Está fincado o marco inicial do viés plebiscitário que sustentará a eleição para presidente: na disputa entre petistas e tucanos, a visão sobre o papel do Estado é a diferença.
É uma distinção ideológica. Em linhas gerais, o PSDB privilegia o mercado e o PT, o Estado.
Mas essa divergência existe dentro do próprio governo Lula, projetada pela aliança política com partidos conservadores que deu a vitória a Lula em 2002 e 2006. Mas não só. Ela norteou, agora, os debates internos, acirrados, na coordenação da campanha da ministra Dilma Rousseff. Vazada para a imprensa, deu notoriedade maior à questão.
Os “estatistas”, com a simpatia de Lula e Dilma, fizeram concessões, mas ganharam o embate dos “antiestatistas”, que têm como expressão maior o deputado e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.
Lula, em discurso feito na cidade de Governador Valadares (MG), na segunda-feira 8, entrou de sola no assunto. Atacou: “Não acreditamos na ideia de Estado mínimo, na ideia de que o mercado resolve”. Bem ao estilo lulista, ele destacou: “O mercado resolve o problema de quem tem prata no bolso. Mas não resolve o problema das pessoas pobres”.
Está aí a diferença. Esse é o melhor sentido da palavra Estado, para quem quiser entender Lula e Dilma. Nenhum dos dois se enquadra no calculado exagero ideológico do jornal O Globo, que, na primeira página, classificou Dilma de “estatólatra”. O adjetivo traduziria o Estado Leviatã com o poder de resolver todas as dificuldades econômicas e sociais do País.
Dilma, no confronto interno, lembrou e argumentou (o fato não chegou a ficar na versão final do documento da coordenação) que o governo abriu linha de crédito para saneamento básico e nenhuma empresa se habilitou para obter os recursos.
Para os “estatistas” do governo e do PT, “os preconceitos ideológicos hegemônicos nos anos 90 fizeram com que o Estado brasileiro passasse naquele período por um processo de desconstrução, que comprometeu a sua eficácia. Os mesmos que, no passado, foram responsáveis por esse desmantelamento, são hoje os que denunciam a ‘gastança’ e o ‘inchaço da máquina pública’.
A vitória de Dilma fortalecerá o papel das empresas estatais e, certamente, o planejamento estratégico da economia. Para isso, o desenho inicial e ainda incipiente da organização administrativa do governo passa pela ampliação e funções do Ministério do Planejamento.
Não há por que esconder e sonegar esse debate tão claramente exposto nas linhas do projeto esboçado para o embate com os tucanos: “O governo buscará, de forma gradativa e consistente, modificar o arcabouço jurídico hoje existente oriundo de décadas sob a hegemonia neoliberal”.
E como não se faz omelete sem quebrar ovos, esse projeto põe na mira as mudanças no “arcabouço jurídico” do País que, para os petistas, foi moldado para dificultar o investimento público.
ANDANTE MOSSO
Corpo a corpo A indefinição da pré-candidatura do deputado Ciro Gomes quanto à Presidência ou ao governo de São Paulo vai durar enquanto durar a mesma indefinição do governador José Serra. É o dueto da indecisão.
Quarteto em si Está praticamente montado o palanque da oposição conservadora no Rio de Janeiro, formada por quatro partidos: PV, PSDB, DEM e PPS. O verde Fernando Gabeira será o candidato a governador e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) tentará o Senado. O ex-deputado tucano Márcio Fortes vai como vice na garupa de Gabeira. Uma vaga para o Senado, da cota do PPS, tem como nome consensual a ex-deputada Denise Frossard. “Ficarei honrada com o convite, se ele for feito. Mas dei adeus à política”, disse ela a este colunista. A decisão abala a linha de sustentação da candidatura Serra no estado.
Plimplim De nada valeu o hexa do Flamengo no Campeonato Brasileiro para levantar o prestígio dos clubes cariocas. Na vinheta do futebol da TV Globo continua o domínio absoluto de São Paulo. Só aparecem meias e calções de clubes paulistas.
Palpite infeliz Ao visitar o Haiti, poucos dias após o terremoto, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao ser perguntado sobre o número de mortos e desaparecidos, pontuou que, naquela altura, falar em “desaparecidos” era um eufemismo. Pois não é que no dia 9 de fevereiro, quase um mês após a tragédia, um “eufemismo” foi encontrado com vida: era um homem de 28 anos, com desidratação e desnutrição extremas.
Combustão Produzido com material inflamável, o Programa Nacional de Direitos Humanos do governo Lula se consumiu ardendo. Agora é cinza.
Surfe sociológico As teorias do ex-presidente Fernando Henrique não resistem à prova do tempo. Quando estava no governo, dizia em conversas com jornalistas, como disse a este colunista, que Lula não era líder político, e sim “um símbolo social”. Agora diz que “Dilma não é líder, é reflexo de um líder”. Como os surfistas, o sociólogo FHC descobre e pega a onda que passa.
Premonição de sambista? É da lavra do compositor Aniceto do Império um partido-alto chamado Mulher na Presidência, gravado no disco Partido Alto Nota 10, lançado em 1984. Aniceto pergunta assim: Se acaso acontecer uma mulher na Presidência? Um coro feminino sustenta a resposta: É sapiência, oi! É sapiência. E mais: Se surgir uma mulher/ que ocupe a Presidência/ lucrará muito a nação/ dando fim à divergência (clique para ouvir: http://lindmidis.sites.uol.com.br/axepagodesamba.htm). A música é fruto da inspiração de Aniceto, morto em 1993, mas o PT já pensa em usar a música na campanha presidencial.
Batismo de fogo O nome do marinheiro João Cândido, que, em 1910, comandou a revolta contra o uso da chibata na Marinha, é ainda hoje maldito na cúpula da Força Naval brasileira. Lula decidiu que o primeiro navio a ser lançado nos estaleiros do Rio de Janeiro homenageará “o companheiro João Cândido”, como disse, também chamado de Almirante Negro. A decisão atende a sugestão dos movimentos negros.
Coisas da capital Está quase pronta a sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no canteiro de obras do Judiciário, próximo do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Grandioso, o prédio se destaca no cenário, fazendo sombra ao próprio STJ erguido sob uma fuzilaria de críticas. É bom lembrar que a única eleição sob responsabilidade do TSE é a presidencial. As demais estão a cargo dos tribunais regionais eleitorais. Viceja por lá mais um palácio faraônico para abrigar um tribunal que, a rigor, só funciona de dois em dois anos.
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Metamorfose Trapaças da sorte
Já não há mais dúvidas sobre o processo de transformação política que vive a senadora Marina Silva.
Ela trocou o Partido dos Trabalhadores (PT) pelo Partido Verde (PV) após dar baixa na administração do governo Lula, ao qual serviu por mais de seis anos.
Marina não trocou apenas a camisa partidária. Ela mudou de lado, cumprindo o destino de tantos outros militantes de esquerda. Notadamente os egressos do velho e carcomido Partido Comunista Brasileiro, o PCB.
Passo a passo, a acriana valente que emergiu dos movimentos sociais e sobreviveu à violência do latifúndio cumpre a trajetória daquelas figuras que cacarejam à esquerda e terminam por botar ovos à direita. Aspas para a mais recente afirmação feita por ela: “Um erro que cometemos, e digo nós porque fiz parte do PT por 30 anos, foi o de não estabelecer um ponto de contato com o PSDB”.
A frase foi dita há poucos dias e talvez coroe o processo de mutação política da pré-candidata do Partido Verde à Presidência da República, que agora faz o papel de força auxiliar da pré-candidatura presidencial tucana do governador Serra.