Desafio aos quatrocentões
05/02/2010 15:21:09
Mauricio Dias
A imprensa brasileira ignorou o que talvez tenha sido o mais importante e corajoso discurso político do presidente Lula feito ao longo deste segundo mandato.
No dia 22 de janeiro, durante a cerimônia de inauguração da sede do novo sindicato dos trabalhadores do setor de processamento de dados, em São Paulo, Lula finalmente percebeu a vertente da história brasileira em que meteu e anunciou o encontro com ela.
O presidente improvisou. Talvez tenha sido alertado de que falaria no auditório que leva o nome de Vargas, em homenagem ao ex-presidente. Lula falou:
“Muitas das coisas boas que temos (devemos) à coragem de Getúlio Vargas, à visão de Estado que tinha Getúlio Vargas. Estamos convencidos de que Getúlio prestou esse serviço ao Brasil. Lamentavelmente, uma parte da elite brasileira, inclusive uma parte da elite intelectual, (vive) inconformada porque não conseguiu ganhar o golpe de 32 que chamam de revolução. Aquilo foi uma tentativa de golpe. Não se conformam. É muito triste aqui em São Paulo a gente não encontrar uma rua com o nome de Getúlio Vargas”.
A memória da sociedade sobre Vargas – aquela pequena parte que tem memória histórica – transita da ditadura do Estado Novo às leis trabalhistas, marcos de sua passagem inicial pelo poder. Foi nesse período de bancar o confronto com as oligarquias que, pressentindo a marginalização iminente, reagiram ao lançamento de algumas das pedras fundamentais sobre as quais se assenta o Estado brasileiro moderno. Lula prosseguiu:
“(Getúlio) parece uma coisa ruim. Um homem que foi presidente da República e deixou um legado e as pessoas mais pobres são agradecidas”.
A admiração manifestada por Lula não sufocou a crítica ou a autocrítica.
Durante as jornadas de greve liderada pelo metalúrgico Lula, em São Bernardo do Campo, em confronto com a ditadura, Lula atacou as amarras dos sindicatos ao Estado e, então, exagerava nas reações contra Vargas. Naquele final da década de 1970, quando foi chamado pela revista The Economist de “herói da classe operária”, deixava a impressão de que o único sindicalismo válido era aquele que emergiu no berço avançado do capitalismo brasileiro.
Lula encerrou o discurso de reatamento com Vargas e com o melhor fio da história brasileira:
“Eu tenho divergências com Vargas na questão da estrutura sindical (...) mas eu sou capaz de ter divergências com um companheiro e não ver só defeito, ver as virtudes que a pessoa tem. Eu acho que Getúlio foi um excepcional presidente deste país”.
Em 24 de agosto de 1954, sob pressão insuportável da oposição golpista, Getúlio Vargas deu um tiro mortal no peito. Mas seu legado ficou e resistiu até mesmo aos ataques do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em discurso, em dezembro de 1994, pintou o “legado de Vargas” como “o passado político que ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade”. Prometeu “a abertura de um novo ciclo de desenvolvimento” e “um novo modo de inserção do País na economia internacional”.
Fracassou. Getúlio ficou oito anos no ostracismo. Lula o resgatou. O legado de Vargas continua.
::
ANDANTE MOSSO
Fogo amigo I
Em turnê pelo Piauí, o ex-ministro José Dirceu afirmou que Lula vai voltar a disputar a Presidência em 2014. É, segundo ele, “um desejo do Brasil e do PT”.
O anúncio, mera especulação, além de sugerir que a candidatura de Dilma representa apenas um mandato-tampão é deselegante, porque menospreza a candidata.
E serve de munição contra ela.
Fogo amigo II
No blog, o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e voz isolada contra Lula no partido, destilou fel contra Serra: Movido pelas pesquisas, ele escreveu: o que a oposição fará se, em março, José Serra declarar que não vai disputar a eleição a presidente, mas a reeleição ao governo de São Paulo?
O PSDB vai pedir emprestado ao Palácio de Buckingham a carruagem da rainha Elizabeth para buscar Aécio em Minas? E ele vai topar?
