Sociedade

Grupo que abriu guerra ao Porta dos Fundos quer “cristianizar” o Brasil

Fundado por universitários alarmados com a popularidade da Teologia da Libertação, o Centro Dom Bosco milita em um formato inédito

Fábio Porchat (à esq.) e Gregório Duvivier como Jesus. Foto: Netflix/Divulgação
Fábio Porchat (à esq.) e Gregório Duvivier como Jesus. Foto: Netflix/Divulgação

Quando o desembargador carioca Benedicto Abicair, em decisão liminar, ordenou a retirada do polêmico especial de Natal do Porta dos Fundos, a festa foi maior em uma pequena sala comercial no Centro do Rio de Janeiro. O sabor de primeira vitória foi breve. Dois dias mais tarde, o Supremo Tribunal Federal cassou a decisão pela caneta de Dias Toffoli. Se Abicair atendeu ao pedido por considerá-lo benéfico “para a sociedade brasileira, majoritariamente cristã”, Toffoli anotou não ser razoável “que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores” dessa fé. A obra não chegou a deixar o catálogo da Netflix.

O autor da ação que culminou naquela censura interrompida ainda é pequeno, mas barulhento e influente. Fundado por universitários católicos alarmados com a popularidade da Teologia da Libertação em alguns círculos, o Centro Dom Bosco milita em um formato inédito dentro do catolicismo brasileiro. Seus associados não devem devoção a nenhum fundador santificado, como os Arautos do Evangelho. Tampouco cultivam a animação e a musicalidade de uma Canção Nova. Opera mais como um think thank, nos moldes do Movimento Brasil Livre. A sede do Centro Dom Bosco no Rio fica em uma sala comercial ainda modesta. Lá, os associados rezam o terço e assistem a palestras sobre temas como as Cruzadas, o darwinismo e a busca pela santidade. Frequentam a missa tridentina – aquela rezada em latim enquanto o padre fica de costas para os fiéis. Na Igreja, os homens do movimento estão sempre de terno. As mulheres, com a cabeça coberta por um véu. Escuro para as casadas, claro para as solteiras.

 

Esses novos cruzados têm uma missão ambiciosa: recristianizar o Brasil (ou melhor, a Terra de Santa Cruz). Para isso têm atuado em campos diversos. “O Dom Bosco é aberto para um público muito variado: tradicionalistas, conservadores, olavetes… Estão sempre buscando se relacionar com outros conservadores católicos de renome”, resume um observador próximo à instituição. Alguns desses nomes são, além do próprio Olavo de Carvalho, o padre sul- -mato-grossense Paulo Ricardo e o youtuber paranaense Bernardo Kuster, um dos mais populares dessa seara.

Missão divina. Censurar o Porta dos Fundos virou uma cruzada. Carlos Nougué, acima, é o principal guru do Dom Bosco. Foto: Reprodução/Mídia Social

Na ativa há três anos, o Centro Dom Bosco nasceu sob o apoio de dom Antônio Augusto, o número 2 da arquidiocese do Rio. Inspirou dezenas de outras associações similares. Juntas, elas formam um grupo batizado de Liga Cristo Rei, cujas células se espraiaram por 20 capitais e outras dezenas de cidades. Em 2018, segundo balancetes oficiais, o Centro Dom Bosco faturava 20 mil reais por mês, dos quais mais de 90% oriundos de doações. O potencial arrecadador cresceu de lá para cá. A entidade lidera uma campanha que já arrecadou 436 mil reais para a construção de um mosteiro beneditino na Região Serrana do Rio. A empreitada tem o apoio da diocese de Nova Friburgo e deve concorrer com outro mosteiro da região, o Santa Cruz, conhecido por desafiar a autoridade do Vaticano e do papa Francisco. Em 2015, esse refúgio da fé deu guarida ao bispo Richard Williamson, excomungado por negar o Holocausto. Um dos principais gurus do Centro Dom Bosco, o tradutor Carlos Nougué, aproximou-se do grupo após desentendimentos com dom Tomás de Aquino, prior do mosteiro de Santa Cruz.

O movimento de tom inquisitorial elegeu deputados e inspira outras associações

O avanço também se dá na política. O movimento já elegeu dois deputados, ambos pelo PSL. A mais conhecida é a advogada Chris Tonietto, cuja proposta era proibir o aborto mesmo para mulheres estupradas e sob risco de morrer. Também defende o ensino Escolar caseiro. O outro é o policial civil Márcio Gualberto, que atua na Câmara Estadual do Rio. O apoio ao governo Bolsonaro é explícito. O presidente e o filho Flávio aparecem em vídeos da associação e são convidados para eventos. “Lobby é o que eles sabem fazer de melhor, isso amplia muito a possibilidade de elegerem outros deputados futuramente”, completa o jovem observador.

