Busca

Publicidade

Assine CartaCapital

Acesse o site Mercado Capital e confira nossas promoções para os assinantes de CartaCapital, Carta na Escola e Carta Fundamental



Colunistas
FECHAR Marcio Alemão

O triunfo das nulidades

10/10/2008 16:50:34

Marcio Alemão

Faz tempo que não dou a menor atenção aos prêmios de gastronomia que a revista Veja São Paulo distribui uma vez por ano. 

Nada contra. O trabalho que essa edição especial demanda é monumental. Apenas nunca consegui concordar com a maioria dos vencedores e dos indicados e com a quantidade de categorias. Já chegaram a me dizer que talvez exista interesse comercial na parada. Eu acho muito difícil que se misturem as coisas. 

Neste ano, porém, ouvi alguns profissionais do setor demonstrarem um certo descontentamento acima do normal com o resultado. Comprei a revista para saber o porquê da grita. Li e continuei sem entender. 

Parece faltar expressividade. Sim. Mas sobre isso venho falando há quase dois anos. E há quase dois anos ouço pessoas inconformadas com a minha afirmação de que se come cada vez pior em São Paulo. Sim, sim e sim, é claro que é possível comer bem aqui e ali. No geral, estamos mal. São poucas as novidades valiosas. São muitas as dispensáveis. 

Não vou julgar a lista. Penso que alguns profissionais começam a perceber que estamos vivendo um momento letárgico. Tudo em banho-maria. Ou, até pior, muita coisa requentada. 

No número 500 de CartaCapital conversei com Alex Atala (que não levou nada este ano) e ele me fez reparar que em São Paulo os grandes destaques são os restaurantes japoneses. De fato, o chef do ano, eleito pela Veja, é Tsuyoshi Murakami, do restaurante Kinoshita. 

Promessas brasileirinhas continuam sem vingar com solidez. Sendo justo, darem ao Tordesilhas o prêmio de melhor brasileiro me fez feliz. Sempre foi o melhor, mas volta e meia aparecia uma bobagem, uma mentira travestida de modernidade que deslumbrava bocas de cabra. Também foi monótona a aparição dessas besteirinhas. Até isso. 

Algum motivo para que tudo esteja assim malparado? Mas seria no Brasil ou também no mundo? Confesso que pouco andei pelo mundo neste ano. Lendo aqui e acolá, nada vi de excepcional frescor surgir. A tal bistronomia que a mídia grandona descobriu este ano já não é novidade para o leitor de CartaCapital. Falei dela há mais de um ano. Ainda assim é algo que está acontecendo. 

Também a gastronomia consciente, comer de maneira sustentável (acabo de ter um acesso de riso), está começando a ter cheiro de tendência. 

Eu não tenho as certezas que muitos por aí exibem com grande desenvoltura. Arrisco palpites, portanto. 

Um deles: a ressaca da cozinha molecular. A vanguarda cristalizou-se. O frisson acabou. A conversa sobre o assunto perdeu a alegria e o status de outrora. Falo em ressaca porque muitos embarcaram nessa onda e levaram um caldo espetacular. Outros não chegaram a se definir: serei sapo ou perereca? Um pouquinho de espuma com uma perna de cabrito e parecia que o melhor dos mundos acontecera. Não deu 100% certo.
 
Eu ainda acredito que a tal cozinha de desconstrução terá seu lugar garantido no Epcot, na Disney. Não brinco, não. Falo sério. Assim como é certo que surpresas virão por aí. 

A gastronomia quase sempre esteve acompanhando o andar da carruagem do mundo. Aqui em nosso país, eu tenho percebido que o triunfo das nulidades tem marcado fortemente o nosso ano. Pouco se produz e o pouco que se produz tem qualidade mediana. Sendo franco, nunca vi tanta porcaria sendo produzida em todas as áreas e nunca vi a mídia dando tanto espaço para essas porcarias. 

Resultado, você sai para comer fora, deixa uma fortuna, é mal atendido e come uma comidinha bem sem-vergonha ou, em um bom dia, uma comida correta que dificilmente valeu o que se cobrou. 

Será que faz sentido essa relação assim, direta, da mediocridade cultural com a gastronômica? Arrisco um SIM. Até porque, repetindo-me, as pessoas não estão reclamando. Logo, devem estar gostando do que aí está. E do que aí está pouco se aproveita.

Marcio Alemão

Refogado

 comentários

Comente:

(campo obrigatório) (campo obrigatório) (O e-mail não será publicado)
O que você acha dos debates eleitorais nas redes de rádio, televisão e internet?
  • São muito importantes, ajudam na definição do voto
    43%
  • Têm uma importância relativa, pois poucos assistem
    33%
  • Não têm importância, não é por causa deles que as pessoas definem seus votos
    23%

tamanho da letra: A- | A+

Colunistas

Encontre a matéria por colunista