Lição para Damares: ser mulher no Brasil é duro, mas fugir não é saída

A deputada Sâmia Bomfim dá a dica: existem níveis e formas de participação no movimento feminino. Aconselhar a fuga é 'irresponsabilidade'

Os estudos de gênero contribuíram no desenvolvimento de políticas públicas para promover a igualdade e combater a discriminação (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Os estudos de gênero contribuíram no desenvolvimento de políticas públicas para promover a igualdade e combater a discriminação (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Política,Sociedade

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, coleciona polêmicas nos pouco mais de 60 dias de governo Bolsonaro. Neste Dia Internacional de Mulher mesmo, ela não deixou barato. Uma das mais simbólicas: ela aconselha aos pais de meninas que fujam do Brasil. A fala de Damares gerou discussão: então, nobre ministra, o Brasil realmente está entre os piores lugares para se nascer mulher?

Segundo relatório lançado pela ONU Mulheres, a América Latina é a região mais perigosa do mundo para mulheres fora de uma zona de guerra. Em média, nove mulheres são assassinadas por dia em nossa macrorregião, vítimas de violência motivada por gênero. 

Os números de fato são alarmantes, mas a mudança precisa ser realizada dentro do País. Fugir, obviamente, não é a solução. Em entrevista a CartaCapital, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) afirma: “É muito irresponsável uma ministra dos Direitos Humanos dizer isso num dos países que têm um dos maiores índices de feminicídio do mundo inteiro. Ela tinha que apontar para a responsabilidade do poder público, apresentar alguma saída para superar esse problema.”

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Dentre as possíveis saídas, a deputada destaca a implementação mais rígida da Lei Maria da Penha, garantindo orçamento para que seja cumprida, criação de mais delegacias da mulher, investimento na formação dos profissionais que lidarão com os casos. 

Sâmia ainda reforça a importância de estudar um outro modelo educacional que inclua o tema da violência de gênero nas escolas. E destaca sobre o posicionamento da ministra Damares a respeito da atual conjuntura. “Ela nunca se esforça em dialogar com alguma dessas hipóteses de superar o problema. Pelo contrário, trabalha sempre na lógica obscurantista ou mesmo irônica, dizendo que as pessoas têm que sair do Brasil para fugir do problema. É muito triste.”

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A questão das mulheres no Brasil é, para dizer o mínimo, complexa. Ao mesmo tempo em que há conquistas progressistas, há o crescimento conservador. Com a palavra, Sâmia: “Teve um aumento nessa legislatura de 50% de participação de mulheres. Hoje somos 77, mas ainda é muito pouco diante dos 513 parlamentares”. 

” E aí entram várias questões,  questionam a sua capacidade política e técnica, como se você fosse só uma boneca lá dentro. Eles estão acostumados com o primeiro-damismo e não com a mulher no protagonismo da política”, continua Sâmia.

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Crescimento do movimento

Diante de um governo conservador, reacionário, que valoriza as decisões tomadas por homens e coloca a mulher em segundo plano, questões de pauta feminista tendem a ser minorizadas – quando não desqualificadas. Entretanto, e talvez por isso, o movimento social de mulheres cresceu nos últimos anos.

“Existem diferentes níveis e formas de participação no movimento, até porque é natural que nem toda mulher queira se tornar uma parlamentar, não é o melhor dos lugares para estar”, a deputada confessa aos risos. “Mas é possível, por exemplo, participar de lideranças de movimentos sociais e populares, se envolvendo nas discussões do sindicatos, muitos deles ainda não tem uma secretaria de mulheres, participando das mobilizações de rua, que é um espaço muito interessante para se fortalecer. Eu, por exemplo, não conseguiria enfrentar o que eu enfrento de eu não tivesse uma rede de mulheres que me apoiam e me ajudam no que eu precisar, seja com o que for”, conclui Sâmia.

No final das contas, respondendo para Damares, ser mulher no Brasil não é fácil, o governo tem papel fundamental na melhoria da jornada. E se a ministra percebesse a força que há no movimento feminista, pediria para que as meninas ficassem e ocupassem os espaços públicos e privados. Todas juntas, sem fuga.

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Estagiária de Mídias Sociais em CartaCapital

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