“Jesus é índio, negro, mulher também. Jesus para a gente não tem gênero”

O carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira, dá detalhes do desfile político (e polêmico) que a escola levará para a Sapucaí em 2020

O carnavalesco Leandro Vieira (Foto: Divulgação)

O carnavalesco Leandro Vieira (Foto: Divulgação)

Sociedade

Jesus seria um cidadão de bem, branco, dos olhos azuis e que faz pose com arma na mão? A resposta, baseada na Bíblia, seria não, mas não é o que vem acontecendo nos últimos anos no Brasil. A imagem do filho de Deus, que viveu há mais de dois mil anos no Oriente Médio e deu início à maior religião da história da humanidade, vem sendo associada a um discurso conservador, que condena a diversidade e prega a violência.

As últimas eleições foram provas disso. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro, representante da extrema direita, utilizou Deus em seu slogan de campanha ao mesmo tempo em que fazia sinal de arminha com as mãos, praticando referência a sua promessa de liberar porte de armas para os “cidadãos de bem”.

E por que não utilizar o Carnaval, maior festa popular do Brasil, para explicar para as pessoas que Jesus não foi nada disso. Foi o que pensou o carnavalesco da escola de samba Estação Primeira da Mangueira, Leandro Vieira.

O carioca de 35 anos, que é artista plástico, esta à frente da escola verde e rosa há 5 anos e já levou 2 prêmios (2016 e 2019). Desde 2018, Leandro leva temas políticos e sociais para a avenida como forma de reflexão e protesto. Em 2020 não será diferente.

“A Verdade Vos Fará Livre” é um enredo biográfico que contará a história de Jesus Cristo, mas de uma maneira nada convencional.A ideia é olhar para a figura de Jesus como uma figura política e histórica, importante para compreensão do pensamento cristão. Do pensamento cristão que hoje, inclusive, é utilizado por líderes políticos de extrema direita e religiosos fundamentalistas”, conta Leandro, em entrevista para CartaCapital.

Jesus será tratado no desfile da Mangueira fugindo da imagem eurocêntrica. Em uma parte da letra do samba-enredo, o filho de Deus se apresenta com rosto negro, sangue indígena e corpo de mulher. “O homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, então Jesus tem várias caras. Ele é irmão da gente de várias caras. No Brasil ele é índio, negro, mulher também. Jesus para gente não tem gênero. É uma figura com a nossa cara, a nossa semelhança. E as nossas caras são muitas”, explica o carnavalesco.

Em outra parte, a letra do samba cita um “Messias com arma na mão”, dizendo que essas pessoas nada entenderam da mensagem passada por Jesus. “Desfile de escola de samba para comunidades pobres do Rio, como é a Mangueira, também é uma possibilidade de fornecer conteúdo, de fornecer reflexão. E é isso que eu quero fazer com o desfile.”

Confira a entrevista:

CartaCapital: O que significa esse enredo? Qual foi o motivo da escolha? 

Leandro Vieira: Eu sou carnavalesco da Mangueira há quatro anos. É meu quinto Carnaval, e eu tenho feito dos meus carnavais uma possibilidade de diálogo, de discurso. Eu não acredito muito no desfile de escola de samba como uma coisa festiva. Inclusive eu acho que esse olhar que as pessoas têm do desfile como uma festa, é o olhar que reforça o preconceito que a sociedade brasileira tem com Carnaval. Para mim, desfile de escola de samba é uma manifestação artística de alto nível, e como toda arte de alto nível, ela pode mais que simplesmente embelezar.

Venho tentando fazer dos meus carnavais nos últimos anos uma possibilidade de se pensar o Brasil. De se olhar para o Brasil através da arte. Eu sou artista plástico, formado pela escola de Belas Artes, então eu tenho esse olhar do trabalho que realizo como uma manifestação artística, como uma possibilidade de através das imagens, do samba que a gente canta, do enredo que é construído, ter a possibilidade de representar algo que leve a reflexão. Isso é uma caminhada que eu comecei a fazer em 2018 com o enredo “Com dinheiro e sem dinheiro eu brinco”, que foi aprofundada no carnaval de 2019 com o enredo “História para ninar de gente grande” e que segue fazendo o seu curso natural com o enredo de 2020, que é um enredo a princípio biográfico, que vai contar a vida de Jesus e vai olha-lo como uma figura um pouco mais política e histórica do que religiosa, embora seja muito difícil fazer essa dissociação.

