Sociedade

Nath Finanças: “Não adianta nada ficar na internet, sentada, reclamando”

Em entrevista a CartaCapital, youtuber fala sobre as motivações políticas em seu canal sobre educação financeira para pessoas de baixa renda

A youtuber Nathália Rodrigues ganhou a simpatia de internautas com dicas de educação financeira para trabalhadores de baixa renda. Foto: Divulgação
A youtuber Nathália Rodrigues ganhou a simpatia de internautas com dicas de educação financeira para trabalhadores de baixa renda. Foto: Divulgação

Era 1º de fevereiro de 2019 quando a estudante Nathália Rodrigues, aos 20 anos, publicava no YouTube o seu primeiro vídeo sobre finanças pessoais para quem tem baixa renda. Aos primeiros segundos, uma vinheta com o seu nome trazia os versos do rapper Delatorvi: “Pretos e pretas fazendo dinheiro, eles esperavam que não; pretos e pretas fazendo dinheiro, deixando inimigos no chão”. Em seguida, explicava a diferença entre guardar dinheiro no tesouro direto e na poupança.

Nascia ali a história do Finanças com a Nath. O canal virou a nova sensação dos internautas que, apesar de não serem investidores ou terem contas bancárias cheias, procuram dicas de educação financeira para poupar gastos e administrar melhor suas rendas. Diferente dos jovens que afirmam ter juntado patrimônios milionários a partir de investimentos em ações, Nath não ensina a amontoar “1 milhão e 42 mil reais” em sua poupança. Sua proposta é dialogar com trabalhadores da periferia que precisam desafogar suas despesas, mas não têm acesso a conselhos preciosos de como fazer isso começando pelos seus centavos.

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, “Nath Finanças” é graduanda em Administração e trabalha em uma empresa no centro da capital. Antes, foi revendedora de cosméticos e estagiou no comércio de um shopping. Com os 500 reais de salário, gastava com potes de sorvete e hambúrgueres de fast-food. “Minha relação com o dinheiro nunca foi das melhores”, conta ela.

Após passar por um curso técnico na escola e entrar para a faculdade, a jovem percebeu o quanto não controlava o seu dinheiro. Com a realidade da vida adulta cada vez mais à sua porta, não houve outra alternativa se não aprender a monitorar o que tirava da carteira. “Eu estava cansada de ver pessoas que ganham mais de 5 mil reais me falando para guardar mil reais. Para mim, faz sentido conseguir guardar os centavos da minha conta corrente, juntar esses centavos e conseguir ter 10 reais com eles”, conta a youtuber.

 

Hoje, Nathália coleciona vídeos explicativos sobre como limpar o seu nome, como fugir dos juros rotativos, como comprar menos e o que escolher entre o financiamento e o empréstimo. Pelo Twitter, tenta traduzir, aos seus quase 200 mil seguidores, as notícias da economia para quem não compreende de que modo elas podem afetar o seu dia a dia. Nas últimas semanas, a youtuber comentou também sobre como trabalhar seus “medos financeiros”, afinal, para ela, falar sobre saúde mental é fundamental para gerir bem suas finanças. Um dos medos clássicos, por exemplo, é anotar os seus gastos diários.

“Anote os seus gastos”, aliás, virou o seu lema na internet. Este é o primeiro passo, tão simples, mas ainda tão ignorado. Recentemente, ela teve a oportunidade de compartilhar o ensinamento no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da TV Globo. A resposta veio de uma usuária do Twitter: “Minha manicure acabou de comentar que viu uma menina no programa da Fátima falando sobre anotar os gastos e que ela nem imaginava que isso era importante”.

Semanas atrás, perfis na internet chegaram a criticar Nath como “coach de pobreza”. Mas, em entrevista a CartaCapital, Nath Finanças demonstra que seu trabalho tem motivações políticas que ultrapassam o simples aconselhamento. “É sobre entender que o sistema financeiro não está ali para ser seu amigo, mas sim, está esperando você se endividar”, diz ela.

Confira, na íntegra, a entrevista com Nath Finanças.

CartaCapital: Como você convivia com o seu dinheiro antes de criar o canal?

