Os alertas deixados pelo suicídio de Lucas, um adolescente vítima do ódio e da LGBTfobia no TikTok

A morte do garoto de 16 anos reforça a necessidade de combater discursos de ódio e violência nas redes

A cantora Walkyria Santos e o filho Lucas, vítima de suicidio aos 16 anos (Reprodução/Instagram)

A cantora Walkyria Santos e o filho Lucas, vítima de suicidio aos 16 anos (Reprodução/Instagram)

Diversidade,Sociedade

Lucas Santos tinha apenas 16 anos quando se suicidou. Filho da cantora de forró Walkyria Santos, o  jovem teria atentado contra a própria vida após publicar um vídeo no TikTok, em que aparece em uma brincadeira afetiva com um amigo. A família atribui o ato a uma enxurrada de comentários motivados por homofobia.

No vídeo em questão, o adolescente aparece ao lado de um amigo, e em algumas vezes que iam conversar, ambos simulavam o início de um beijo, o que nem chega a acontecer de fato.

Trata-se uma espécie de ‘tendência’ dentro da rede. Algumas das estrelas do TikTok descobriram que a sugestão homoerótica é uma maneira infalível de gerar popularidade nas redes. A maioria desses adolescentes, registre-se, se identifica como heterossexual. Abraçar um lado mais ‘suave’ da masculinidade seria um modo de rebelião e inconformismo adolescente. “Uma forma desses jovens heterossexuais mostrarem como sua geração é diferente da de seus pais, ou mesmo dos millennials“, como notou o New York Times em uma reportagem sobre o fenômeno.

No Brasil de Bolsonaro, a reação foi outra. Diante da enorme e negativa repercussão, Lucas chegou a gravar um novo vídeo na rede social se explicando e pedindo desculpas. Disse que estava apenas ‘tirando onda’ com o amigo, e reforçou que os dois eram heterrosexuais. Também mencionou o temor da reação de familiares ao saberem do caso.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, Walkyria comentou os ataques ao garoto: “Ele postou um vídeo no TikTok, uma brincadeira de adolescente com os amigos, achou que as pessoas iriam achar engraçado, mas as pessoas não acharam. Como sempre, as pessoas destilando ódio na internet, como sempre as pessoas deixando comentários maldosos.”

A cantora também fez um apelo para que as famílias fiquem alertas quanto à presença de crianças e adolescentes nas redes. “Ele já tinha mostrado sinais. [Eu] já tinha levado em psicólogo, já tinha conversado várias vezes com ele. Mas foi só isso, uns comentários na internet, nesse TikTok nojento, que fez com que ele chegasse a esse ponto.”

Walkyria agora encabeça a campanha pela aprovação de uma lei que busca criminalizar e punir quem faz comentários de ódio na internet. A lei carregará o nome de Lucas.

Para especialistas ouvidos por CartaCapital, o caso deixa alguns alertas sobre temas que devem ser discutidos no âmbito civil e também no político.

A epidemia dos suicídios

Chamam a atenção as taxas de suicídio no País, sobretudo entre os jovens, já consideradas em níveis epidêmicos pelo Ministério da Saúde.

Um boletim divulgado pelo Ministério da Saúde em 2019 mostrou um aumento expressivo das tentativas de suicídio em relação ao total de violência autoprovocada (casos de ideação suicida, automutilações e tentativas) entre os jovens de 15 a 29 anos, passando de 18,3% em 2011, para 39,9% em 2018.

No período, de um total de 340 mil casos de violência autoprovocada, 45% tiveram como vítimas jovens e adolescentes.

Os casos consumados de suicídio também cresceram. Entre 2011 a 2017, 6% dos jovens de 15 a 29 anos mortos violentamente no Brasil tirou a própria vida. A maioria eram homens entre o sexo masculino (79,0%).