Vez dos nanicos
O PHS entrará no STF com ação direta de inconstitucionalidade contra o critério de distribuição do horário eleitoral gratuito para cargos majoritários. Lauro Barreto, advogado do partido, sustenta que o critério atual favorece quem elegeu mais deputados federais na eleição anterior e argumenta que o horário deve ser repartido igualitariamente para quem estiver na disputa.
Ele se apoia nos votos dos ministros Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Carmem Lúcia, que, em 2006, julgaram inconstitucional a cláusula de barreira. “A minoria”, diz Barreto, “deve ter espaço para poder ser maioria amanhã”.
Dilma em livro
Foi às pressas para a gráfica o livro O Brasil – Entre o passado e o futuro, organizado por Marco Aurélio Garcia e Emir Sader. O título foi tirado da obra Entre o Passado e o Futuro, da pensadora alemã Hanna Arendt, traduzida no Brasil pelo pensador tucano Celso Lafer.
Inclui uma longa entrevista da ministra Dilma Rousseff – “Um país para 190 milhões de brasileiros” –, que sinaliza para um dos pilares do discurso que fará na campanha eleitoral. Será lançado durante o Congresso
do PT entre 18 e 20 de fevereiro.
Justa homenagem
A comemoração dos 80 anos da brava economista Maria da Conceição Tavares, em abril, terá como ponto forte um seminário internacional, organizado por José Luiz Fiori. O evento deve entrar na agenda do presidente Lula.
Mantra falido
Desde que foi apresentada como pré-candidata à Presidência, a pichação da oposição na imagem da ministra Dilma Rousseff varia acusação de antipatia, passa pela dedurada infame de que ela foi terrorista e desemboca, agora, na acusação de que é mentirosa.
O crescimento constante das intenções de voto nela mostra que esse tipo de campanha tem sido absolutamente irrelevante.
Rock na Polônia
O publicitário Roberto Medina vai promover um grande evento de rock, na Polônia, à imagem e semelhança do bem-sucedido Rock in Rio.
Será na cidade portuária de Gdansk, terra do ex-presidente e líder operário Lech Walesa, durante o verão europeu de 2011.
Vício brasileiro
A pesquisa CNT/Sensus, divulgada na semana passada, incluiu a pergunta sobre a melhor forma de se conseguir emprego no Brasil.
O maior porcentual de respostas na “boa formação profissional” é elevado em todas as regiões do País. É mais forte, porém, no Norte e Nordeste: 67,2%.
A afirmação de que a garantia do emprego depende do “QI”, ou seja, Quem Indica, é maior no Sudeste (18,7%) e Sul (14,8%) do que no Norte/Centro-Oeste (10,6%) e Nordeste (12%).
Isso traduz o fortalecimento do patrimonialismo urbano e o enfraquecimento do coronelismo rural.
::
Eleição presidencial
Chave do mistério?
De volta das férias, o deputado Ciro Gomes reiterou, na primeira oportunidade, que não vai retirar, pelo menos até março, sua pré-candidatura presidencial. Março também é a data-limite para o governador paulista José Serra decidir o futuro. Ou disputará a eleição para presidente ou a reeleição para o estado que hoje governa.
A candidatura de Ciro parece umbilicalmente ligada a esse demorado parto da candidatura dos tucanos: Serra ou, ainda, Aécio?
Por que Ciro teria transferido o título de eleitor do Ceará, onde entrou para a vida política, para São Paulo, onde nasceu? Parece um mistério. Certamente não é por saudade do torrão natal.
Ciro, pré-candidato por um dos partidos da base governista, o PSB, tem sido um valente e fiel aliado de Lula. Ele faz movimentos condicionados à decisão do PSDB.
Caso Serra saia da disputa presidencial, o cenário para ele se modificaria inteiramente. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, voltaria para a competição eleitoral?
Se isso ocorrer Ciro desistirá, como já disse. Mas, se Aécio não voltar, desistirá também. Não medirá forças com Dilma, também da base governista. Isso não faz sentido político.
Ciro parece que gostaria mesmo é de disputar com Serra o governo paulista.
Mauricio Dias
Rosa-dos-Ventos