Chris Tonietto avança no Congresso. Foto: Claudio Andrade/Câmara dos Deputados

O caso da Netflix deu projeção internacional a uma longa batalha entre o Centro Dom Bosco e o Porta dos Fundos. Tramitam atualmente no Tribunal de Justiça fluminense quatro processos da associação contra a trupe. Em 2017, o CDB reclamou à Justiça o direito de receber 1 real a cada visualização dos vídeos Ele Está no Meio de Nós e Céu Católico, que juntos somavam à época mais de 12 milhões delas. O caso ainda está em aberto. O Dom Bosco encontrou no Porta dos Fundos o nêmesis ideal. “Evito comentar porque esses grupos são trolls. Caçadores de likes”, diz a CartaCapital Gregório Duvivier. “A estratégia é tentar uma resposta pra crescer. Sem essa resposta eles são muito pequenos.” No ano passado, o Dom Bosco foi à Justiça para impedir que o grupo feminista Católicas Pelo Direito de Decidir usasse “católicas” no nome.

O próximo alvo da associação carioca são as escolas de samba

O instituto está ligado ao CitizenGo, uma plataforma internacional de abaixo-assinados popular entre os ultraconservadores. Aproveita-se da popularização virtual desses pedidos e da repercussão de eventuais brigas públicas. Associados do Centro Dom Bosco estiveram envolvidos em boa parte desses episódios nos últimos anos, como a vinda da filósofa Judith Butler ao Brasil, em 2017, e o veto à exposição Queermuseu no ano seguinte. Há dois meses, os associados causaram tumulto em uma igreja carioca para impedir uma missa pelo Dia da Consciência Negra do Rio de Janeiro. O caso foi levado à polícia pelo pároco responsável. Agora, o Centro Dom Bosco tem outra missão na agenda. Prometem processar as escolas de samba que “blasfemarem” no Carnaval. A Mangueira, campeã em 2019 com uma homenagem a Marielle Franco, levará Jesus à Sapucaí. O samba-enredo fala de um Cristo com rosto negro, sangue índio e corpo de mulher, filho de pai carpinteiro e desempregado.

Guru. O youtuber Bernardo Kurster espalha a palavra na Internet. Foto: Reprodução/Mídia Social

Entre os evangélicos brasileiros, dois em cada dez possuem entre 16 e 25 anos. Entre os católicos, essa fatia cai para 13%, segundo a pesquisa mais recente do Datafolha. Conforme encolhe, essa face mais jovem do catolicismo tem ficado mais conservadora. Desde 2010, decuplicaram as paróquias brasileiras que celebram a missa tridentina. “Esses jovens cresceram sob o papado de Bento XVI, que trouxe valores e também uma estética mais conservadora para a Igreja”, explica o historiador Victor Gama, mestrando da PUC-Minas. Paralelo a isso, diz, o conservadorismo ganhou terreno e ares de contracultura fora da Igreja. Nos anos 60 e 70, fase de ascensão do catolicismo progressista, vicejaram os grupos da Renovação Carismática. Esse movimento sediou uma reação conservadora contra a Teologia da Libertação. Hoje, as respostas binárias do passado oferecem contraponto à abertura promovida por Francisco. Na França, em meio a uma queda vertiginosa na ordenação de padres, um em cada cinco novos sacerdotes em 2018 veio de uma comunidade tradicionalista.

Na última quarta-feira 15, o empresário Pedro Affonseca, presidente do Centro Dom Bosco, reuniu associados para falar sobre a blasfêmia, o crime pelo qual acusa o Porta dos Fundos. Em pouco mais de meia hora, fez várias citações à punição sumária nos tempos do Velho Testamento, pinceladas por incentivos à disposição em “matar” e “morrer” pela fé. “O objetivo não é que ninguém saia e faça justiça com as próprias mãos. Mate o Porchat, mate o Gregório. O Centro Dom Bosco tem certa vocação de atrair malucos”, riu. Disse, porém, não ser “nada irrazoável” que alguém seja condenado à morte por blasfemar contra Jesus Cristo, “desde que condenado pelo Estado juiz, respeitado o contraditório, a ampla defesa, as garantias fundamentais”. Esse crime não consta, porém, no Código Penal brasileiro. Ao menos por enquanto.

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