O paradoxo de Lula
26/06/2009 18:26:54
Mauricio Dias
Embora falte prova factual, é possível se arriscar e dizer que, para desgosto do público em geral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a defender o que parece ser indefensável, ao assumir a proteção de José Sarney, ex-presidente da República e, pelo menos enquanto essas linhas são escritas, atual presidente do Senado.
É muito difícil concordar com Lula, que apareceu no cenário eleitoral com a tarefa, presumida, de restaurar a confiança na política, quase perdida em vinte anos de subordinação imposta pelos militares aos civis.
Não se trata de defender o ilícito. Nesse caso, o comportamento dos senadores, quase sem exceção, e a volúpia dos grandes burocratas do Legislativo, certamente tem levado muita gente a sentir o asco manifestado pelo falecido ditador português Oliveira Salazar, quando disse que detestava a política, “do fundo do coração”.
Quem não quiser se incomodar com a política torna-se objeto involuntário dela.
O lance de Lula é ousado, mas, politicamente compreensível. É preciso, nesse momento, repetir o óbvio. Política não é ciência, não é religião. Política é política. Ela é uma atividade humana civilizadora. A alternativa a ele é o conflito entre os homens, entre os países. E os políticos são frutos do tempo e da sociedade em que atuam. Duas forças que também condicionam o eleitor. O Senado é um espelho da sociedade brasileira. Ela acha feio o que vê no espelho.
Embora seja teoria, a política também é prática. Prepare o estômago quem não conhece a história seguinte. Foi por razões políticas que Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao sair da prisão após o Estado Novo subiu, no momento seguinte, no palanque eleitoral de Vargas. Naquelas circunstâncias, pediu votos para o homem que autorizou que a mulher de Prestes, Olga Benário, fosse entregue aos nazistas alemães.
O que aconteceria se Lula virasse as costas para os aliados políticos como Sarney que tiveram influência decisiva para a eleição dele no segundo turno de 2002?
É tudo que a oposição de agora, velha cúmplice de José Sarney, torce para que ele faça. Pressiona e instiga uma reação que enfraqueça a posição da base governista no Congresso. A oposição, diga-se, age como deve agir. Faz do escândalo gerado por erros uma arma de desestabilização do governo.
Não se pode esquecer que Lula, para ganhar a eleição, em 2002, escorregou para o centro. Um acerto tático com preço elevado a pagar.
Em 1989, muito antes da vitória máxima do PT, Raymundo Faoro mostrou a armadilha que estava à frente do PT: “Se o PT entender que o tempo não é crucial, vai se beneficiar muito com isso. O tipo de proposta do PT não é a Presidência da República. O importante são os meios para, na Presidência da República, promover aquelas reformas a que ele se propõe”.
Precipitado, o Partido dos Trabalhadores caiu na armadilha.
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ANDANTE MOSSO
Saturno contra Urano
Já que os economistas e os políticos estão com a credibilidade abalada, não custa dar voz aos astrólogos que, reunidos, no Rio, em Simpósio Nacional, deliberaram sobre Tensões, Crises e Superação –
A humanidade frente aos conflitos.
Segundo a astróloga Marilda Bourbon, as instituições estão sendo abaladas porque “o planeta Urano quer a renovação, enquanto Saturno quer manter o status quo”.
Memória e medo
Marcos Arruda, do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs) conta um episódio que explica o silêncio dos tucanos sobre os arquivos da ditadura militar: “Em 2005, quando participei de um debate sobre a questão com o ex-presidente FHC na Universidade Brown (EUA) ele botou “a culpa” na sociedade: “Não houve suficiente pressão...”, disse.
FHC foi lembrado dos esforços de movimentos sociais, como o grupo Tortura Nunca Mais e o das mães dos desaparecidos, ao longo dos dois governos dele. Um pastor anglicano, presente ao encontro, também pressionou. Houve silêncio. “FHC passou um grande vexame naquele dia”, diz Marcus.
Mais um
Em meio à bipolarização político-eleitoral, entre petistas e tucanos, o Partido Humanista da Solidariedade (PHS) vai se intrometer na eleição presidencial de 2010.
Escolheu como pré-candidato o advogado Oscar Silva, de Brasília. Aliado informal do governo, o cacife do PHS não é grande.
Conta com dois deputados federais, dez estaduais, 352 vereadores e, no mínimo, um minuto de tevê.
Meia-sola
Com o fim do fantasma do terceiro mandato, o líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana, assume a proposta de dar poder constituinte aos eleitos em 2010.
“Já participei de duas tentativas de reforma política. Mas ela só sairá com data e forma marcadas e, além disso, com os temas previamente definidos.”
O País talvez precise mais.
Ou seja, uma Constituinte exclusiva.
A bênção de Simon
Orientado pelo senador Pedro Simon, o PMDB gaúcho não assinou o pedido de CPI para investigar
as evidências de caixa 2 no governo Yeda Crusius.
O PDT local não fechou questão. Subiu no muro e apenas recomendou que os seis deputados estaduais assinassem.
Três assinaram e três negaram o apoio.
Tradução: Dilma e Serra disputarão metro a metro apoio eleitoral no estado.
Eleição e bangue-bangue
Filiado ao PR, o ex-governador Anthony Garotinho vai disputar novamente o governo do Rio
e já ofereceu o palanque para Dilma Rousseff.
O governador Cabral, que lidera as pesquisas com pequena vantagem, dependurou perigosamente a reeleição na ponta do fuzil.
No Orçamento de 2009 destinou cerca de 2 bilhões e 700 milhões reais para a Segurança e apenas um pouco mais, 2 bilhões e 900 milhões reais para a Educação.
Trava, até agora, um tiroteio com os traficantes de resultado discutível.
Sentou em cima
Caso José Sarney peça licença, sugerida por alguns senadores, sobre a cadeira da presidência do Senado, vai ser visto o comunicado do TSE informando a cassação do mandato do senador Expedito Jr. (RO) no dia 19.
Sarney não levou o comunicado à mesa diretora. O substituto legal, Acir Gurgacz, já diplomado, circula ansioso pelos corredores da casa.
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O caixão anunciado
Ao projetar, para agosto, o julgamento do deputado Antonio Palocci, acusado de ter ordenado a quebra
do sigilo bancário do caseiro Josenildo, em 2006, o ministro Gilmar Mendes deixa os petistas paulistanos definitivamente sem saída.
Como se sabe, aquele episódio expeliu Palocci do Ministério da Fazenda. Agora, a perspectiva Palocci torna-se, ao que tudo indica inescapável.
Antonio Palocci emergiu para a política em Ribeirão Preto, onde foi prefeito. Caso seja absolvido no STF, como se prevê, será o candidato ao governo do estado, em 2010. Com ele, a candidatura presidencial
da ministra Dilma Rousseff ganha um esteio eleitoral fortíssimo no estado, onde se concentra o maior eleitorado do País.
O nome do ex-ministro da Fazenda, por exemplo, abala a preeminência dos tucanos na Fiesp. A especulação de agora, a candidatura, pelo PT, do deputado Ciro Gomes, um paulista de Pindamonhangaba que fez carreira política no Ceará, seria um prego ainda maior no caixão do PT da capital, representado por algumas conhecidas estrelas do partido.
Mauricio Dias
Rosa-dos-Ventos