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Cultura
FECHAR Elias Thomé Saliba

O animado cordel da belle époque

22/10/2009 13:42:01

Elias Thomé Saliba

Na grande época da alfabetização em massa, as duas décadas finais do século XIX, qual foi o livro mais lido na França? Quem pensou em Émile Zola acertou no tema e errou no autor, pois o mais vendido não foi um livro propriamente dito, antes um folheto com cinco páginas de textos, gravuras e canções intitulado O Testamento Oficial de Émile Zola, que atingiu a fabulosa marca de 160 mil exemplares em 1898. Escrito por um tal de “Zola, vulgo Javali Pornográfico”, o folheto legava a totalidade de suas obras “aos banheiros públicos, que farão delas o uso naturalmente indicado”, e terminava com a letra paródica de uma canção cujo refrão dizia: “Compuez Zola! Compuez!” (Vaiem Zola! Vaiem!). 

O folheto foi apenas um entre as centenas que compuseram uma autêntica “literatura de calçada”, composta por falsos testamentos, canções paródicas, panfletos erótico-políticos e necrológios humorísticos, a circular em uma época na qual a França se viu sacudida por três eventos arrebatadores da opinião pública: o escândalo do Canal do Panamá, o Caso Dreyfus e a Exposição Universal. Este é o tema da fascinante e rigorosa pesquisa do historiador Jean-Yves Mollier em O Camelô: Figura emblemática da comunicação (Edusp, 416 págs., R$ 59). Professor da Universidade de Versalhes, Mollier beneficiou-se dos organizadíssimos arquivos franceses, compostos por mais de 2 mil panfletos e gravuras da época, além de um repertório de 450 canções populares.

O camelô foi a principal figura desta ebulição cultural. Herdeiro de mascate das feiras medievais, do comerciante de banca do Antigo Regime, do vendedor de artigos de ocasião e dos pregoeiros de pasquins do início do século XIX, ele ganha notoriedade durante a democratização republicana, de refluxo na repressão nas ruas- e, sobretudo, de rápida popularização da imprensa. Em 1889, Paris tinha 23 jornais diários que custavam apenas um soldo (equivalente hoje a 20 centavos de euro), uma verdadeira revolução no consumo de imprensa. O Figaro tirava 80 mil exemplares e um pasquim mais popular, o Petit Journal, um dos primeiros a utilizar a nascente rede ferroviária na distribuição, atingiu 300 mil exemplares diários.

Na Paris de ruas estreitas e bulevares coa-lhados de pedestres, onde o lazer era raro e o gasto frívolo, quase desconhecido, os camelôs ressurgem como mediadores entre os que tentam influenciar a opinião pública e a grande massa da população. Reconhecíveis pela aparência e mesmo pela bagagem que carregam – caixa, cesta de vime, fardo ou carriola para os mais afortunados –, transformam-se em mercadores do entretenimento. Mollier calcula a existência de 150 mil camelôs em atividade na França durante a belle époque. Mediadores entre o mundo da oralidade, que morria, e do impresso, então triunfante, eles preencheram muitas funções disputadas pelo Estado republicano e civilizador.

O formato básico de publicação desta literatura de rua (Mollier chega a compará-la com os cordéis brasileiros) era o impresso volante ou panfleto, normalmente anônimo, quando não apócrifo, produzido por escritores que se assinavam como “republicano arrependido”, “amante de célebres coccotes” ou “diretor do sindicato dos limpadores de fossas”. Dirigido ao consumo imediato do homem da rua (alfabetizado, mas que abandonou a escola aos 13 anos), o panfleto de cinco páginas constituiu o formato ideal para a proliferação desta literatura de calçada.

Mollier também reconstrói a história do maior camelô parisiense, Napoleón Hayard, que escrevia grande parte dos panfletos, coordenava sua impressão em gráficas baratas e arregimentava um exército de auxiliares. Os escritores de sarjeta como Hayard lançavam-se num duelo comparável ao que praticam hoje os jornais televisivos estilo “mundo-cão”. Indiferentes aos debates que não proporcionassem ganho financeiro, os camelôs só eram politizados quando o sensacionalismo se impunha. Nos momentos eleitorais de efervescência política, eles eram pagos para executar trabalhos eleitorais escusos, distribuir panfletos, “incendiar” uma plateia de rua, fazer a claque do candidato em um comício ou mesmo esmurrar os adversários do candidato que o contratou.

Foi assim nos anos de 1887-1889, quando eclodiu o chamado escândalo do Panamá. A companhia criada por um grupo de franceses, capitaneados por Ferdinand de Lesseps, para construir o canal panamenho, e que havia angariado as economias de mais de 700 mil franceses, abriu falência em 1889, deixando um passivo de cerca de 4 bilhões de euros atuais. Como os financistas chamados para salvar a empreiteira eram todos de ascendência judaica, reacendeu-se na opinião pública o antissemitismo francês e a literatura da calçada alimentou-se deste tema dramatizando o episódio ao máximo.

A efervescência aumentou com os desdobramentos do caso Dreyfus, em torno da condenação por alta traição de Alfred Dreyfus, um oficial de artilharia de religião judia, e de seu defensor Zola. O caso foi o grande tema dos camelôs panfletários. Panfletos anti-Dreyfus dirigiam-se sobretudo ao escritor, bode expiatório desta literatura de sarjeta. Panfletos e canções anti-Dreyfus e anti-Zola atingem recordes de venda em 1898, alimentando o subterrâneo chauvinista do nacionalismo francês. O livro de Mollier desvenda esta face desconhecida do episódio, revelando um inédito e obscuro circuito de ideias populares, impenetrável a certas camadas intelectuais.

Uma das razões do sucesso e da penetração desta literatura das sarjetas e das ruas foi o camelô, capaz de transformar, em alguns minutos, a rua ou o bulevar numa autêntica feira improvisada, palco de teatro efêmero ou simples festa ou quermesse à moda antiga. Acrescente-se que as ruas estreitas das cidades do século XIX serviam para duas coisas: fazer barricadas de protesto revolucionário ou assistir às rápidas intervenções dos camelôs e menestréis de sarjeta.

No fim da belle époque, quando as ruas- se abriram em grandes avenidas para maior circulação dos automóveis e menor de pedestres, os vendedores começaram a refluir. Acabava de vez o século XIX, aquele das revoluções, mas, também, dos camelôs. Mollier descreve parte deste processo, pelo menos até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Curiosamente, Hayard, o imperador dos ambulantes, morrerá atropelado por um automóvel em 1903. Sinal de novos tempos, diversos daqueles do passado, quando controlar os camelôs era controlar grande parte da opinião pública. 

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(Crédito da foto: Reprodução do livro O Camelô - figura emblemática da comunicação)

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