O camburão é imparcial
11/07/2008 15:41:13
Mauricio Dias
Num país onde os cidadãos não são iguais perante a lei, as cenas vistas nos últimos dias são mesmo as de alguma coisa parecida com uma revolução no Brasil. As leis, à espera de mudanças, ainda garantem privilégios. Um exemplo está no Código de Processo Penal Militar que autoriza algemas em praças e proíbe algemar oficiais.
A Polícia Federal, no entanto, já não faz mais distinção entre ricos e pobres. O camburão da PF iguala os desiguais. Acusado de vários crimes, o banqueiro Daniel Dantas, preso, saiu de casa algemado, foi enfiado em um camburão e, posteriormente, trancafiado. Não houve violência. Tudo aconteceu dentro do universo da lei e da ordem.
A foto do banqueiro algemado provocou reações. Assim também aconteceu quando o algemado foi o então senador Jader Barbalho. Nessas ocasiões o céu quase desaba. Protesta-se contra as fotos, as filmagens e, principalmente, contra o emprego de algemas.
Nunca antes a questão tinha merecido tanta atenção. Essas pulseiras que envergonham os usuários de “colarinho-branco” (deveriam, antes, ter vergonha dos crimes que cometem) nunca mereceram a menor atenção quando eram exclusivas dos acusados de “colarinho puído”.
A algema agora é associada ao emprego de força desnecessária. Elas costumam deixar marcas fortes nos pulsos. Lamentável, mas não existem algemas de pelica.
Dantas reclamou das “acomodações” na Polícia Federal. Talvez ele não tenha ouvido falar das agruras vividas por José Reinaldo, ex-governador do Maranhão. No ano passado, depois de 72 horas numa cela, ele deu um depoimento capaz de horrorizar os novos candidatos que fazem curso de acesso às prisões brasileiras. José Reinaldo é engenheiro. Eis aí mais um privilégio: por ter curso superior foi para uma prisão da PF, em Brasília. Ele conta o que passou numa cela ocupada por seis presos onde cabiam dois.
“Quem ia para a latrina ficava apertando a descarga o tempo todo para o cheiro não contaminar a cela. A filosofia da cadeia é de humilhação.”
Basta isso. Polícia, camburão, algemas, cadeia. Os ricos e poderosos nunca, antes, tinham transitado por este cenário que se descortina para eles há mais ou menos 20 anos. O fim desses privilégios perante a lei faz a infelicidade de alguns, mas resulta sempre em maior harmonia social. Nesse sentido, Patativa, o Brasil de cima desceu.
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Generais enquadrados
Finalmente o governo passou a tomar medidas contra a indisciplina dos generais. As punições ocorreram após o episódio do general Augusto Heleno, comandante militar do Amazonas. Em solenidade do Clube Militar, no Rio de Janeiro, Heleno criticou ações do governo. Ele saiu incólume do episódio. Em caráter reservado, no entanto, esteve com o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Desculpou-se e prometeu fechar a boca.
No rastro disso surgiu outro protagonista fardado, o general Eliéser Girão Monteiro Filho, comandante da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, em Boa Vista (RR). No começo de maio, ele recebeu manifestantes no quartel, liderados pelo deputado Márcio Junqueira (DEM), que criticou as ações da Polícia Federal na reserva Raposa Serra do Sol.
“Cobrem respeito à propriedade de vocês”, incentivou o oficial.
Anteriormente, o general Jeannot Jansen, comandante da 8ª Região Militar, também no Amazonas, referiu-se publicamente à “Cesta Básica” como demagógica e produtora de “vagabundos”. Jansen apodreceu com a patente de general-de-divisão. Nas últimas promoções, foi preterido.
Com o general Monteiro não teve conversa. O oficial foi transferido para a Diretoria de Transportes e Mobilização, um posto burocrático. É candidato à preterição.
No Brasil há 11 generais de Exército, o último posto da carreira. Os EUA, enfiados em duas guerras (Iraque e Afeganistão) têm 11. À falta de combates, os generais brasileiros se exercitam com a incursão ilegal pelas declarações políticas.
