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Cultura
FECHAR José Geraldo Couto

A elite e o povão

04/11/2008 16:02:35

José Geraldo Couto

A construção do Estádio Municipal do Pacaembu, entre 1936 e 1940, é um marco não apenas da história do futebol brasileiro, mas também das aceleradas transformações urbanas que fizeram de São Paulo a maior cidade do País em meados do século passado. 

Em pouco mais de cem páginas, o livro A Construção do Pacaembu, do historiador João Fernando Ferreira, que faz parte da coleção São Paulo no Bolso, da Editora Paz e Terra, procura dar conta das várias dimensões – política, social, urbanística, esportiva – da obra, iniciada na gestão do prefeito Fabio Silva Prado e concluída na de Francisco Prestes Maia. 

O aspecto político é o mais enfatizado. Ao longo das décadas de 1920 e 1930 o futebol se popularizara no País, deixando de ser um esporte de elite para se tornar um fenômeno de massa. No governo Getúlio Vargas, em especial depois da implantação do Estado Novo, em 1937, a prática esportiva passou a ser vista como instrumento disciplinador das populações urbanas, e o futebol, como um poderoso fator de integração nacional. 

O Pacaembu, que até a inauguração do Maracanã, em 1950, seria a maior praça de esportes do País, concentra em si todo o peso dessa ideologia, até mesmo nas suas linhas arquitetônicas, inspiradas, segundo os autores consultados por Ferreira, numa certa monumentalidade nazi-fascista. A inauguração do estádio, misturando ao longo de vários dias desfiles, práticas esportivas e discursos de autoridades, evidencia essa vocação política de maneira quase caricatural. 

Bela e arrojada obra de engenharia, que aproveitou sabiamente a topografia do vale em que se insere, o estádio do Pacaembu surgiu junto com o bairro homônimo, ambos concebidos e executados pela Companhia Urbanizadora City. A empresa, espertamente, doou o terreno do estádio à prefeitura, ao mesmo tempo que loteava os terrenos ao longo da avenida Pacaembu, com o intuito de formar ali um bairro nobre. Foi o que aconteceu em poucos anos, a partir do final da década de 30. Paradoxo interessante: um bairro de elite nascendo ao redor de um local de grande concentração popular. 

A importância desse duplo empreendimento – estádio e bairro – para a configuração moderna da cidade de São Paulo poderia ter sido mais desenvolvida no livro, se o autor abrisse mão, por exemplo, da inclusão de detalhes pouco relevantes sobre os primeiros jogos de futebol realizados no Pacaembu. 

Para a história urbana, importa menos saber que o goleiro Kafunga, do Atlético Mineiro, teve uma boa atuação, apesar de ter sofrido quatro gols na partida de seu time contra o Corinthians, em abril de 1940, do que, por exemplo, quando foram instaladas as primeiras linhas de bonde e de ônibus para o bairro, ou como era a iluminação pública na região. A discutível seleção e hierarquização de informações é, de certo modo, compensada pelas preciosas fotos que documentam o progresso da construção do estádio e da urbanização do seu entorno. Mais graves são os descuidos de escrita e revisão. 

Há inúmeras e flagrantes contradições de datas. Transcreve-se às páginas 43 e 44 uma matéria de 1934 do Jornal da Tarde que fala sobre um acordo firmado “em 1937” para pôr fim à divisão entre a Confederação Brasileira de Desportos e a Federação Brasileira de Futebol. Alguma coisa está errada aí, como em outras passagens similares. O historiador Fábio Franzini, citado com freqüência no livro, aparece várias vezes (inclusive na bibliografia) com o sobrenome grafado “Fransini”. 

Uma eventual nova tiragem precisa corrigir deslizes desse tipo e, se possível, dar mais espaço às fotos, reproduzidas de modo demasiado tímido na atual edição. O livro pode ser pequeno, mas seu objeto é, em todos os sentidos, grandioso.

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