Fernanda Takai se veste de Nara Leão
Fernanda fez algo parecido com o que Nara sempre fez. Retrabalhou de modo autoral um repertório que tornou Nara Leão co-autora de tudo que decidiu cantar
Em junho passado, durante o São Paulo Fashion Week, um desfile de Ronaldo Fraga causou surpresa não só por causa de moda, mas também de música. A valente cantora Nara Leão (1942-1989) foi evocada como inspiração para as estampas, mas também na trilha sonora do desfile, um apanhado de canções recolhidas do peculiar repertório de Nara, que saíam não de um toca-discos, mas da reinterpretação ao vivo por uma cantora de voz suave que em tudo fazia lembrar Nara Leão.
Era Fernanda Takai. Co-líder do grupo pop-rock mineiro Pato Fu, ela assim invadia um território que nunca antes habitara em público. Sob arranjos do parceiro de banda (e marido) John Ulhoa, Fernanda fez com Nara algo parecido com o que Nara sempre fez com a música brasileira. Retrabalhou de modo livre, pessoal e autoral um repertório que, entre os anos 60 aos 80, tornou Nara Leão co-autora de tudo que decidiu cantar, num extenso arco de possibilidades.
Nara começou com a bossa nova, mas com desprendimento e generosidade se apoderou sucessivamente de samba de morro, canção de protesto, tropicália, cantigas regionais e de ninar, o romantismo de Roberto e Erasmo Carlos, a nova música nordestina dos anos 70, o pop dos 80, standards norte-americanos vertidos ao português.
A seleção de Fernanda Takai atravessou a maioria desses campos, e não se limita àquele desfile. O encontro com Nara resultará no primeiro disco solo da cantora e compositora do Pato Fu, ainda inédito. É sobre ele, e sobre a musa inspiradora Nara Leão, que Fernanda fala na entrevista a seguir, feita por e-mail, pergunta por pergunta, ao longo de algumas semanas.
CartaCapital: O que Fernanda Takai, do Pato Fu, tem a ver com Nara Leão?
Fernanda Takai: Eu diria que a voz tranqüila, uma aparente fragilidade, o gosto por cuidar da família e a diversidade musical.
CC: Mas sempre esteve presente em você essa sintonia com Nara, ou ela foi se desenvolvendo? A roqueira que em 1993 cantava uma versão meio heavy metal da música-tema do Sítio do Picapau Amarelo já sabia de Nara Leão?
FT: A minha música de ninar era Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, que cantavam para mim, primeiro na versão de Roberto Carlos. Sou de 1971 (ano em que Roberto Carlos lançou a canção, regravada por Nara Leão em 1978). Quando tinha uns sete ou oito anos, eu tinha meu próprio gravadorzinho e ouvia sem parar a fitinha K7 da Nara. Sabe aquela estampa do desfile do Ronaldo Fraga? É a foto da fita K7 do meu pai, que ficou para mim. Bem, vou te falar um segredo, eu devo ser a menos roqueira do Pato Fu. Gosto é de música pop, canções calminhas. Por isso as versões que fizemos para o disco dedicado à Nara são todas mais delicadas. Sambas viraram baladas à la Carpenters, bossa nova de raiz virou soul de branco, mas tudo assim bem suave.
CC: Você lembra que músicas havia naquela fita K7?
FT: Ronaldo Fraga queria fotografar a capa do ...E Que Tudo Mais Vá pro Inferno (o disco de 1978 de Nara, todo de reinterpretações de canções de Roberto e Erasmo Carlos), mas eu disse que tinha só a fita K7. Não achei a capa e mandei só a fita, que tem um verde lindo, escrito Philips, bem “vintage”. Ele ficou apaixonado e fez a estampa. Era essa fita que eu ouvia, o disco de Roberto e Erasmo que ela fez. Depois, meu pai comprou o disco Com Açúcar, com Afeto (de 1980, só com músicas de Chico Buarque), e lá ia eu ouvindo de novo.
CC: Você diria que aquela fita influenciou, mesmo inconscientemente, seu jeito de cantar?
FT: Não sei dizer, eu também ouvia muito Clara Nunes e não canto como ela. Conscientemente, diria que minha musa maior é Suzanne Vega. Mas sempre que ouço Nara me dá um aconchego, uma familiaridade, uma saudade dos tempos de criança e do meu pai, que morreu há dez anos...
CC: Esses circuitos de influências são legais, né? Por exemplo, quem garante que Suzanne Vega não foi influenciada por Astrud Gilberto, que por sua vez tinha algo em comum com Nara não só em relação à voz, mas também por ser brasileira, ligada à bossa nova, a João Gilberto, e assim por diante?
FT: Sim! Suzanne Vega adora Astrud Gilberto. Ouviu muita bossa nova quando era adolescente. As influências dão a volta ao mundo e são meio que uma máquina do tempo, não é?
CC: Sobre você ser a “menos roqueira” do Pato Fu, como os colegas de banda estão reagindo ao projeto solo?