A ideia é olhar para a figura de Jesus como uma figura política e histórica importante para compreensão do pensamento cristão. Do pensamento cristão que hoje, inclusive, é utilizado pelos líderes políticos e religiosos. Por isso o enredo da Mangueira é um enredo tão necessário, porque estamos presenciando o avanço da extrema direita, que carrega consigo toda essa questão religiosa radical. E a figura de Jesus Cristo sempre foi utilizada por esses movimentos de direita como uma figura símbolo de opressão, Jesus como uma pessoa opressora. Ele é utilizado para a defesa do cidadão de bem, da família, toda essa questão que vemos muito levantada hoje em dia é levantada em cima da figura de Jesus Cristo. Ele foi colocado a serviço de uma narrativa da direita brasileira atual. O que o enredo pensa é um pouco isso. Ao mesmo tempo em que o Brasil se declara cristão, seguimos no topo do país que mais mata LGBTs, onde o índice de feminicídio cresce absurdamente, um país racista, homofóbico e cheio de posturas anticristãs. Isso é muito curioso já que o Brasil é um país que quase na totalidade se declara cristão.

CC: A letra do samba diz que Jesus tem “rosto negro, sangue índio e corpo de mulher”. Você coloca Jesus como uma mulher trans? 

LV: Coloco Jesus como tudo. Na verdade, a imagem de Jesus é uma imagem historicamente construída. Inclusive, o que eu proponho em termos estéticos é a desconstrução dessas figuras que criaram sobre esse Jesus. Branco, dos cabelos alourados, dos olhos azuis, essa figura eurocêntrica. Primeiro, porque nós já sabemos que Jesus não é esse. A própria geografia, o clima e os traços do povo da região onde Jesus nasceu não apontam para esse biótipo. Esse biótipo é construído a partir de interesses de dominação e que é apresentado e perpetuado através dos séculos. A primeira coisa que eu quero desconstruir é essa figura desse Jesus masculino, eurocêntrico e muito distante da gente.  O homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, então Jesus tem várias caras. Ele é irmão da gente de várias caras. No Brasil ele é índio, negro, mulher também. Jesus para gente não tem gênero. É uma figura com a nossa cara, nossa semelhança. E as nossas caras são muitas.

Cartaz do enredo da Mangueira para 2020 (Foto: Reprodução)

CC: Tem uma parte que a letra do samba diz “Messias com arma na mão”. É uma referência ao presidente Jair Bolsonaro? 

LV: Pode ser também referência ao Bolsonaro. O desfile de uma escola de samba é uma obra em exposição. A obra de todo artista, a minha como artista visual e a do compositor enquanto artística musical oferecem uma mensagem. Toda obra passa por isso. Nesse momento pode ser uma das interpretações possíveis. Messias e arma na mão são coisas que não combinam e o atual presidente da república tem como marca fazer arminha com a mão. É um homem que se deixa ser fotografado em um evento evangélico fazendo uma arma na mão. E eu acho muito difícil a figura pacifista de Jesus ser associada à essa imagem. Jesus que pregou, quando esteve na terra, sobre o respeito de comunhão e fraternidade. Acho que ele não seria muito adepto de uma política armamentista.

CC: Esse desfile será uma resposta à política de Bolsonaro? 

LV: Não. Desfile da Mangueira é arte. Limitar o desfile da Mangueira a uma resposta a Bolsonaro é diminuir em termos de potência artística. Não posso construir uma obra de arte para uma escola do tamanho da Mangueira, com mais de 90 anos, pensando em responder a um presidente da República. É muito pequeno dizer que o desfile da Mangueira é uma resposta política.