Para o presidente da SaferNet Brasil Thiago Tavares o primeiro passo para enfrentar o problema é falar dele como se deve. “A primeira coisa a se fazer é quebrar o tabu de se falar sobre o assunto e abordá-lo de uma forma responsável para que não sejam ativados gatilhos para outras pessoas.”

 

 

Embora seja comum que as pessoas busquem estabelecer um nexo causal para o suicídio, reforça ele, trata-se de um fenômeno multifatorial que demanda esforços de várias naturezas. “É evidente que, no caso do Lucas, houve uma correlação de fatos entre o vídeo postado, as manifestações LGBTfóbicas e de ódio e o ato em si, mas não há um único nexo direto”.

Já na perspectiva do enfrentamento, ele fala sobre a necessidade de promover estratégias de prevenção ao suicídio com uma “abordagem multicamadas, que passa por políticas públicas, estratégias de prevenção, redes de apoio, acolhimento e atendimento, e a promoção de políticas de saúde mental, principalmente para essa faixa etária de jovens e adolescentes”.

Ainda é difícil para as plataformas interpretarem corretamente os conteúdos para considerá-los impróprios ou não

Também é importante desmistificar o debate da saúde mental. “Ainda temos casos de famílias que não acolhem declarações sobre doença mental ou sofrimento emocional, acabam deslegitimando essas falas, não apoiam, ou até levam para um fator religioso, como falta de Deus no coração. Isso tudo é um desserviço que só faz com que a pessoa vá se isolando cada vez mais e piorando.”

A SaferNet Brasil possui um canal de denúncias de crimes na web. As denúncias em relação ao crime de LGBTfobia tiveram um aumento de 78,9% no primeiro semestre de 2021 em relação ao mesmo período do ano passado.

Thiago Tavares aponta um aumento sistemático do número de denúncias envolvendo crimes de ódio como racismo, xenofobia, LGBTfobia, neonazismo, intolerância religiosa e também apologia e incitação a violência e crimes contra a vida – suicídios, linchamentos, tortura, assassinatos. “Essa tendência já vem sendo relatada há muitos anos e não acontece em uma plataforma específica, mas de uma forma difusa e diluída.”

O aumento do discurso de ódio e dos crimes virtuais

Estudiosos reconhecem um aumento dos crimes de ódio nas plataformas, sobretudo direcionado às minorias, como negros, mulheres e população LGBTQIA+, e criticam o fato de, muitas vezes, essas narrativas serem institucionalizadas, e virem de representantes como o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores como tática de atuação política.

“Isso acaba fazendo com que as pessoas se sintam cada vez mais legitimadas a adotarem esses tipos de postura”, avalia a pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ, Yasmin Curzi. “Essas pessoas e grupos estão constantemente testando as barreiras da liberdade de expressão, os limites que temos tentado traçar sobretudo em relação à proteção das minorias.”

Sobre as ofensas  direcionadas a Lucas, ela nota uma tentativa de silenciamento em nome de uma masculinidade hegemônica vigente. “Isso tem a ver com a heteronormatização dos comportamentos, ou seja, se você não faz parte de um ‘padrão’, você não deveria estar ocupando um determinado espaço, ou agindo de determinada forma no espaço público. Mulheres e pessoas LGBT não seguem os padrões da heternormatividade e por isso viram alvos fáceis de ataques.”

 

 

A responsabilidade das plataformas 

As principais plataformas de interação social como Facebook, Instagram, TikTok e Twitter mencionam em suas políticas o combate à violência e a remoção de conteúdos que promovam ameaças ou discursos de ódio com base em raça, etnia, nacionalidade, casta, orientação sexual, gênero, identidade de gênero, religião, idade, deficiência ou doença grave. Também são banidos, segundo as plataformas, incentivos a suicídios e automutilações.

Ainda assim, especialistas entendem que as plataformas precisam avançar em direção a uma moderação mais assertiva desses conteúdos. Isso passa por ter equipes dedicadas à função, promover melhorias na inteligência artificial de análise, e dar mais liberdade aos usuários diante publicações inadequadas.