Nath Finanças: Minha convivência com o dinheiro nunca foi boa, porque eu, primeiramente, comecei a trabalhar vendendo Avon para fazer um dinheirinho de fim de ano. Depois, no mesmo ano, consegui um estágio, porque eu fazia curso técnico em Administração dentro da escola. Consegui um estágio trabalhando em um shopping, no comércio. Foi a primeira vez que comecei a levar marmita, trabalhava longe de casa, saía às 10 horas da noite. Eu comecei a ganhar 500 reais, e com esse dinheiro eu gastei com um pote de sorvete e um hambúrguer no McDonald’s. E eu não lembro o que eu fiz com esse dinheiro depois. Não lembro se eu guardei algo. Não guardei nada, gastei tudo. E eu pagava uma taxa abusiva de conta bancária, pagava 40 reais e eu achava normal pagar esse valor. Eu não tinha noção do que era IOF [Imposto sobre Operações de Crédito], o que era taxa de juros, não entendia o que era cheque especial.

Apesar de eu ter tido a oportunidade de fazer o curso técnico, eu até entendia o que era juros simples, juros compostos, mas sabe quando você vê isso e não assimila junto com a sua realidade? Então, eu tinha isso de juros simples, tinha juros no cartão que eu nem sabia. Ou seja, nunca tive uma relação boa com o dinheiro no sentido de me organizar. A única coisa que eu fazia era colocar no caderno as despesas fixas que eu tinha, mas, fora isso, o amendoim no trem, o biscoito, ou uma saída qualquer, eu não anotava. Não adianta nada só anotar as despesas que eu tenho fixas e não anotar as despesas do dia a dia. Então acabava que eu não sabia o que eu gastei no dia. Não ficava endividada, não ficava com o nome sujo, mas eu não tinha dinheiro, só tinha para pagar boleto. Eu não tinha dinheiro guardado. Então, minha relação com o dinheiro nunca foi das melhores. Fui melhorar depois.

“Eu estava cansada de ver pessoas que ganham mais de 5 mil reais me falando para guardar mil reais. Para mim, não faz sentido”, diz Nath Finanças.

CC: Como surgiu a ideia de criar o canal?

NF: Surgiu quando, em 2018, eu estava na faculdade de Administração e comecei a ter aulas de Matemática Financeira. Comecei a ter interesse sobre como funciona o sistema de amortização, de financiamento de casas, de carros. Com o professor explicando, eu achei uma forma tão acessível, sabe? Porque, caraca, cara, que maneiro, por que a gente não fala isso para várias pessoas? Porque, geralmente, as aulas de finanças são muito difíceis para você entender. É mais técnico, não tem algo que coloque coisas do dia a dia. E isso tem que ter, para entendermos como funciona o sistema de juros, o sistema do IOF, o que é DOC [Documento de Ordem de Crédito], o que é TED [Transferência Eletrônica Disponível].

Então, surgiu a oportunidade de criar um projeto. Porque eu sou assim, né, administradora. Fiz o projeto, o plano de negócios, escrevi os valores do canal, qual era o objetivo, o público-alvo. Eu estava cansada de ver pessoas que ganham mais de 5 mil reais ou têm uma grande quantidade de dinheiro me falando para guardar mil reais. Para mim, não faz sentido. Para mim, faz sentido conseguir guardar os centavos da minha conta corrente, juntar esses centavos e conseguir ter 10 reais com eles. Eu não consigo guardar mil reais porque esse é o valor do meu salário. Eu ganhava menos do que um salário mínimo, e mesmo assim eu não tinha controle financeiro.

Surgiu a oportunidade de criar o canal porque comecei a me organizar financeiramente graças à faculdade, por estudar, ter esse conhecimento, ler livros e aplicar à minha realidade de forma acessível e prática. Quero falar de finanças para o dia a dia e ajudar pessoas como eu, que ganham menos do que um salário mínimo, estudantes, estagiários, bolsistas, trabalhadores, que querem aprender a ter uma vida financeira saudável, sem frustrações, sem precisar fazer renda extra. Eu não tenho tempo para fazer renda extra, chego tarde em casa, demoro duas horas e meia para chegar no trabalho. 

CC: Quais são as principais dificuldades dos trabalhadores em administrar o próprio dinheiro?

NF: A primeira dificuldade é o desemprego. Existe o controle financeiro, como eu falo, mas como é que a pessoa vai começar a se organizar financeiramente sem uma grana? Ela vai ficar frustrada, né? Então, eu falo para ela: Cara, vê os meus vídeos, aprende a se organizar financeiramente, para quando tiver um salário, você já saber como fazer. Daí, a maior dificuldade dos trabalhadores é entender o que são despesas, o que são receitas, e que é importante anotar os gastos. É super importante ter o pensamento de: Cara, gastou no amendoim? Anota. Você pode anotar semanalmente ou todos os dias, o importante é ter esse hábito. O tanto de gente que não tem esse hábito de anotar virou até um meme.