FT: Mas ouvi muito rock inglês também, só que não era bem rock, e sim pop. Duran Duran, Everything But the Girl, Eurythmics, The Cure. Ah, é pop-rock, né?
Sobre o disco solo, acho que eles esperavam por isso em alguma época. Aliás, todos têm outros projetos musicais, só eu não tinha. Para ser bem sincera, sempre achei cruel quando um vocalista resolve fazer um trabalho sozinho e deixa a banda assim, num coma. Mas são 15 anos de Pato Fu já! Conversei muito com Nelson Motta (o idealizador do projeto solo) sobre isso e cheguei à conclusão de que eu estava com vontade demais para não fazer. Começamos sem compromisso, sem planejamento, em dezembro de 2006. Tudo foi evoluindo para um disco que está ficando muito bonito. A gente dizia que era como se fôssemos fazer um CD para dar de presente aos amigos no fim do ano.
CC: Como se deu o envolvimento do John?
FT: Acho que não conseguiria fazer esse disco sem o John. Além de eu achar que ele tem sensibilidade e talento para me ajudar a criar essas novas versões, estamos em casa. Nosso estúdio está à mão, não precisei mudar muito minha rotina, porque fizemos ao mesmo tempo o nono disco do Pato Fu (o recém-lançado Daqui pro Futuro). Continuei normalmente com as minhas tarefas de mãe, dona de casa, colunista de jornal (escrevo para O Estado de Minas e Correio Braziliense). Do CD solo participam John, Lulu Camargo (também do Pato Fu) e eu, apenas. Numa faixa tem uma guitarrinha muito simpática de Roberto Menescal, que, aliás, foi muito generoso com a gente. Ele está dando uma grande força para o disco, e acho isso muito bacana, por ele ter sido um dos melhores amigos da Nara durante toda a vida dela.
CC: Quais foram exatamente os papéis de Nelson Motta e Roberto Menescal?
FT: Tudo começou com um e-mail do Nelson, “pombo-correiado” por Patrícia Tavares (empresária dos artistas mineiros Érika Machado e Vander Lee), dizendo que sempre lhe vinha à cabeça o sonho de um disco que não existia: Fernanda Takai Canta Nara Leão. Ele sempre teve muita simpatia por mim, embora a gente não tivesse se encontrado pessoalmente. Eu disse que gostava muito de Nara, tinha uma afeição antiga por ela. Fui ao Rio conhecê-lo e desde aquele encontro resolvemos começar a brincar de fazer disco. Tudo pela internet. Nelson me mandou uma pré-seleção dele, eu mandei minhas considerações de volta.
Fui atrás da discografia toda, quem me emprestou os discos que eu não tinha foi Bob Tostes, amigo do Menescal, cantor e produtor de rádio daqui de Belo Horizonte. Um dia fui ver um show dele e do Menescal num teatro da cidade, e Menescal depois me mandou um e-mail comentando que sempre achou que havia em mim algo em comum com Nara, pela voz, pelo jeito. Aí tive que contar pra ele que estava fazendo o disco. Me disse que se eu precisasse dele pra qualquer coisa (contar histórias, dúvidas musicais, se quisesse uma guitarra aqui ou ali) era só chamar, pois ele tinha ficado muito feliz com a notícia. Então o convidei e ele veio para cá. Passamos um domingo juntos, Nelson veio também. Foi emocionante a gente ouvir junto o que estava pronto.
CC: Pelo que você contou, posso entender que o disco para Nara também é para você um disco de saudade do seu pai?
FT: Fica sendo um pouco. Ele ficaria muito feliz ao ouvir. Meu pai era filho de japoneses, não tocava um instrumento sequer, era muito reservado, mas tinha um bom gosto musical incrível. Quando a gente perde alguém tão querido, fica sempre com vontade de compartilhar as coisas que vão acontecendo. Meu pai não conheceu minha filha. Não viu meus melhores anos, profissionalmente falando. Minha mãe é outra pessoa que ficou contente com a idéia do disco. Ouviu as músicas que gravei e cantou quase todas sem errar. É um disco de saudade, sim, mas é um disco para ouvir feliz. Tem uma tristeza contida que se transforma em algo bom. Sem contar que é um pouco da história da nossa música. Nara gravou tanta coisa... Mas tinha bom gosto e elegância, seguia sempre seus instintos quanto ao repertório que escolhia.
CC: O que você e o John quiseram fazer com as interpretações e os arranjos, em relação às versões originais? No desfile, as versões de vocês me pareceram mesmo querer pender mais para a alegria que para a tristeza, embora sem tentar evitar ou negar a tristeza inerente...
