Cauteloso, por método acadêmico e pela origem mineira, o cientista político Ricardo Guedes, doutor em Ciência Política pela Universidade- de Chicago, não é de fazer afirmações sem consistência, mas, baseado nos resultados da 99ª pesquisa CNT/Sensus, divulgados na segunda-feira 23, ele construiu uma certeza: as pré-candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves estão em ascensão. Guedes faz, porém, afirmação categórica: a economia é “a variável de maior influência no resultado eleitoral”. Por coincidência, o governador José Serra, dias atrás, disse que não acredita nisso. Ele finge que não vê que o País melhorou. É um tucano com comportamento de avestruz.
CartaCapital: O que pode explicar a queda da intenção de voto em Serra? Ricardo Guedes: É a perda de um espaço político muito significativo. Por outro lado, há um aumento contínuo da intenção de voto em Dilma e um aumento progressivo de Aécio Neves.
CC: Há uma relação direta entre a subida de Aécio e a queda de Serra? RG: Acho possível. Penso que no Brasil formou-se um pacto social-democrata do tipo europeu. A esquerda passa a ter um comportamento institucional e, por outro lado, a direita cede para as questões sociais. Houve uma flexibilização de propósitos. O Brasil finalmente atingiu isso com Lula. Há um pacto econômico em que todos ganham e o eleitor nessa hora procura soluções centristas, a continuidade do projeto em execução, que pode ser administrado por pessoas do PT, ou fora dele, desde que tenham certa comunhão com isso. O governador José Serra, identificado com o ex-presidente Fernando Henrique e eleito adversário principal pelo presidente Lula, sofre uma rejeição por isso.
CC: Será uma eleição na qual a população mais pobre teme perder? RG: Sem dúvida. O eleitor não quer mudanças radicais neste projeto atual. Se o eleitor perceber na oposição ao governo uma alternativa de alteração do projeto, a eleição pode virar plebiscitária.
CC: O confronto Dilma-Serra cria esse cenário? RG: Exatamente. Por isso, Dilma e Aécio têm crescido de forma contínua. Isso me permite fazer uma afirmação acadêmica em cima dos dados, a de que Dilma e Aécio vão crescer ainda mais.
CC: E o Serra vai cair mais? RG: Eu não posso afirmar que ele vai continuar a cair.
CC: Por que, então, Dilma e Aécio vão crescer? RG: Quando fazemos o cruzamento da intenção de voto por sexo, verificamos que, no total do eleitorado (48% de homens e 52% de mulheres, aproximadamente), os votos em Serra estão homogeneamente distribuídos (32,6% masculinos e 31% femininos). A mesma coisa acontece com Ciro Gomes (16,9% masculinos e 18% femininos). Já com Dilma há muito mais intenção de voto masculino (25,3%) do que feminino (18,4%). A mesma coisa ocorre com Aécio Neves (24,1% masculinos e 17,5% femininos). O voto masculino tende a puxar o feminino dentro do processo eleitoral.
CC: Que fenômeno é esse? RG: Um grande apoio masculino na intenção de voto significa movimento político. Ou seja, existem movimentos políticos em torno de Dilma e de Aécio. Dilma, possivelmente, está entrando no foco da percepção dos petistas, pois tem apoio de um governo que, na percepção dos eleitores, é bem melhor do que o de seu antecessor (gráfico). No caso de Aécio, ele cresce como opção alternativa de oposição.
CC: A influência da economia pode favorecer o candidato governista? RG: Não tenha dúvida. É a primeira e mais importante variável. Eu diria que 80% da influência no resultado eleitoral vem da economia.
::
FRASE “49,3% não votariam em candidato a presidente da República apoiado por Fernando Henrique Cardoso” voz do eleitor captada pela pesquisa cnt/sensus
::
ANDANTE MOSSO
Lapso da Ipsa Ausente do XXI Congresso da Associação Internacional de Ciência Política (Ipsa), realizado em setembro, no Chile, Fernando Henrique Cardoso gravou um vídeo para a abertura do evento, onde fala sobre os impactos da crise econômica. Na capa da newsletter de outubro, a prestigiada Associação não deixa por menos: FHC é tratado como atual presidente do Brasil. Uma resistência freudiana à sucessão do sociólogo pelo operário? A Associação, até recentemente, era presidida pela brasileira Lourdes Sola, de conhecida simpatia pelo ex-presidente.