Ainda é difícil para as plataformas interpretarem corretamente os conteúdos para considerá-los impróprios ou não. “O discurso de ódio muitas vezes depende do contexto, você não consegue identificá-lo só pela palavra usada. Precisa observar o contexto que aquilo está inserido. Para olhar o contexto você precisa ter tecnologias avançadas de machine learning, inteligência artificial, algoritmos extremamente sofisticados e capacidade computacional para rodar essas ferramentas em tempo recorde”, pontua Thiago Tavares. “Existe toda uma estrutura para que essa política seja aplicada na prática, e isso não custa barato. A gente está falando de bilhões de dólares.”

Dicas do que fazer em casos de ataques nas redes:

* Não revidar;
* Guardar provas (tirar prints de conversas ou mantê-las salvas);
* Denunciar o perfil do agressor à plataforma onde a violência ocorreu;
* Abrir boletim de ocorrência em delegacias especializadas em crimes cibernéticos; ou em delegacias comuns caso não tenha em sua região;
* Ajuizar ação cível (com ou sem apoio de advogado) para pedidos de indenização por danos morais, por exemplo

Yasmin Curzi lembra também que a moderação ainda geram muitos ‘falsos negativos e falsos positivos’ entre os conteúdos. “Isso faz com que, por exemplo, discursos de LGBTs e drag queens sejam mais deletados por serem considerados tóxicos, ao passo que, muitas vezes, uma ameaça velada passa despercebida.”

A especialista também aponta ainda que é preciso facilitar a forma como os usuários devem denunciar os conteúdos às plataformas. As vítimas de ataques, lembra ela, têm que denunciar os conteúdos um a um. “E a gente sabe que elas são expostas a uma enxurrada desses comentários, já que essas ações viralizam em segundos.”

Outro fator de preocupação é que as políticas de segurança não são uma realidade de todas as plataformas de interação, e muitos grupos têm migrado para esses espaços justamente por não esbarrarem em qualquer tipo de regra. “No Telegram, por exemplo, se você buscar por grupos fascistas, você acha”, pontua Yasmin Curzi. A mesma lógica impera em redes como Parler, Rumble e MeWe, direcionadas a conservadores.

Educação, família, sociedade e a cultura do like

Também é necessário que haja um esforço conjunto para que a presença de crianças e adolescentes em espaços de interação virtual seja protegida.

Para Kelli Angelini, gerente da assessoria jurídica do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br, ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil,  embora seja importante que os pais ou responsáveis acompanhem o acesso dos filhos à internet, a responsabilidade não deve recair apenas sobre eles. A internet, compara, é como uma via pública, permite a interação com qualquer pessoa ou qualquer coisa que esteja acontecendo naquele ambiente.

“É fundamental que essas crianças estejam acompanhadas, mas essa proteção tem que vir de toda a sociedade, então também cabe às plataformas adotarem medidas protetivas para essas crianças e adolescentes, bem como ao governo orientar ações e políticas nesse sentido.”

Para a professora Lola Aronovich a discussão também não se dá apartada da educação. “Precisamos cada vez mais garantir espaços nas escolas para falarmos sobre diversidade, tolerância, e tudo isso a partir da escuta dos jovens também, uma coisa mais livre em que eles possam trazer suas questões pessoais”, defende.

“Também é importante que conversemos com eles sobre essa cultura que vivemos de likes, de selfies, de tanta exposição nas plataformas. Será que vale a pena o nosso valor depender de quantos likes tem um vídeo, um tweet, ou visualizações tem um storie?’, questiona. “Estamos vivendo épocas de mais narcisismo, de uma individualidade exacerbada, em que o coletivo fica menos importante, e ele deve ser resgatado para além dessa dimensão das redes.”

 

 

O que dizem as plataformas?

