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Cultura
FECHAR Rosane Pavam

A Bíblia desperta

02/10/2009 11:48:27

Rosane Pavam

Clique aqui para ler a íntegra da entrevista com Robert Crumb

O deus dos quadrinhos encontra o deus do paraíso no Gênesis. Nesta novela gráfica de 216 páginas, prometida ao Brasil no final de outubro pela editora Conrad, o autor Robert Crumb prossegue espicaçando o establishment cultural, desinteressado de ocupar a cadeira dos tranquilos. No panteão deste Crumb de 66 anos, fervem em histórias os hebreus, os nascidos de Jacó e Esaú, o morticínio do qual sobreviveu o plantador de videiras Noé, toda a aventura egípcia, incestos e fornicações, como as viu e perpetrou o primeiro livro dos cristãos.

Na terça-feira 29, em entrevista por telefone à CartaCapital a partir da França, país onde vive há 16 anos por insistência da mulher, Aline Kominsky, e ainda trazendo na fala a forte musicalidade americana, Crumb disse esperar pelo pior. Dos judeus ortodoxos, ele aguarda a repulsa por ter reproduzido a imagem de Deus. Dos cristãos fundamentalistas, ele crê que possam vir as trevas, nascidas de sua obediência ao verbo às vezes modificado das escrituras. Problema deles, diz Crumb.

“Não matei as palavras bíblicas”, ele assevera, gentil e bem-humorado, gargalhando ao final de cada raciocínio claro, como se um “rará” semelhante ao dos gibis pudesse liberá-lo da tensão envolvida no que acaba de dizer. “Apenas reproduzi cada passagem do Gênesis, conforme o que está escrito na tradução de Os Cinco Livros de Moisés, por Robert Alter. Como ilustrador, nem sempre tive a pista para desenhar certos trechos. Mas, se essa indicação existia no texto, eu a ilustrei fielmente. Não procurei ser lúbrico, lascivo, sensual.”

Reproduzir os olhos duros do Senhor surgiu-lhe como uma possibilidade quando Crumb em pessoa o viu em um sonho, há nove anos. “Meu Deus era severamente complexo e sua face carregava raiva”, ele diz. O que o desenhista viu não diferia muito das imagens usualmente ligadas ao Criador, uma figura nascida da tradição patriarcal e tribal, não recomendada em absoluto, por Crumb, como modelo de conduta moral para estes tempos. No máximo, esse Deus escrevia sua história muito bem.

O ser supremo de Gênesis tem barba e mau humor. Os cabelos são fortes e longos, possivelmente crespos. Deus não explica por que elege um homem como herdeiro da terra e por que destrói todos os outros que praticam o mal. Nem mesmo define o mal. Essa criatura não é negra, mas, espera o desenhista, guarda traços semitas. E não é mulher porque o texto não a fez assim.

A grande pergunta com muitas respostas é por que Crumb, o revolucionário autor das fornidas senhoras inspiradas nas africanas, que pôs no devido lugar os pilantras conservadores e os libertários, o criador de Mr. Natural para que ninguém mais acreditasse em gurus, teria desejado transpor o Gênesis aos quadrinhos. Nesta entrevista, lança-se a uma especulação.

Crumb leu a Bíblia quando menino. Foi criado católico e estudou em escola “de freiras e irmãs”. Não via razão para descrer das “poderosas” histórias bíblicas que conhecia. Mas, aos 16 anos, ele se confessou a um padre pela última vez. “Do momento em que comecei a questionar a existência de Deus até a decisão de largar a Igreja passou-se pouco tempo.”

Nunca mais uma coleta de dízimo o pegou, e ele leu as terríveis histórias papais desde a Idade Média. Mas, com o tempo, o homem sem fé, estranhamente perseguidor do espírito por meio do intelecto, percebeu uma coisa. Os religiosos que se diziam seguidores da Bíblia não a liam mais.

E isto, a que ensaístas como Michel Onfray chamam de “ateísmo cristão”, incomodou o senhor Crumb. Ele achou que deveria refazer o Verbo diante do homem. Uma tarefa, como se disse, destinada a um deus. Seu trabalho nesse campo é generoso e revelador. Quando ele ilustra fielmente as parábolas alheias, aquele mundo se materializa e não nos parece tão estranho. A única surpresa causada pelo livro nasce das palavras e das tramas originais, sepultadas pela história. “A Bíblia é uma parte importante da cultura cristã, judaica e até mesmo islâmica”, defende o autor. “Mas, hoje, ninguém a enfrenta. O texto é difícil. As pessoas põem a Bíblia para dormir.”

As grandes e também poderosas palavras de Crumb, sua ironia ao escrever, sem nada dissimular, como flecha teleguiada ao alvo, surgem na edição em dois momentos. No prefácio, em que o artista apresenta a dificuldade em pesquisar o tema, e nas notas finais, nas quais se arrisca a alguns palpites, como o de associar o imaginário antigo às crenças da encruzilhada demoníaca, presente no blues americano. “Nunca pensei em ser romancista, sempre segui fundo como cartunista e ilustrador”, ele afirma à CartaCapital. Sua escrita visual é tão poderosa e adequada aos tempos que talvez Crumb ainda não tenha avaliado o que lhe proporcionaria a escritura de romances.

Outra razão para que concebesse esse tomo talvez tenha sido inconsciente, fundada no gênero a que ele pertence como artista. Ele pode ter quadrinizado o Gênesis primeiro, mas não foi pioneiro ao usar as figuras bíblicas nas narrativas sequenciais. Justin Green, um companheiro nascido em 1945, desenhou a primeira autobiografia de que se tem notícia no mundo da HQ, justamente sobre o confronto que um adolescente faz de seus desejos sexuais com o fervor religioso. Intitulado Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary (Binky Brown Encontra a Virgem Santa Maria), o texto vendeu 50 mil cópias nos dez anos seguintes a seu lançamento, em 1972.

Outro artista com quem Crumb parece solidarizar-se estética e filosoficamente é o canadense Chester Brown, de 49 anos, um dos mais impressionantes autores de quadrinhos da geração posterior. Brown defende a anarquia como um ideal e quer tirar a esquizofrenia da lista de doenças mentais. Em 1983, ele começou a publicar Yummy Fur. A partir do quarto volume desta série em miniatura, tocou no Novo Testamento, mostrando Jesus segundo Marcos e Mateus. Crumb considera que seu companheiro fez o melhor possível com a história do filho de Deus, a seu ver difícil de ser contada, porque fundada em quatro evangelhos. Depois de quatro anos enfiado no Gênesis, Crumb quer afastar de si o cálice da religião e voltar a remexer a própria história. Seu próximo trabalho, ainda indefinido, inclui uma parceria com a esposa, Aline.

Crumb será avô pela primeira vez, de um menino, e “a qualquer momento”. Não tem, nem quer ter, ideia do que significa este passo. Ele anda rápido e para frente. E foi com o intuito de fazer avançar a própria arte, menos do que moralizar a sociedade em trevas, que ele, pescador da música antiga de Madagáscar ou da Grécia nos mercados de pulgas, revelou Deus à nossa antiga imagem e atual dessemelhança.

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