita gente competente no Rio e em São Paulo para operar o metrô carioca ou o Porto de Santos.
CC: A coisa mais importante é a confiança absoluta?
LRD: Eu diria confiança e submissão, competência é fator secundário. O Opportunity não é uma organização competente, no sentido de produção de resultados ou aplicação de políticas como a governança corporativa. Você vê que o Opportunity tem confusão com todos os sócios. Certa vez, o Daniel contratou um profissional para implementar a governança corporativa na Brasil Telecom, o excelente Carlos Sales, ex-presidente da Xerox. Ele passou lá alguns meses e saiu correndo, declarando para a imprensa que todo mundo ali era réu.
CC: Que tipo de pessoa é Daniel Dantas?
LRD: Nos primeiros contatos, quem não o conhece fica bem impressionado. Aparenta ser uma pessoa inteligente, muito articulada e gentil. Com o tempo, você descobre suas outras facetas. Por exemplo, o Daniel nunca olha nos olhos de quem conversa com ele. É um camarada que repete tudo o que o (megainvestidor norte-americano) Warren Buffet fala. Hoje, eu diria que Daniel Dantas é um campeão na arte da dissimulação. Raramente, por exemplo, numa situação conflitiva, ele chama as pessoas e resolve de forma transparente. Ele prefere empurrar, deixar na maior confusão. O Daniel costuma usar o termo “tripla blindagem”: ele lida com os sócios, com os parceiros, com os funcionários, em qualquer circunstância, armado como se estivesse entrando em um litígio. Ele trabalha fechado na sala, com três secretárias na porta. Quando vai viajar ou quando as pessoas querem marcar uma reunião, ninguém sabe onde ele está.
CC: O Opportunity diz que não gerencia o Opportunity Fund nas Ilhas Cayman, e que quem vende é o ABN Amro. O senhor enviou vários documentos à CVM, entre outros as declarações de três ex-gerentes de contas do Opportunity, que testemunham que operavam seus investimentos lá. Como é isso?
LRD: Não só elas, como também o Ricardo Kauffman, que me atendeu por um tempo, e outras pessoas de quem eu tenho farta documentação. O Opportunity falta com a verdade. Pode ser que hoje, com todos os holofotes em cima, não estejam fazendo mais, mas eles vendiam as cotas do fundo no Brasil, sim. Não vou dizer aqui os nomes, mas conheço outras pessoas que são ou foram clientes desse mesmo fundo.
CC: Quando começou a investir no Opportunity Fund?
LRD: A primeira vez que investi no Opportunity Fund foi em 1997, quando ainda estava no GP. Investi porque tinha um dinheiro em dólar, de quando trabalhei fora do País, na IBM. Investi, mas não sabia que existia um regulamento do fundo, proibindo que fosse oferecido ou vendido a brasileiros. Só tive acesso a esse regulamento quando fui pessoalmente apanhá-lo no ABN Amro de Cayman.
CC: Os gerentes do Opportunity não entregaram cópia do regulamento ao senhor?
LRD: Jamais. E duvido que tenham fornecido para alguém, e nem sei se eles mesmos sabiam. Acredito que o regulamento foi feito para se registrar o fundo na CVM como um investidor institucional estrangeiro, sem a presença de brasileiros e aí a CVM nunca foi atrás. Pela primeira vez, agora ela mesma tomou a iniciativa e tem a oportunidade de ver que esse fundo era vendido para brasileiros.
CC: Quanto dinheiro chegou a ter aplicado nesse fundo?
LRD: No máximo, US$ 795 mil. Durante quase dois anos, investi, fiz retiradas e transferências. Não consegui ainda fazer a retirada final em razão de um litígio judicial com os irmãos Dantas. Ainda tem cerca de US$ 700 mil meus por lá.
CC: Pérsio Arida sabia que o senhor tinha dinheiro aplicado nesse fundo?
LRD: O Pérsio sabia perfeitamente, eu tinha falado com ele. Ele era um dos diretores do fundo e, portanto, deveria saber que esse fundo não podia aceitar investidores brasileiros. Mas nunca recebi dele uma orientação para mudar o investimento, sei lá, para pôr dinheiro na Arábia Saudita.
CC: Pérsio Arida gerenciava o fundo? Tinha contato com os vendedores, com os gerentes?
LRD: Não sei se eles respondiam para o Pérsio diretamente, mas o Ricardo Kauffman e os outros vendedores participavam semanalmente de reuniões de investimento com ele. Os documentos podem falar melhor que eu a respeito.
CC: Como são hoje suas relações com Pérsio Arida?
LRD: Eu falei com ele até o momento em que saiu do Opportunity. Ele foi muito gentil, tentou fazer com que a gente resolvesse esse negócio da forma como deveria ser resolvido, um acerto societário banal e simples. Depois, encontrei-o por acaso num restaurante. Daí, não nos falamos mais. Acredito que ele, hoje, também entende melhor quem é o sr. Daniel Dantas, mas não posso comentar sobre que compromissos poderiam existir entre eles no passado.