Disputa no tapetão Com a eleição marcada para 7 de dezembro, a disputa pela presidência do Flamengo, o clube de maior torcida no Brasil, mobiliza grandes recursos financeiros. Na avaliação de especialistas, a campanha da ex-nadadora Patrícia Amorim já atingiu a casa de 1 milhão de reais. Ela tem o apoio do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e de Leo Rabelo, empresário de jogadores credenciado pela Fifa. Há cálculos de que o principal adversário dela, Plínio Serpa Pinto, já gastou até agora cerca de 800 mil reais. Ele é ligado à construção civil carioca e conta na retaguarda com o publicitário Duda Mendonça.
Rolo na OAB Reeleito com mais de 72% de votos para a presidência da OAB-RJ, Wadih Damous passou como um trator sobre o conhecido advogado carioca Técio Lins e Silva, que ocupa o Conselho Federal da Ordem dos Advogados por força de decisão judicial. “A bancada da OAB do Rio agora será composta exclusivamente por força do voto dos advogados e não pela interferência indevida do Poder Judiciário”, comemora Wadih.
Relações internas Oficiais e assistentes de chancelaria do Itamaraty estão em estado de ebulição. Tudo provocado pelo aumento expressivo do número de diplomatas e de cargos comissionados DAS, enquanto o quadro de funcionários permanentes se mantém estável. Nos últimos quatro anos, o Ministério das Relações Exteriores nomeou 400 diplomatas e prepara o processo seletivo de mais 108 para nomeá-los antes do prazo legal permitido por lei, no ano eleitoral de 2010. O pessoal acha, com razão, que há muito cacique para poucos índios.
Curió não pia Figura carimbada dos porões da ditadura, o major Sebastião Curió, agente do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), reapareceu em Brasília, onde está morando, depois de ter sido prefeito de Curionópolis, cidade paraense que leva o nome dele. Com os movimentos sociais forçando a abertura dos arquivos do regime militar, Curió, que não contou tudo o que sabe, está na muda e anda dissimulado na capital. Adotou uma peruca acaju e raspou o bigode.
Descuido A polícia desbaratou a cúpula da mais antiga e influente milícia do Rio. Os chefes, que faturavam cerca de 170 mil reais por dia com transporte clandestino, moravam no Golden Green, um condomínio de luxo na Barra da Tijuca. Um deles, Epaminondas de Queiroz, capitão da PM, foi integrante destacado do esquema de segurança do ex-prefeito Cesar Maia. Talvez Maia nem saiba disso.
Eleitor na muda Uma das informações mais expressivas da pesquisa CNT/Sensus é a queda nos índices de rejeição de todos os candidatos. O impacto mais forte é na candidatura de Ciro Gomes, cujo porcentual de rejeição baixou quase 14 pontos, de 39% para 25,3%. Segundo Ricardo Guedes, diretor da Sensus, esse é um fenômeno que ocorre em situações específicas. Nesse caso, o eleitor não satisfeito com as alternativas de voto procura uma realocação da sua decisão de voto.
::
A democracia nos quartéis Cresce no Brasil pós-ditadura o contencioso das Forças Armadas com a legislação democrática, fruto do litígio de uma instituição que, apoiada no princípio da disciplina, confunde autoridade com autoritarismo e, por consequência, olha os princípios legais como um estorvo para a administração da caserna.
Na medida em que o Ministério Público não se omite, os conflitos vão pipocando aqui e ali, como ocorreu recentemente no Rio Grande do Sul.
Uma Ação Civil Pública, interposta em conjunto pelo Ministério Público Militar e o Federal, interrompeu naquele estado a continuação de um velho processo de contratação de militares temporários, cujo processo de seleção era fundado no “apadrinhamento”.
O método de seleção em vigor era feito com entrevistas e análise de currículos, e sem permissão aos candidatos ao direito de interposição de recursos.
A ACP, assinada pelo procurador da República Rafael Brum Miron e os promotores da Justiça Militar Soel Arpini e Jorge Cesar Assis, sustenta que a forma de ingresso feita até então feria “os princípios constitucionais da impessoalidade, moralidade, publicidade e isonomia”, entre outros.
A decisão é restrita ao Rio Grande do Sul, mas, como o critério é usado em todo o País, como ficará moralmente tal processo de contratação diante dessa decisão?