O lugar do pai
04/07/2008 17:09:45
Cynara Menezes

Quatro décadas depois de queimarem os sutiãs em praça pública contra a repressão masculina, as mulheres levam desvantagem em vários aspectos da vida cotidiana. Mas, no que diz respeito à posse das crianças após casamentos desfeitos, são os homens o sexo frágil. A sanção em 13 de junho, pelo presidente Lula, da Lei da Guarda Compartilhada representou uma tentativa de equilibrar esta guerra dos sexos às avessas. A relatora Cida Diogo (PT-RJ) crê que a lei traz “mais reflexão” às separações. Mas a crescente mudança na atitude masculina em relação aos filhos indica apenas o início do embate.
Como em toda disputa de poder, o jogo do lado mais forte é pesado. Contam-se histórias de sumiço, chantagens, mudança de domicílio, recusa no cumprimento de horários de visita e, horror dos horrores, até falsas acusações de abuso sexual são utilizadas para impedir o acesso de ex-maridos e ex-companheiros às crianças. Uma incoerência, levando-se em conta que a divisão de tarefas na criação dos filhos era uma bandeira das feministas nos anos 60, e uma crueldade com os pequenos.
Com a lei, a decisão de conceder a guarda compartilhada passa a ser tomada por um juiz, que vai atuar, salomonicamente, como a figura de bom senso diante do casal em crise. Quem vinha batalhando por sua aprovação eram as entidades de defesa de pais contrariados no direito de ver os filhos quando se separavam das mães: “Pais por Justiça”, “Pai Legal”, “Participais”, “Apase” (Associação de Pais e Mães Separados), “Pais Para Sempre”. Ou “pais órfãos de filhos vivos”, como preferem alguns.
Em agosto do ano passado, o grupo Pais por Justiça organizou uma manifestação no Rio reivindicando mais dias de contato com os filhos além das visitas quinzenais e protestando contra as mães que se recusam a obedecer às determinações judiciais. Era domingo, Dia dos Pais. Uma instalação com 365 bonecos de plástico, de olhos e boca vendados e vestidos de preto, foi colocada nas areias de Copacabana. O número simbolizava os dias que uma criança deve ter pai e mãe, e a venda nos olhos, a manipulação dela por parte do guardião.
*Confira a íntegra da reportagem na edição impressa