CC: Mas o momento político atual foi uma das inspirações, certo? 

LV: Total. Quero cada vez mais conversar com o Brasil de agora. Sou um apaixonado pelo Brasil e meus desfiles mostram isso. Meus desfiles da Mangueira desde 2015 mostram minha relação com o meu país. Acredito no Brasil. O Brasil pra mim é o material do meu trabalho. Só que as escolas de samba durante muito tempo ficaram ali preocupadas em enaltecer o país e acabaram tendo uma postura muito lúdica. Viraram espaços quase que folclóricos.

Represento uma escola que é oriunda de uma comunidade pobre do Rio. E sabemos que comunidades pobres, de um modo geral, são locais onde o governo não se faz presente e vira as costas. Essas localidades pobres são localidades onde as pessoas não têm acesso à informação de qualidade. Desfile de escola de samba também é local de informação. É uma possibilidade de fornecer conteúdo, de fornecer reflexão.

O carnavalesco Leandro Vieira (Foto: Reprodução Facebook)

CC: Como que foi a aceitação das pessoas da comunidade com esse tema? 

LV: Foi muito tranquila. Não é uma coisa construída de uma hora para outra. O atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella, é um bispo de uma igreja evangélica. Quando chega ele já começa a tomar atitudes que são conservadoras, compreende mal as atividades culturais plurais da cidade que ele administra. Entende mal o Carnaval, as manifestações religiosas. Então em 2018 eu comecei esse diálogo contra o conservadorismo traduzido em questões políticas. Em 2019 estamos falando em um avanço do conservadorismo na questão federal. De um período em que torturadores passam a ser exaltados, práticas racistas passam a ser recorrentes, relativizam a questão da escravidão, questionam a questão da reaparição histórica com quilombolas, entre outras coisas. Aí venho com um enredo, em 2019, que fala um pouco a respeito do protagonismo popular da história do Brasil e do quanto esse protagonismo é negado. Então isso foi construído através de um diálogo, a comunidade da Mangueira, o Morro da Mangueira, eles passam a tomar conhecimento através dos carnavais que eu proponho e uma construção de uma narrativa onde o povo é colocado como protagonista. Ele é o protagonista do Carnaval que deve ser respeitado. Em 2019,  povo preto era protagonista, descendente de índio, pobre, pessoas que devem ter protagonismo na história oficial do país. Em 2020, ele passa a entender que a figura de Jesus é uma figura próxima. Que Jesus é negro, pobre. É com isso que a Mangueira se identifica.

CC: A Mangueira teve, em 2018, a primeira musa transsexual (Patrícia Souza). Na letra, vocês falam de um Jesus que pode ser uma mulher e tivemos nas eleições de 2018 uma fake news falando sobre Jesus Travesti. Paralelo a isso, as igrejas conservadoras ganham cada vez mais força nas periferias do Brasil. Esse ponto do enredo e a escolha da musa não causaram incômodo na comunidade da Mangueira?

LV: Não. Isso é uma coisa muito curiosa. A Mangueira é uma escola muito tradicional. O preconceito se dá a partir do momento em que você não conhece, não convive. A musa trans da Mangueira foi super bem recebida pela comunidade. Essa possibilidade de reflexão é muito importante. Essa possibilidade de contato com a diversidade. Escola de samba é isso, é local de diversidade.

CC: Você é cristão?

LV: Sim. Embora me relacione muito bem com todas as possibilidades religiosas. Sou de uma família religiosa. Mãe devota de Nossa Senhora, pai evangélico, tios da Assembleia e primos umbandistas. Gosto da religião que não exclui, da religião que soma, do Jesus que soma.

CC: Qual a expectativa com esse enredo? 

LV: É que as mensagens originais de Cristo sejam reavivadas. Que as pessoas tenham esse olhar através das imagens produzidas e daquilo que é cantado. A expectativa é de possibilitar essa reflexão de que Cristo está mais nos oprimidos do que nos opressores.

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Repórter do site de CartaCapital

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