FT: Do meu lado posso dizer que a gente quis não fazer o convencional. A maioria das músicas teve muitas regravações ao longo dos anos. Se era um samba, a gente, inclusive por falta de habilidade nessa praia, já dizia que não dava para ser samba. E iam surgindo leituras bem diferentes. John e Lulu trabalharam muito bem juntos. Eu dava meus palpites em uma ou outra, quando tinha uma idéia mais clara. Quanto à minha interpretação, tentei cantar do meu jeito mais natural, do jeito que canto quando toco violão sozinha. Geralmente sou bem econômica no cantar. Adaptamos algumas coisinhas aqui e ali para que ficasse mais confortável para minha voz. Mudamos uma ou outra melodia, nada brusco. Fiquei feliz porque mandei o disco para Isabel Diegues (filha de Nara com o cineasta Cacá Diegues) ouvir, e parece que ela gostou, se emocionou e sentiu que as músicas escolhidas são especiais, contam histórias, trazem lembranças. Percebeu que é o universo rico de Nara numa outra apresentação, que preserva a personalidade dela e a minha.
(A essa altura, sugiro um depoimento de John sobre os arranjos. Como ambos dividem o mesmo e-mail, ele aparece e fala de sua participação.)
John Ulhoa: A idéia básica foi nos distanciar dos arranjos originais. Pensamos assim porque a maioria das canções já foi muito regravada. Achamos que se fizéssemos versões bossa-samba seria como chover no molhado. Ao mesmo tempo não tínhamos a menor intenção de soar desrespeitosos, então trabalhamos bastante para que tudo soasse à altura do repertório. Também fugimos desse “electro-drum’n’bossa” que está meio na moda. Iria soar oportunista, principalmente na voz de uma cantora de carreira já estabelecida, como Fernanda. Não sei bem avaliar esse termômetro alegria/tristeza, mas sinto que alguns dos arranjos entortaram o teor emocional de certas canções de um jeito difícil de explicar. Um bom exemplo é Diz Que Fui por Aí (do sambista Zé Keti, gravada por Nara em 1964), que sempre me soou como um samba descontraído, e na nossa versão ganhou uma seriedade, e ao mesmo tempo passou a funcionar para um discípulo do pop como eu. Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos ficou aquela alegria máxima. Gostei disso, foi como se a mensagem de esperança meio entristecida da letra já tivesse sido confirmada pelo tempo, e agora é só festa.)
CC: Como foi o processo de seleção das canções? Quais são, e como você as elegeu?
FT: Nelson mandou uma lista de umas 20 músicas pra eu ouvir e dizer com quais me identificava ou tinha alguma memória afetiva. Selecionei Seja o Meu Céu, Lindonéia, Luz Negra, Descansa Coração, Diz Que Fui por Aí, Odeon, Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Começamos a pensar no universo de canções que Nara havia interpretado para preencher as lacunas faltantes. Sugeri algumas coisas, como Trevo de Quatro Folhas, que era uma das preferidas do Ronaldo para o desfile, Canta Maria, Estrada do Sol, Insensatez. Fomos pelo depoimento dela no DVD do programa Ensaio, que Nelson me deu de presente. Ta-Hi entrou mais por conta do desfile e acabou ficando como vinheta para lembrar que Nara foi uma das primeiras a regravar Carmen Miranda. Isabel ajudou no voto a Com Açúcar, com Afeto.
CC: Que música é mesmo Descansa Coração? Lembro de ter ouvido no dia do desfile uma que não sei direito se conhecia, é essa? De onde veio?
FT: Descansa Coração é uma versão de My Foolish Heart, que foi gravada por Astrud Gilberto, Tony Bennett e muita gente mais. My Foolish Heart foi o último disco que Nara gravou, já bastante doente, por encomenda da PolyGram japonesa. Nelson e Menescal trabalharam naquele disco, e disseram que a canção parecia ser um recado de que o tempo estava se esgotando. Todos os fãs de Nara que a escutam se emocionam, porque se lembram disso.
CC: Ou seja, o repertório abrange realmente toda a trajetória da Nara, até o final precoce. Como você se aproximou dessa parte mais sofrida?
FT: Quando ela esteve mais doente, acho que pelo próprio jeito reservado, o público não acompanhou tanto. Depois que li a biografia escrita por Sérgio Cabral, quando foi lançada, é que pude saber um pouco mais sobre essa fase. Este ano, soube mais por Nelson e Menescal sobre os anos em que ela esteve doente e ainda produzindo. Trabalhando é que a gente se aproxima muito da pessoa, acompanha pelos relatos parte de sua vida cotidiana e de sua humanidade mesmo.
CC: Como o disco vai se chamar? Por que gravadora vai sair, e quando?
FT: Ainda não tenho o nome. Estou envolvida com o nono CD do Pato Fu, o disco dedicado a Nara é para outubro. Ainda temos um tempinho. Temos algumas idéias sobre como distribuí-lo, não queremos de jeito nenhum fazer qualquer tipo de leilão com um álbum tão especial. Nelson, Patrícia e até Menescal se dispuseram a ajudar nos momentos finais sobre como seria mais bacana lançá-lo. O mercado mudou muito, não é? Isso tudo a gente tem que levar em conta... Mas a música ainda é mais importante.
REC6
eu curti