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Eleição polarizada

04/05/2010 13:16:53

Mauricio Dias

Sem Ciro, o PSB está com Dilma e fortalece a possibilidade de a eleição ser decidida no primeiro turno

A retirada da pré-candidatura do deputado Ciro Gomes à Presidência da República consolida uma pergunta que já rondava o debate sobre a sucessão presidencial: para onde escoarão os votos do eleitor de Ciro? Para Serra ou para Dilma?

Na terça-feira 27, o PSB defenestrou Ciro Gomes. A Executiva do partido decidiu, por 11 votos contra 2, que os socialistas não teriam candidatura própria à Presidência da República. Mas, além desse fator, sem a presença de Ciro Gomes na competição, cresce a possibilidade de a eleição de outubro ser definida no primeiro turno. Um resultado possível em eleição polarizada, entre petistas e tucanos, e ainda com forte viés plebiscitário como será a de outubro.

Nesse ambiente inteiramente politizado, a oposição e a imprensa que a vocaliza reagiram à decisão do PSB de retirar o nome de Ciro do páreo e, principalmente, contra a decisão de consolidar o apoio à candidata governista.

O que será dos votos de Ciro? O cientista político Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, responde à pergunta assim:

“Os votos de Ciro Gomes vão mais para Dilma Rousseff do que para José Serra. Em dados gerais, pelos nossos cruzamentos, 50% vão para a candidata do PT e 30% para o candidato do PSDB.”

Para ele, os 20% restantes seriam redistribuídos igualmente entre Marina Silva, do PV, e os indecisos.

“Se considerarmos as proporções para Dilma e para Serra, temos 65% dos votos indo para ela e 35% para ele”, diz Guedes.

A lógica do raciocínio de Ricardo Guedes baseia-se no princípio do que ele considera “pacto do tipo social-democrata europeu”, que teria se formado no Brasil. Ou seja, “a esquerda passa a ser institucionalizada, e a direita cede para programas sociais”.

Os votos de Ciro Gomes favoreceriam, assim, Dilma Rousseff por estar na posição de centro-esquerda do espectro político.

Guedes lembra que o eleitor de Marina Silva, o terceiro nome da disputa com potencial de voto pequeno, mas possivelmente decisivo, pode vir a fazer voto útil em Dilma, na reta final das eleições. Isso ocorreu com a ex-senadora Heloísa Helena, do PSOL, nas eleições presidenciais de 2006. Ela chegou a ter 15% das intenções de voto (um número muito próximo ao porcentual máximo atingido por Ciro nas pesquisas de 2009) e terminou com 5%.

Guedes afirma que o voto dela “fluiu para Lula”.

O nome de Plínio de Arruda Sampaio, recentemente definido como pré-candidato do PSOL, ainda não foi incluído nas pesquisas.

Ricardo Guedes engrossa o coro daqueles que acham possível (como já falou João Francisco Meira, do Vox Populi), a eleição ser decidida pela via rápida, em apenas um turno. A favor da candidata do PT.

“As condições econômicas e sociais favorecem a candidatura de Dilma Rousseff, que expressa o voto na continuidade, estando a oposição com dificuldades de formular um projeto alternativo para o País. Com a tendência de maior conhecimento de Dilma, as intenções de voto permanecerão equilibradas até o início do período eleitoral, com os programas eleitorais nos meios de comunicação e os debates.”

Ao contrário do que se esperava, a questão ambiental não tomou conta dos debates. Isso projeta dificuldades para Marina manter um porcentual de votos acima de um dígito. A pesquisa Ibope, mais recente, indicou que 10% dos eleitores votariam nela se a eleição fosse hoje.

Os debates, segundo Guedes, serão fundamentais para a alteração, ou não, dessas tendências. Ele acredita que, como ocorreu com a candidatura de Heloísa Helena nas eleições passadas, parte do eleitorado de Marina Silva pode vir a fazer o voto útil. 

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Andante Mosso
Dilma na cabeça I

A campanha de Dilma Rousseff vai ser embalada por um dos mais fortes refrões da música popular brasileira:
Deixa a Dilma me levar/Dilma leva eu
É adaptação do refrão Deixa a vida me levar/vida leva eu, dos compositores Serginho Meriti e Eli do Cais, popularizada por Zeca Pagodinho.
Foi criação do marqueteiro Duda Mendonça, surgida no calor da festa do réveillon 2009-2010, na casa dele. Duda conta:
“A música estava tocando e, de repente, o nome dela me veio à cabeça. Eu comecei a cantar
e todo mundo se empolgou”.Falta ainda a liberação dos compositores.

