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Cultura
FECHAR Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Volta ao cosmo em doze tempos

15/08/2008 15:13:04

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

A literatura brasileira de fantasia e ficção científica tem mostrado uma vitalidade que lhe faltava desde o fim dos anos 60, quando se esgotou a novidade da chamada “Primeira Onda”. Houve novos autores e obras dignas de menção nas últimas três décadas do século que passou, mas a chamada “Segunda Onda”, em comparação à anterior, mais pareceu uma marola – menos por falta de talento e empenho dos autores do que pelas condições desfavoráveis. 

Desde o início do milênio, novos escritores e novas obras têm surgido em um ritmo que, mais que firme, parece crescer em quantidade e qualidade, superando décadas de lamentos e frustrações. O gênero consegue novamente ser publicado fora de fanzines dirigidos a círculos estreitos e rígidos. Com mais retorno de leitores e editoras e mais diálogo a estimular a produção e o desenvolvimento técnico dos autores, a ficção especulativa brasileira está deixando de ser uma seita para voltar a ser um gênero capaz de interessar leitores com bom gosto, iniciados ou não. Muita coisa continua e continuará medíocre, como em qualquer ramo da literatura e da arte. Mas também há textos que merecem ser lidos. 

Destas novas safras, não há como deixar de recomendar Fábulas do Tempo e da Eternidade. Primeiro livro da iniciante Cristina Lasaitis, nascida em 1983, pouco ou nada deixa a dever às melhores obras da ficção especulativa brasileira. Até monstros sagrados de reputação global, como Philip K. Dick e Ray Bradbury – ou monstras, como Ursula K. Le Guin e Marion Zimmer Bradley –, teriam orgulho de poder contar com um ou outro destes contos entre suas primeiras obras.

Com muita sensibilidade, doze contos exploram personagens ricos e insólitos que se debatem com o tema do tempo e dos limites que lhe são postos pela condição mortal – humana ou mesmo algo mais que humana – em diferentes universos imaginários da ficção científica e da fantasia. 

Há mundos futuros regidos pela realidade virtual mais complicada que a de Matrix, alquimistas atrás de uma maneira de driblar o tempo capaz de superar o velho elixir da longa vida, um inca obcecado pelo futuro de seu império, uma cientista que assassina o tempo, intelectuais frustrados na noite paulistana, uma vida solidária e duríssima em um deserto do Atacama pós-apocalíptico, e duas entidades inimagináveis de zilhões de anos no futuro a enfrentar, juntas, os últimos momentos de um Universo entrópico a dar seus últimos suspiros. Há até um mundo de caçadores especializados em desvirginar anjos – daqueles mesmos que têm asinhas e costumavam viver no céu. 

Seria exagero dizer que há para todos os gostos: não se encontram heróis invencíveis e insensíveis, caçadores de tesouros e recompensas ou exaltações bélicas contra monstros de olhos esbugalhados. Mas a variedade é impressionante. 

O ponteiro do relógio passa da fantasia mágica mais delirante à ficção científica mais rigorosa – e nesta o estado-da-arte do conhecimento e da especulação teórica é levado a sério de maneira pouco comum nos autores brasileiros (principalmente os da “Primeira Onda”). Em todos os casos trata-se de histórias escritas com sensibilidade, verossimilhança e muito carinho e respeito pelo leitor exigente. Várias delas parecem completar-se mutuamente, sugerindo um quebra-cabeça que se estende do começo ao fim dos tempos, a ser ampliado por futuros desenvolvimentos. 

Surgem situações das mais imprevistas, como apenas o sonho mais desregrado ou a ciência mais disciplinada pode conceber, mas o foco está sempre em como podem ser vividas com sentimentos humanos, dos mais delicados aos mais brutos. É uma ficção científica orgulhosamente humanista dentro das melhores tradições brasileiras do gênero, escrita sem concessões às tentativas de imitar clichês hollywoodianos que agradam a um público fiel, mas embotam a veracidade e empobrecem a criatividade do gênero.

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