Pais se reúnem em grupo para discutir machismo estrutural

'A maternidade ainda é compulsória para mulheres e opcional para muitos homens', diz Leandro Gonçalves

Integrantes do coletivo Balaio de Pais. Créditos: Divulgação

Integrantes do coletivo Balaio de Pais. Créditos: Divulgação

Sociedade

A paternidade chegou à vida de Leandro Almeida Gonçalves há sete anos. Ele estava prestes a completar 32 quando nasceu a sua primeira filha Alice. Três anos depois, Teresa chegou à família. Mas o despertar para a vida de pai começou antes, ele garante. “Comecei a participar de grupos de mães junto com a minha companheira, e a conhecer mais sobre assuntos como parto, puerpério, amamentação, e também a acompanhá-la em encontros que essas redes promoviam”, conta.

Nesses momentos, encontrava outros homens acompanhando as mulheres. “E embora isso seja importante, percebi que nós também temos nossas questões, passamos por mudanças. Mas, ao contrário das mulheres que já são mais articuladas em redes de apoio, nós ainda não tínhamos um espaço dedicado para trocas, escutas e acolhimento”.

Foi então que resolveu criar um espaço de aproximação para os futuros pais. O Paternando foi a primeira iniciativa nesse sentido. O grupo de Facebook surgiu como um espaço “de apoio à paternidade ativa”, para que os pais pudessem compartilhar entre si “informações, experiências, dificuldades, dúvidas, alegrias e vitórias”. Hoje, o espaço tem 2.133 membros.

Com o crescimento das interações e a ideia de estreitar ainda mais os vínculos, Leandro experimentou levar o Paternando para o whatsapp. Não só deu certo que, hoje, o Paternando – com mais de 200 pessoas – tem sete subgrupos dedicados a outros temas de interesse dos homens.

“O Paterbol, para falar de futebol; o Paterpolitiks, para discussões políticas; o Paternerds para filmes, séries, jogos e nerdices no geral; o Pintaya dedicado a relacionamentos e sexualidade (não é permitido enviar pornografia); o Paterchef para troca de receitas; o Paterbooks como um clube de leitura; e o Patermusic para músicas”, enumera Gonçalves.

O movimento virtual consolidou o grupo como um coletivo, chamado Balaio de Pais, que promove rodas de conversas e também deu origem a um podcast que já tem mais de 40 episódios, com temas que o próprio grupo define e leva para discussão. Já estão disponíveis debates sobre “Paternidades negras”, “Como criar filhos antirracistas?”, “Alimentação”, “Carga Mental”, “Autoridade e respeito”, entre outros. Os programas de podcast estão disponíveis via Spotfy e iTunes.

As iniciativas se propõem a romper com os paradigmas que ainda rondam o papel dos homens enquanto pais, como explica Gonçalves. “Ainda lidamos com a ideia de paternidade que coloca o pai no lugar de provedor do alimento, do dinheiro, da proteção, mas distante dos cuidados diários com as crianças, da responsabilidade de partilhar as tarefas, o que acaba por sobrecarregar as mães, e até de expressar amor e carinho”, observa.

O mote do grupo, conta, é discutir “novas paternidades”. “Assim, no plural, pelo entendimento de que não há uma única maneira de ser pai. Não estamos aqui para determinar o que é certo ou errado. Temos mil realidades distintas. Aliás, somos um grupo, no geral, de classe média, de homens brancos. Então, a gente precisa entender que o ser pai pode se dar de muitas maneiras. Não dá pra imaginar que todo pai vai ter o mesmo tempo de dedicação aos filhos, ou chegar em casa e fazer com ele um brinquedo de madeira, entende? A questão é trazer a discussão para o campo da responsabilidade, e também ampliar as referências de paternidade que trazemos, cada um em sua história, refletindo sobre elas”, explica.

Para Leandro, pautar a paternidade é também discutir o machismo estrutural que sempre determinou socialmente o papel das mulheres e dos homens no cuidado com as crianças.

“Meu pai foi presente, mas a lembrança que tenho dele durante a minha infância é mais no campo da autoridade, da solidariedade. Já as imagens que tenho de colo, cuidado, amparo, são sempre da minha mãe”, relembra.

Para ele, romper essa lógica é também contribuir com o desenvolvimento e a emancipação de suas duas filhas. “A minha companheira sempre me alertou para a necessidade de discutir o machismo, mas isso ficou mais evidente quando tive as duas. Fico me perguntando em que mundo elas viverão. Há uma preocupação diária para que elas tenham autonomia, saibam se defender, possam ser quem elas quiserem. E nem acho que precisamos ser pais, de fato, para se preocupar com essas questões”, explica.

Leandro Gonçalves com as filhas, Alice e Teresa.

O criador do coletivo entende que, embora a sociedade ainda tenha um caminho a trilhar no sentido de ampliar a paternidade, a questão também passa pelos homens reivindicarem seus espaços de protagonismo. “Ainda esbarramos com questões como falta de estrutura para pais que saem sozinhos com seus filhos, caso de trocadores, por exemplo, e até a licença paternidade de cinco dias, o que eu acho ridículo. Mas também temos que nos questionar quantos homens, de fato, se responsabilizam por isso? Acho que é uma questão de demandar mais por essa participação, entende? Precisamos parar de repetir que mulheres nasceram para ser mães, porque isso não só determina o lugar de cuidado delas com as crianças, como invisibiliza esse papel tão desgastante. Hoje ainda lidamos com a maternidade compulsória para as mulheres e opcional para muitos homens”, critica.

Leandro também condena o conservadorismo da sociedade, que tenta impedir que a paternidade se amplie e dialogue com a diversidade, se referindo às críticas direcionadas ao ator e empresário Thammy Miranda, anunciado pela Natura como garoto propaganda do Dia dos Pais, comemorado neste domingo 9. Miranda, um homem trans, e sua esposa, Andressa, tiveram recentemente um filho, Bento.

“Isso só mostra que ainda estamos fechados em rótulos. Thammy é um homem e tem um filho. O seu direito está dado. E pai é quem assume esse cuidado com a criança. Precisamos discutir a paternidade entre transexuais, homossexuais, entre pais socioafetivos, sair desse lugar de preconceito”, alerta.

“A gente tem uma sociedade muito doente e grande parte disso vem dessa masculinidade problemática adquirida. A paternidade é um bom lugar para rever isso, porque ela te coloca diariamente frente a frente com as suas próprias questões”. Leandro fala sobre a importância de discutir equidade de gênero. “Para que nos permitam viver outra masculinidade. E também às mulheres outra feminilidade”.

Os grupos seguem abertos à participação de pais. O Paternando pode ser acessado pelo Facebook, e o Balaio de Pais pelo Instagram.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Repórter do site CartaEducação

Compartilhar postagem