Quando eu falei na Fátima “anote os seus gastos”, é porque você vai ter noção do que está gastando a mais, o que realmente não tem como diminuir. Eu sempre falo desse exemplo: você tem um plano de internet que é 100 reais e não usa a internet o tempo inteiro, está caindo direto. Você pode pedir um desconto da fatura, pode diminuir o plano e pegar uma promoção. O que as pessoas não sabem é que sempre quando falamos para cancelar, vem uma pessoa da Central de Cancelamento para insistir para você continuar. É uma forma de diminuir o gasto sem precisar cortar. Então, se você não anotar os gastos, não vai ter noção do seu saldo amanhã. Aí vai para uma festa e usa o cheque especial, o cartão de crédito, e acaba se endividando.

CC: Passando a etapa da anotação dos gastos, há outros cuidados necessários?

NF: Outra coisa que percebo é a questão de comprar por impulso. Por exemplo: você passou por um problema pessoal e acaba gastando com roupa para preencher aquele vazio. Roupa, sapato, comida, bebida. Grande parte dos nossos problemas financeiros vem de questões emocionais. Você quer impressionar alguém e vai comprar uma roupa de marca, porque fulano tem roupa de marca. Tente pensar o que você quer fazer com o seu dinheiro e entender a sua saúde mental. Não é justo você escutar coachs falando que você tem que acordar 5 horas da manhã, que você é culpado por tudo na sua vida porque você é pobre porque você quer. Não é escutar essas pessoas, colocar isso na mente e se prejudicar emocionalmente.

É entender que estamos em um sistema em que as pessoas têm um salário mínimo, o preço das coisas está alto e não é culpa sua estar nessa situação. Porém, temos que começar a anotar os gastos, entender o seu emocional e por que você gasta, se você precisa do produto que quer, se tem dinheiro para isso, se é possível passar no débito e não no crédito, aprender a separar as despesas do cartão de crédito das outras despesas, tentar diminuir a conta de luz. Só nessas formas você tem o mínimo de facilidade e saúde financeira para conseguir viver nesse sistema.

CC: Recentemente, houve certa repercussão negativa nas redes sociais sobre o seu trabalho. Você foi criticada por alguns internautas por supostamente se colocar como coach para pessoas que, mais do que não ter acesso à educação financeira, têm dificuldades porque a renda é baixa. De que forma você recebe essas críticas?

NF: Em nenhum momento eu falei que sou coach, mas algumas pessoas me chamaram de “coach de pobreza”. Eu não sou coach de pobreza, não gosto que me comparem dessa forma. O coach só motiva e não vai na raiz do problema, que é o sistema. Eu tento não absorver, porque, se eu absorver, vai me fazer muito mal. Se for uma crítica construtiva sobre o meu trabalho, de que eu deveria falar mais sobre o sistema, é uma coisa a se pensar, sobre a educação financeira no sistema capitalista.

Eu não concordo com esse sistema, deixo bem claro isso. Agora, você chegar no deboche, me chamar de coach de pobreza, aí eu tento não absorver. Porque aí não é crítica, você não está fazendo algo melhor para as pessoas. Eu, pelo menos, estou querendo fazer alguma coisa para mudar a realidade delas, para, no mínimo, elas entenderem o sistema bancário e criticarem o sistema financeiro. É entender que o sistema financeiro não está ali para ser seu amigo, mas sim, está esperando você se endividar. Então é isso o que eu faço com as pessoas para entender sobre taxa de juros, taxas bancárias.

É sobre entender que o banco não está dando o desconto porque ele quer, é porque você está lutando pelo seu direito. É saber que existe um pacote de conta bancária que é gratuita, mas que não é divulgado. Eu estou pensando estrategicamente. Não adianta nada ficar na internet, sentada, reclamando. Tenho que fazer alguma coisa para mudar as pessoas. Se eu estou conseguindo chegar em uma senhora da periferia que está entendendo o meu conteúdo e procura anotar os gastos, é porque estou no caminho certo. São essas as pessoas com quem me identifico e tenho foco.

CC: A reforma da Previdência foi a principal medida econômica no primeiro ano de gestão do governo do presidente Jair Bolsonaro. O que você tem explicado ao seu público sobre como esta reforma afetará a vida das pessoas?