CartaCapital entrou em contato com as principais plataformas de redes sociais para que indicassem algumas das ações em  curso para proteger seus usuários e também para entender o cenário dos encaminhamentos das denúncias.

O Instagram enumerou que tem investido em moderação de conteúdo para bloquear comentários considerados inapropriados, abusivos ou ofensivos, especialmente os direcionados a grupos de risco; e no aprendizado de máquina para filtrar e ocultar comentários feitos para intimidar ou chatear outra pessoa, que notifica as pessoas quando o comentário delas pode ser considerado ofensivo antes mesmo de ele ser publicado, escondendo-os. Também itou a possibilidade dos usuários desativarem os comentários em suas publicações ou personalizar essas interações.

Entre as ações, a plataforma citou o lançamento, no Brasil, do programa #DigitalSemPressão, em parceria com a SaferNet e a Jed Foundation para orientar pais e adolescentes no uso das redes sociais de forma positiva e equilibrada. Em fevereiro deste ano, o Instagram lançou um Guia de Pais, também com o apoio da SaferNet, para orientar pais e adolescentes sobre os principais controles de privacidade, interações e de tempo na plataforma.

Ainda segundo a plataforma, desde o dia 27 de julho, adolescentes com menos de 16 anos (ou com menos de 18 anos em alguns países) terão contas privadas por padrão quando se cadastrarem no Instagram.

Sobre as denúncias, anunciou que agiu em relação a 5,5 milhões de peças de conteúdo de bullying e assédio, ante 5 milhões no quarto trimestre de 2020; que encontrou e sinalizou, sem precisar de reportes, 78,60%  de conteúdios violadores; agiu em 6,3 milhões de peças de conteúdo de discurso de ódio, sendo que 93.40% foi encontrado e sinalizado por nós antes que alguém nos reportasse.

O Facebook destacou que, desde 2016, conta com uma Central de Prevenção ao Bullying no Brasil, uma plataforma que oferece ferramentas para ajudar adolescentes, pais e educadores a evitar e combater esse tipo de assédio, e que foi adaptada no Brasil em parceria com a organização não-governamental SaferNet Brasil e com o UNICEF.

Também destacou que, em  parceria com a SaferNet Brasil, promove ações para educação digital dos jovens no Brasil, como o programa Cidadão Digital. Só em 2020, o programa impactou mais de 97 mil estudantes de escolas públicas de todo o país, fortalecendo habilidades como respeito e empatia na Internet, prevenção do bullying, além da importância de gerenciar sua presença online com ferramentas de privacidade e segurança. Segundo a plataforma, este ano o programa incluiu ações de combate à desinformação sobre Covid-19 e vacinas.

Sobre os discursos de ódio, a plataforma afirmou que hoje detecta proativamente cerca de 97% do conteúdo de discurso de ódio que remove. Ainda afirma que, no primeiro trimestre deste ano, agiu em 8,8 milhões de peças de conteúdo de bullying e assédio, ante 6,3 milhões no quarto trimestre de 2020; 25,2 milhões de peças de conteúdo de discurso de ódio, em comparação com 26,9 milhões no quarto trimestre de 2020.

O Twitter não respondeu aos questionamentos da reportagem. O TikTok encaminhou uma nota à reportagem onde também destaca prioridade às ações para fomentar a plataforma como um ambiente acolhedor e inclusivo.

Estamos profundamente tristes com esta tragédia. Temos como nossa principal prioridade dar apoio ao bem-estar da nossa comunidade e fomentar um ambiente acolhedor e inclusivo, onde todos se sintam seguros para se expressar de forma autêntica. Comentários de ódio, que violam nossas políticas e prejudicam nossa comunidade, são removidos da nossa plataforma. Também trabalhamos com especialistas, como o CVV, para dar apoio e oferecer recursos para qualquer pessoa que possa estar passando por um momento difícil. Enviamos nossos sentimentos mais sinceros para a família e amigos do Lucas.”

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Repórter do site CartaEducação

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