Ultraconservadores atacam religiosos e boicotam Campanha da Fraternidade

Campanha deste ano condena o negacionismo e a violência contra minorias. Para pastora atacada, as agressões são parte da agenda bolsonarista

Campanha da Fraternidade 2021 critica violência contra minorias e sofre ataques. Foto: Divulgação/ CNBB

Campanha da Fraternidade 2021 critica violência contra minorias e sofre ataques. Foto: Divulgação/ CNBB

Sociedade

Promovida pela Igreja Católica e de outras entidades cristãs desde os anos 60, a Campanha da Fraternidade chega a 2021 sob a ira da ala ultraconservadora. O motivo? O tema da edição, cujo lançamento está previsto para esta quarta-feira 17.

O texto-base da campanha deste ano condena a violência contra mulheres, negros, indígenas e LGBTs. Também desaprova o negacionismo em relação ao coronavírus, com direito a críticas à atuação do governo federal e à postura das igrejas em relação ao distanciamento social.

 

 

A campanha da fraternidade é tradicionalmente realizada pela Igreja Católica em parceria com instituições cristãs desde a década de 1960. O texto-base é escrito por membros do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e passa pelo aval da direção-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, a tradicional iniciativa pede doações de fiéis para financiar projetos sociais apoiados pela Igreja Católica. Na edição deste ano, contudo, ultraconservadores tentam boicotar as doações e protagonizam ataques aos envolvidos na campanha.

 

Ataques de conservadores

 

Antes mesmo da campanha ser lançada, grupos de conservadores já iniciaram uma ação na internet pedindo para que as pessoas não doem.

Os ataques nas redes são ferozes e acusam líderes religiosos de terem aderido a “pautas abortistas e anticristãs”. Um dos nomes que tem encabeçado a campanha é o guru do governo de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

 

Manifestação contra a Campanha da Fraternidade 2021 feita por Olavo de Carvalho. Foto: Reprodução/Facebook

 

A principal crítica dos ataques é a parte do documento que cita violência contra LGBTs. Ele traz dados do Atlas da Violência e da ONG Grupo Gay da Bahia para denunciar que 420 pessoas desse grupo foram assassinadas em 2018.

“Esses homicídios são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+ e de outros grupos perseguidos e vulneráveis”, enfatiza o documento.

“Jesus questionou essas estruturas de poder e desigualdade. As pessoas não poderiam ser descartadas e sofrer as consequências para a manutenção de um poder segregador”

O tema foi definido “sobretudo pelo que ocorreu no Brasil depois do surgimento do governo Bolsonaro, quando a sociedade ficou muito dividida”, afirmou o padre Antonio Carlos Frizzo, um dos organizadores da campanha.

Ataques misóginos a pastora

 

A pastora luterana Romi Bencke, secretária-executiva do Conic, é um dos principais alvos dos ataques. Em entrevista à CartaCapital, a religiosa afirma que muitos deles acontecem porque a entidade assinou um pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro.

“Toda a peça do impeachment está centrada na anti-política do atual governo em relação à contenção da propagação da pandemia. Os temas que estão no foco de ataque destes grupos que criticam a Campanha fazem parte da agenda bolsonarista”, afirma Romi.

A pastora afirma que Bolsonaro utiliza a religião para propagar seu discurso de ódio.

“Sabemos que estes temas são parte da agenda da cultura política bolsonarista que utiliza de maneira muito eficiente o discurso religioso para ganhar apoio político e desmoralizar as críticas da sociedade civil e até mesmo de lideranças religiosos”, diz.

 

CNBB relembra valores cristãos 

 

Após ataques de católicos, a CNBB divulgou na última terça-feira 9 uma nota explicando ponto por ponto da campanha. O texto começa esclarecendo que a igreja se mantém contra ao que chamam de “ideologia de gênero”.

“A doutrina católica sobre as questões de gênero afirma que ‘gênero é a dimensão transcendente da sexualidade humana, compatível com todos os níveis da pessoa humana, entre os quais o corpo, a mente, o espírito, a alma. O gênero é, portanto, maleável sujeito a influências internas e externas à pessoa humana, mas deve obedecer a ordem natural já predisposta pelo corpo”

Em seguida, o texto lembra que ajudar o próximo é o principal objetivo de uma comunidade cristã, sem excluir ninguém. “O ecumenismo não é apenas uma questão interna das comunidades cristãs, mas diz respeito ao amor que Deus, em Cristo Jesus, destina ao conjunto da humanidade”.

A cerimônia de lançamento da campanha acontece nesta quarta-feira 17, no Facebook da CNBB.

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Repórter do site de CartaCapital

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