Sociedade

Obituário

Morre Giralda Seyferth, antropóloga que estudou colonização e racismo no sul do Brasil

por Felipe Milanez publicado 13/04/2017 17h23
Alunos e alunas prestam homenagem a professora que deixa legado para enfrentar racismo e xenofobia

Em artigo coletivo escrito por ex-alunos e ex-alunas de Giralda Seyferth, uma breve homenagem para honrar o legado de trabalho para inspirar a luta contra xenofobia e o racismo. Por Joana Bahia, Miriam de Oliveira Santos, Luis Edmundo de Moraes, Thaddeus Gregory Blanchette, Maria Catarina Chitolina Zanini e Patrícia Reinheimer

Giralda Seyferth (1943-2017)

Faleceu no dia 6 de abril a antropóloga Giralda Seyferth, pesquisadora da imigração alemã no sul do Brasil, e referência em temas como racismo, preconceito e campesinato. Natural de Brusque, Santa Catarina, graduou-se em História da Universidade  Federal de Santa Catarina e, em 1966, mudou-se para o Rio de Janeiro, dedicando-se inicialmente a estudos de antropologia física. Foi aluna de uma das primeiras turmas do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (PPGAS-MN-UFRJ).

Em 1973, ela defendeu sua dissertação de mestrado A Colonização Alemã no Vale do Itajai-Mirim, orientada pelo prof. Luiz de Castro Farias. Três anos depois, já como professora do PPGAS, defendia sua Tese de Doutorado Nacionalismo e Identidade Étnica, desenvolvida no Programa de Doutoramento em Ciências Humanas da USP, sob a orientação de Ruth Cardoso.

Tanto no mestrado quanto no doutorado, seu lugar de nascimento foi também seu objeto de estudo. Suas pesquisas etnográficas, realizadas no Vale do Itajaí-Mirim em Santa Catarina, ofereceram instrumentos para compreender os processos de constituição, as formas de organização e as estratégias de reprodução desta sociedade de imigrantes-camponeses, envolvendo desde problemas de transmissão de patrimônio e organização societária, até referenciais de identidade de grupo.

Os imigrantes e as “áreas coloniais” se tornaram objeto de fina reflexão histórica e antropológica, desconstruindo de modo sutil as teias que compõem as identidades dos migrantes, mostrando a diversidade migratória no heterogêneo cenário da imigração alemã no Brasil e a criação do espaço geográfico, político e social denominado colônia e a identificação destes imigrantes como colonos.

Tem destaque aí a sua permanente preocupação com racismo: em escritos e aulas, Giralda Seyferth constantemente oferecia os meios para desmantelar, de forma precisa e detalhada, todas as teorias biodeterministas e essencialistas que pregavam que a diferenças entre grupos humanos eram enraizadas "no sangue" ou "na terra".

Contrariando nacionalismos na Europa e no Brasil, seus dados de pesquisa mostraram não apenas o pluralismo étnico produzido pela imigração no século XIX, mas o modo pelo qual a migração oferece meios para a compreensão de múltiplos processos históricos, culturais e políticos neste país. E isto gerou incômodos e impactos nos dois lados do atlântico, obrigando revisões de formas tradicionais de pensar os migrantes e seu processo de socialização.

Tendo dedicado boa parte de seus estudos à ideia de que as diferenças humanas eram criadas historicamente por meio da cultura e da política, seus estudos se desdobraram em um conjunto grande de temas que vão da formação do Estado Nacional,  até questões sobre etnicidade, minorias, relações de poder, preconceito e racismo. A riqueza de suas abordagens inspiraram seus orientandos a levar também para outras temáticas suas reflexões. 

Sua perda é ainda mais significativa no momento em que o mundo inteiro parece  buscar solução para problemas de seu tempo em essencialismos xenófobos, e o Brasil fecha seus olhos ao racismo e às marcas deixadas por ele na sociedade Brasileira.

Giralda Seyferth formou inúmeros professores e pesquisadores em atuação no Brasil e no exterior, coordenou por muitos anos os Grupos de Trabalho sobre de Migrações Internacionais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), da Reunião Brasileira de Antropologia (RBA) e da Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), tendo sido co-fundadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (Niem).

Entre outros trabalhos, ela é autora dos livros A colonização alemã no Vale do Itajaí (Porto Alegre: Ed. Movimento, 2ª. ed. 1999), Nacionalismo e Identidade Étnica (Florianópolis: FCC, 1982), Imigração e cultura no Brasil (Brasília: Ed. UnB, 1990), e coorganizadora de Mundos em Movimento. Ensaios sobre migrações. (Santa Maria (RS): Editora da UFSM, 2007). Seus trabalhos ganharam reconhecimento internacional expressos, entre outros, por seu artigo “Deutsche Einwanderung nach Brasilien”, publicado na coletânea Brasilien Heute: Geographischer Raum, Politik, Wirtschaft, Kultur, (Frankfurt AM Main: Vervuert Verlag. 2010).

Além da família deixa desolados dezenas de orientandos que tiveram o privilégio de conviver e aprender com ela.