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Cultura
FECHAR Pedro Alexandre Sanches

O senhor da sombra

12/09/2008 12:24:59

Pedro Alexandre Sanches

Dirigentes de gravadoras não despertam unanimidade, nem mesmo simpatia, junto ao público admirador de música. São freqüentemente tratados como os “vilões” da história, e não foi diferente com André Midani, nas cinco décadas em que esteve atuante em multinacionais do disco na França, no México, nos Estados Unidos e, mais que todos, no Brasil. Mas o passar do tempo trabalhou a favor desse sírio nascido há 76 anos em Damasco, criado em Paris e ancorado ao Brasil desde 1955, quando fugiu da França para não participar da Guerra da Argélia e veio aportar na Baía de Guanabara. Hoje, a perspectiva histórica permite perceber que quando João Gilberto inventou a bossa nova na Odeon (hoje EMI), em 1958, Midani estava lá. E dirigia a filial da Philips (hoje Universal) em 1968, quando a gravadora disseminou o levante tropicalista. E foi o homem que, em 1976, instalou a sucursal brasileira da Warner, um dos futuros epicentros do terremoto comercial do rock brasileiro dos anos 80. 

Ou seja, trabalhou nos bastidores de todo e qualquer movimento de absorção de música estrangeira pela brasileira entre 1958 e 1990. E teve sob sua guarda nos anos 70 os tropicalistas, mas também Elis Regina, Chico Buarque, Edu Lobo, Nara Leão, Jorge Ben, Erasmo Carlos, Wilson Simonal, Raul Seixas, Tim Maia, Fagner, Odair José e dezenas de outros. 

Os anos amortizaram amores e ódios, e Midani hoje é visto como um dos últimos diretores efetivamente “criativos” de uma indústria que logo seria abarrotada por executivos egressos das fábricas de refrigerantes e sabonetes. Os “criativos” nutriram a indústria de lucro inédito com o sucesso roqueiro dos anos 80, o mesmo que atirou de vez as gravadoras, os discos e os artistas no colo das bolsas de valores. 

Essa é uma das muitas histórias contadas por Midani, por vezes com precaução exacerbada, no livro de memórias Música, Ídolos e Poder (Nova Fronteira, 296 págs.). Ele parte das lembranças de menino que testemunhou bombardeios e combates da Segunda Guerra Mundial, e chega até os anos 2000. De uma ponta à outra, traz a público uma trajetória condensada com exagero numa frase: “Nasci com o vinil e morri com o download”. 

Midani recebeu CartaCapital na ampla casa em que vive no alto da Gávea, no Rio. E mostrou, ao falar de Elis Regina, que os impopulares homens de negócios também choram, e se emocionam. 

CartaCapital: O senhor diz no livro que sua profissão era “o mundo das maravilhas”. Deixou de ser? Por quê? André Midani: Com certeza. Uma das versões do porquê foi a entrada dos tecnocratas. O drama foi que os homens criativos acabaram trabalhando para os tecnocratas, em vez de o contrário. Os criativos sempre tiveram uma tendência a olhar para o lucro com certo desprezo. Falavam dos “homens” lá de cima com rancor. E abdicaram de aprender finanças, por preguiça, omissão ou aristocracia. Também há fatores agravantes que não são inerentes ao business, pertencem à criatividade artística. Se pensarmos que estamos com uma guitarra, um teclado, um baixo, uma bateria e um cantor fazendo rock desde 1955, não tem quem agüente, são mais de 50 anos. Na melhor das circunstâncias, hoje há fatores musicais evolutivos, mas ninguém rompe com coisa alguma. Há artistas formidáveis, como Lenine, para citar um. É maravilhoso como evolução. Mas não é um rompimento. 

CC: O senhor não cita internet, MP3, download, pirataria como fatores? 
AM:
Isso tudo aconteceu como aconteceu justamente pelo desconhecimento que os tecnocratas tinham da revolução tecnológica, das oportunidades que se apresentavam, ao mesmo tempo que apresentavam ameaças. Escolheram lutar contra as ameaças e não criar as oportunidades. Foram para a porta errada. Por que esses meninos da tecnologia não entraram nas companhias de disco? Porque elas fecharam as portas. Ninguém gosta de ser pirata, nem de fazer tráfico de droga.

*Confira a íntegra desta entrevista na edição impressa

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