O francês Laurent Cantet, um dos mais interessantes autores do cinema atual, sabe o quanto é difícil um homem manter sua identidade na vida contemporânea. Ele sabe também que o maior valor do cinema não está no espetáculo, e sim nos olhares e gestos sutis que só a câmera pode captar. São essas duas visões, de mundo e de cinema, que tornam sua obra marcante.
Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, com estreia prometida no Brasil para a sexta-feira 13, reforça a consistência de uma obra que se quer social, mas jamais resvala no discurso fácil. A Cantet interessam, sobretudo, os homens. Para entendê-los, debruça-se sobre as relações de poder que, discretamente, desenham quadros de violência, exclusão e solidão.
Em Recursos Humanos, o cineasta nos levou a conhecer os operários de uma fábrica. A Agenda conta a história de um executivo que, por não conseguir contar à família que estava desempregado, passava os dias num carro, fingindo que tinha ido trabalhar. Em Direção ao Sul, o menos interessante de seus filmes, trata de um grupo de mulheres que vai ao Haiti atrás de gigolôs. Entre os Muros da Escola, seu grande salto, nos coloca dentro de uma sala de aula.
Se o tema soa comum, o mesmo não se pode dizer do filme. É mágica a relação que se estabelece entre o que corre pela tela e o espectador. Na primeira cena, quando os professores se apresentam, antevemos o terreno minado para o qual seremos levados. Depois, conviveremos com o curso de francês do professor François, vivido por François Bégaudeau, ele mesmo ex-professor e autor do livro que deu origem ao longa-metragem.
Seria, porém, simplista atribuir a verdade do filme à presença de Bégaudeau e de seus alunos, vindos, de fato, das zonas de exclusão da capital francesa. Cantet pisa em trilhas documentais e tira de seus atores todos os tiques de interpretação, mas é por meio da ficção que ele dá conta das contradições desse universo.
Acompanharemos, vidrados, a rotina da sala do que, aqui, equivaleria ao nono ano do ensino fundamental, e breves encontros entre professores e pais. São quase todos descendentes de imigrantes, alguns clandestinos. São o novo rosto de uma Europa que custa a se olhar no espelho.
Há, naquele microcosmo, dilemas fortemente franceses, representados pela graça da impossível conjugação de verbos e pelo peso da clandestinidade. Mas há também questões que dizem respeito ao sistema educacional como um todo e à juventude que veste calças largas – aqui e lá.
Entre os Muros da Escola é crítico, duro e, ao mesmo tempo, engraçado e cativante. Em certo sentido, presta uma homenagem àquilo que a escola deixa em todos nós. Ao fim, quando cada aluno deve explicar o que de mais interessante aprendeu naquele ano, Cantet alcança uma grandeza capaz de deixar todos os filmes do Oscar no chinelo.