Mas os generais não são pagos para falar. Nem a favor nem contra.
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Andante Mosso
Satiagraha (1)
Epígrafe profética do relatório da CPMI dos Correios:
“Nada há de encoberto que não venha a ser revelado, e nada há de escondido que não venha a ser conhecido”. Mateus, 10:26.
Satiagraha (2)
Guia para cegos, desmemoriados e curiosos.
As traquinagens do banqueiro Daniel Dantas com o publicitário Marcos Valério podem ser conferidas no relatório final da CPMI dos Correios: HTTP://www.cpmidoscorreios.org.br/
Não há nada no volume I. No volume II, as referências vão da página 513 à página 654. No volume III podem ser lidas da página 1.174 à página 1.405.
Satiagraha (3)
A editora Millenium está surfando na maré que tragou Daniel Dantas.
Retomou a divulgação do livro do juiz Fausto Martin de Sanctis, que pediu a prisão do banqueiro por duas vezes.
O marketing do livro Lavagem do Dinheiro: um novo mundo criminal destaca a atuação do magistrado no caso Dantas.
Vale tudo no mercado.
Satiagraha (4)
Cesar Maia também surfa no episódio. Ele escreveu no seu ex-blog:
“Um deputado, representante do PSDB, que atuava na CPI dos Correios, mantinha ligações antigas com o senhor Mussnick, do escritório Barbosa, Mussnick e Aragão. É colega e amigo de juventude do senhor Luiz Antonio Sampaio Campos, ex-sócio daquele escritório e ex-diretor da CVM, entre janeiro de 2001 e novembro de 2004. Mussnick é cunhado do senhor Dantas. O escritório dele é o mais importante escritório de advocacia de assuntos societários do Opportunity. O senhor Dantas, neste período, não perdeu um só caso na CVM”.
A história é cabeluda. A Maia, no entanto, só interessa alvejar o deputado tucano. Havia muitos deles na CPI. Mas só o deputado Eduardo Paes preocupa o burgomestre carioca.
Ele disputa a sucessão de Maia à prefeitura do Rio.
O anti-Crivella
Embora tenha entrado na mira das denúncias no caso do Morro da Providência, o senador Marcelo Crivella, candidato à prefeitura do Rio, não perdeu votos. É o que garante Carlos Augusto Montenegro, do Ibope.
“O episódio só consolidou o preconceito contra ele.”
Montenegro arrisca uma previsão a três meses da eleição:
“Jandira Feghali, Eduardo Paes e Solange Amaral são candidatos a disputar o 2º turno com Crivella”.
Qualquer um dos três entraria no páreo final como favorito.
Sinuca de bico
O Exército promete ajuda religiosa, médica, além de assistência judicial aos militares envolvidos no crime do Morro da Providência, no Rio.
Para o último caso, solicitou advogados da Defensoria Pública. Por quê?
A Lei Complementar 117 determina que os militares envolvidos com problemas judiciais, em caso de operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sejam atendidos pela Advocacia-Geral da União.
Em nome de que a tropa subiu o morro? Em nome da Lei e da Ordem. Agiam ilegalmente. Salvo se mostrarem o decreto com a autorização do presidente Lula.
O decreto não existe.
Gabeira tropeça
Fernando Gabeira tropeçou no preconceito no primeiro dia de campanha para a prefeitura do Rio, ao falar do apoio do deputado estadual Zito, ex-prefeito de Caxias e presidente do PSDB estadual.
“Se você aceita votos por critério moral, fica só com os puros e não vence eleição.”
Zito não é de esquerda nem de direita. É pragmático como Gabeira hoje. Político popular, de influência entre os eleitores pobres da Baixada Fluminense, ele reagiu com elegância à insinuação do aliado.
“Não vou polemizar. O que Gabeira disse certamente não se refere a mim.”
Bola nas costas
Virou terra de ninguém o setor meio ambiente, após a saída da ministra Marina Silva.
O ministro Mangabeira Unger, da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, foi à Noruega falar sobre o Fundo da Amazônia.
Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente, ficou no Brasil a ver navios.
Mauricio Dias
Rosa-dos-Ventos