Jornalista, construiu sua carreira profissional nas áreas da comunicação e do turismo. Nos últimos anos trabalhou na SpTuris, no BNDES e na CartaCapital
“Fora Sarney! Diretas Já!”, minha mulher lembrou deste grito ontem à noite, quando assistíamos ao Jornal Nacional. O leitor deve se lembrar daquele momento. A presidência da República tinha caído no colo do maranhense (que ainda não era do Amapá) depois da morte de Tancredo Neves, em abril de 1985. A grande maioria da sociedade brasileira queria mais, queria eleições diretas.
Porém, um ano antes, em 1984, o Congresso Nacional havia rejeitado a emenda Dante de Oliveira e o clamor popular. Tivemos que engolir as indiretas e tragar Sarney. Aí, ficamos alguns anos ouvindo os gritos acima nas manifestações de rua. Até que, em 1989, pudemos finalmente votar para presidente e ... eleger Fernando Collor .
Vinte longos anos se passaram, o leitor se deu conta? E o grito volta. Só que agora da tribuna do Senado, nas vozes de ....Artur Virgílio e José Agripino, senadores do PSDB e do DEM. O povo assiste, nenhuma entidade popular se manifesta até agora sobre a crise que destrói o Senado. E o PT, triste ironia, pela voz do presidente Lula antes e da senadora Ideli Salvatti ontem, saem na defesa do indefensável.
São os preços das alianças. O governo trouxe o PMDB para o seu lado, virou maioria. Pagou caro por isso: as presidências da Câmara e do Senado, vários ministérios, dezenas de cargos a importantes, centenas de nem tanto. E muito mais. É a tal da “governabilidade”. Por conta disso vai aturando os desmandos infinitos: nepotismo, empreguismo, desperdício de verba pública, orçamentos secretos, uma lista que não para de crescer e envolve todo o Senado – para não falar da Câmara dos Deputados, Michel Temer anda mudo - , alguns senadores bebendo mais da fonte, outros menos.
Claro que a oposição joga com o caso, não seria oposição se não o fizesse: com a queda do imperador do Maranhão, assumiria seu cargo, o vice Marconi Perillo, do PSDB. Daí ficaria muito mais fácil emplacar a CPI da Petrobras e muitas outras coisitas mas, em ano pré-eleitoral, de disputa na ponta da faca.
Sabendo disso, o bloco de situação, majoritário, mantém o impasse e o próprio partido tucano tenta uma saída negociada, rifando Perillo e montando uma “comissão especial” para substituir Sarney. Perillo chiou, o PSDB recuou, o impasse continua.
A cada dia sabemos novidades de Sarney e do Senado. Claro que a crise é da instituição. Mas quem é a “instituição”? Quem a presidiu nos últimos tempos? Lembremos só dos mais ilustres: ACM, duas vezes, Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Sarney, três vezes. Vamos e venhamos, com uma galera deste “naipe”, como diria meu sobrinho, o que esperar da “instituição”? Você gostaria de ver estes “cidadãos comuns” comandando a tua micro-empresa ou a escola do teu filho?
Pois é. Apoiar a destituição de Sarney custará caro ao presidente Lula e ao PT. Mas, fazer o quê, a vida é assim. Não tem almoço grátis. E se o convidado é uma “mala”, sinto muito, já se sabia disto antes, hora de pagar a conta cara. E dispensar a sobremesa.