Em apenas 19 horas, ele ganhou um filho e perdeu a namorada para a Covid-19

Para Cairo Yuri Nascimento, de 24 anos, a dor da perda e e as descobertas da paternidade convivem com a revolta e a indignação

Créditos: Arquivo pessoal

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Sociedade

O primeiro Dia dos Pais de Cairo Yuri Nascimento, de 24 anos, terá sabor agridoce. Há pouco mais de cinco meses, no dia 26 de fevereiro, ele viu seu filho Bento vir ao mundo. No dia seguinte, cerca de 19 horas depois, se despediu para sempre da mãe do bebê, Luana, vítima de complicações provocadas pela Covid-19.

“É no Bento que eu encontro conforto, alívio, ele é meu parceiro de luta para conseguir superar tudo isso”, conta o jovem. “Estar cuidando dele, ter esse momento pai e filho diário me dá um motivo a mais para querer viver, seguir em frente.”

Cairo e Luana se relacionaram por pouco mais de um ano. “Eu não deixei de acreditar nenhum momento na melhora dela”, conta. A esperança era tanta que ele chegou a mandar um áudio para a namorada, explicando como era o bebê, para que ela ouvisse quando saísse do hospital. Mas Luana não chegou a ouvi-lo.

A taxa de mortalidade pelo coronavírus entre grávidas e puérperas é 2,5 vezes maior do que a média nacional, segundo a Fiocruz

“Eu acompanhava o desenvolvimento da gravidez por um aplicativo que ia indicando a forma aproximada do bebê com o passar das semanas”, conta ele, por telefone, a CartaCapital. “Ele nasceu no exato dia que se completavam os oito meses de gestação e o aplicativo indicava que, naquele momento, ele era como um abacaxi. Eu expliquei pra ela que ele era maior do que um abacaxi, falei muita coisa que gostaria que ela tivesse ouvido. Mas, infelizmente, não deu.”

Luana, também de 24 anos, passou uma semana internada em um hospital público de Imperatriz, no Maranhão. Seu quadro piorou e teve que ser levada à UTI e intubada. Bento nasceu logo antes do procedimento, em um parto de emergência, aos oito meses.

No dia da morte dela, 27 de fevereiro, o País havia acabado de completar um ano da descoberta do primeiro caso de Covid-19 em solo nacional, e já ultrapassava a marca das 254 mil mortes. Quase seis meses depois, esse número mais do que dobraria — as mortes em todo o País hoje passam das 560 mil.

A morte de Luana também entra para outra estatística amarga: o Brasil é o país líder em mortes maternas causadas pela Covid-19. Um boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz, divulgado em junho, apontava que, naquele mês, a taxa de mortalidade pelo coronavírus entre grávidas e puérperas era de 7,2%, o que é 2,5 vezes maior do que a taxa nacional de 2,8%.

Para Cairo, a dor da perda e as descobertas da paternidade convivem com a revolta e a indignação. “Quantas pessoas fizeram pouco caso dessa doença, menosprezaram, inventaram mentiras?”, lamenta. “Sobre o caso da Luana mesmo, eu tive que ler muitos comentários falando que ela não tinha morrido de Covid, que era mentira.”

Desde o ocorrido, Cairo dedica a maior parte de seu tempo aos cuidados do filho e, nos intervalos, se dedica aos estudos da graduação em Jornalismo, que cursa remotamente no momento. Também aguarda o andamento da fila para a vacinação onde mora. Ele conta com o apoio da sogra, já que continuou morando com o bebê na casa da ex-namorada, como já faziam antes de seu falecimento.

 

 

Nas interações com o bebê, ele busca desde já manter a história e a memória da mãe de Bento vivas. “Eu sempre falo dela, conto o que ela falaria ou pensaria em determinada situação. Ele vai saber quem foi a mãe dele, o que foi o nosso amor, essa memória vai ser preservada, por fotos, vídeo, história. Ela faz parte da criação dele.”

 

Cairo aproveita o Dia dos Pais para deixar um recado. “As crianças que crescem sem um pai presente perdem. Mas os homens que têm essa oportunidade e a rejeitam perdem muito mais. Eu me vejo um Cairo antes do Bento e outro depois dele. Não percam essa oportunidade, não a joguem no lixo, pois estarão prejudicando a uma criança e a si próprios.”

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Repórter do site CartaEducação

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