NF: Sobre a reforma, ela é muito complicada. Então, por exemplo, eu indico autores que leio e que falam sobre isso. Por exemplo, eu indiquei o Jones Manoel [historiador e mestre em Serviço Social], ele falou sobre o quanto esta reforma da Previdência é ruim. Não é para favorecer os pobres. Dizer que a reforma vai melhorar a vida das pessoas, é mentira. O salário mínimo, por exemplo, mal aumentou do ano passado para cá, e só aumentou um pouco mais alguns reais por conta da inflação.

Então, eu indico autores porque prefiro chamar especialistas e estou pesquisando para postar no canal sobre isso. Estou chamando economistas que são contra e que são a favor para entender o assunto, porque é algo muito mais complexo. Mas eu não concordo com a reforma, já deixei isso bem claro, existem dados que falam que ela não ajuda em nada o trabalhador. 

“É muito errado as pessoas falarem que trabalhar em aplicativo é empreendedorismo, porque não é. É totalmente exploratório”, avalia a youtuber.

CC: O governo tem comemorado o aumento da geração de emprego, mas o que pesquisas revelam é que o Brasil atingiu recordes de trabalho informal nos últimos meses. Como a informalidade tem impactado a realidade ao seu redor? 

NF: A informalidade afeta em tudo. A pessoa não tem um plano de saúde, um benefício. Ela vive para pagar os boletos. O que mais acontece é o motorista de aplicativo falar comigo que não sobra dinheiro. A pessoa trabalha doze horas, não consegue nem ficar em casa, e tem que trabalhar mais ainda porque o combustível está caro. Tem o seguro do carro, o IPVA [Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores], gastos com consertos. É muito errado as pessoas falarem que isso é empreendedorismo, porque não é. As pessoas estão abrindo MEI [registro para Microempreendedor Individual], não é porque elas querem ser empreendedoras, é porque estão em um mercado de necessidades, para pagar as contas.

As pessoas acharam um espaço nesses aplicativos, e tem gente que apoia porque vive disso, mas até elas entenderem que isso não está ajudando, mas sim explorando elas… Ela não tem um benefício pelo perigo de ser assaltado, e o cara que é dono da empresa Uber não perde nada, só ganha. É totalmente exploratório. Espero muito, aos poucos, passar informações, falar com outras pessoas que estudam a uberização do trabalho. Tem muita gente que me segue, que trabalha como motorista de aplicativo e quer se organizar financeiramente, mas diz que está vivendo para pagar boleto. As coisas estão caras. E as pessoas que têm carro, hoje em dia, preferem pegar o Uber porque fica mais barato do que usar o seu. Então, não estou comemorando a informalidade, com certeza não. 

CC: O governo elevou o salário mínimo de 998 reais para 1045 reais. O que dá para fazer com esse dinheiro?

NF: Muito dificilmente você consegue sustentar uma família com um salário mínimo. E, no Brasil, muitos vivem com 413 reais. Enquanto isso, a carne está caríssima, não se consegue acessar alguns produtos. Então, não adianta nada eles terem aumentado o salário mínimo, sendo que, no ano passado, não aumentaram. Os preços dos produtos estão altos. 

 

CC: Como você lida com o seu público a respeito da ideia de meritocracia?

NF: Meu público entende que eu não sou a favor da meritocracia, e estou, aos poucos, mudando o pensamento das pessoas que são a favor da meritocracia. Não adianta que eu tenha a oportunidade de estudar, enquanto outras têm que trabalhar até 9, 10, 11 da noite, para competir no Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] com uma pessoa que só estuda e tem o suporte dos pais. Não acho justa a ideia.

Principalmente, porque há questões de estado para estado que são totalmente diferentes, com escolas públicas precárias que não têm nem água. Aqui, na Baixada Fluminense, está havendo um problema de água que está vindo suja. E as escolas não funcionam quando a água está ruim ou não tem água. Enquanto isso, o colégio da zona Sul vai funcionar independente disso, porque eles vão ter água potável. 

CC: Você tem enxergado as políticas econômicas do ministro Paulo Guedes com otimismo? O Ministério da Economia está indo no caminho certo?

NF: Ai, polêmicas. Sobre as políticas do Paulo Guedes, eu não concordo, porque estão favorecendo apenas os empresários. Os empresários têm isenção de dívidas, enquanto pobres têm que parcelar em 15 vezes uma dívida. Isso já mostra de que lado o sistema do governo está: dos empresários, e não do povo.

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