Dilma na cabeça II
Duda está fora da campanha presidencial de 2010, mas arrisca e aposta:
“O Brasil está maduro para escolher uma mulher para a Presidência. Ela vai ganhar a eleição. A presidente vai ser ela”.

Bicão
José Serra compareceu, no sábado 24, ao aniversário de 80 anos da economista Maria da Conceição Tavares.
Ele ligou para ela, dois dias antes, e se disse ofendido com o esquecimento, já que sempre era chamado. Elegantemente, ela então o convidou. Posteriormente, desculpou-se e disse que achava
que não poderia ir à festa. Por fim, voltou a falar com ela e disse que daria “uma passadinha”.
Embora seja amigo da aniversariante, aquela não era a praia dele.
Exatamente, por isso, Serra não tinha sido convidado.

Novos rumos
A candidatura do deputado Flavio Dino ao governo do Maranhão cruzou o “corredor polonês” formado pelos defensores do alinhamento do PT local com a candidatura de Roseana Sarney.
Com isso, o PCdoB, após 88 anos de existência, terá o primeiro candidato a governador de estado, com chances reais de vitória.
A candidatura de Dino é, além de tudo, um símbolo de resistência democrática e pode abalar definitivamente o domínio do clã Sarney no Maranhão.

Voto torturante
Do presidente da OAB do Rio de Janeiro, Wadih Damous, sobre o voto do ministro Eros Grau,
do STF, sustentando a anistia para os torturadores durante o regime militar:
“A impressão que me deu ouvindo o voto dele é a de que, se algum torturado estivesse no recinto do Supremo, se sentiria torturado mais uma vez”.

Guerra suja
Os tucanos armam um sistema pesado para a batalha eleitoral na internet.
No blog do deputado Brizola Neto há dois flagrantes anotados.
O site Gente Que Mente está registrado em nome do PSDB; o blog WWW.petralhas.com.br é um domínio oficial do tucano Eduardo Graeff, coordenador da campanha presidencial de José Serra e presidente do Instituto Social-Democrata (ISD).
“É baixaria pura”, acusa o parlamentar.

Dilma afinada
No debate sobre cultura, na manhã do sábado 24 de abril, com artistas cariocas, Dilma Rousseff falou sobre o diálogo que presenciou numa reunião internacional.
“O representante de um desses países desenvolvidos advertiu o emissário de Bangladesh: ‘Quem não segue nossas posições não recebe nosso dinheiro’.”
Dilma falava dos efeitos benéficos para a política externa do Brasil após quitar a dívida com o FMI.

Plano B
Sérgio Guerra, presidente do PSDB, flerta com o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ).
Crivella, que busca a reeleição, ficou sem espaço na coligação governista formada basicamente
na coligação entre PMDB e PT.
Os tucanos pensam nele como alternativa ao nome de Gabeira para o governo do estado.
Teria sido essa a conversa que marcou um recente encontro entre os dois.

Dilema de Serra
Em 2002, para se livrar da avaliação negativa do presidente FHC, José Serra se recusou a representar o que era: candidato da situação.
Em 2006, para fugir do confronto com a popularidade de Lula e a boa avaliação do governo, ele foge de representar o que é: candidato da oposição.

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Aposentadoria
Lula perdeu


O governo se enrolou desde o início e Lula será derrotado no confronto com o Congresso em torno da Medida Provisória que fixa o aumento dos aposentados que ganham acima de um salário mínimo.

Desde janeiro vigora aumento de 6,14% oferecido pelo governo. O Congresso propõe 7,7%. O governo admite 7%, mas não tem maioria para aprovar essa contraproposta.

A frase “desde o início” não é força de expressão. O erro original foi entregar a relatoria da MP ao deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo. A derrota do relator passou a ser a derrota do governo.

O porcentual de 0,7% que mantém o conflito representa um impacto fiscal de, aproximadamente, 500 milhões de reais/ano.

É muito? Não parece. A elevação de 0,75% na taxa de juros tem um efeito de cerca de 7 bilhões de reais anuais na dívida interna que anda na casa de 1 trilhão de reais.

Todo o discurso oficial se sustenta na ameaça de que a Previdência vai quebrar. Não é verdade, mas virou dogma. Dogma tão forte quanto o da virgindade de Maria. A Previdência urbana (excluídas a rural e a do funcionalismo público) vai bem. Melhor ainda com a arrecadação propiciada por 12 milhões de empregos formais criados pelo governo Lula. 


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(Foto: Wilson Pedrosa/AE)

Mauricio Dias

Rosa-dos-Ventos

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