Sociedade

Matheus Pichonelli

Deixa a Gretchen trabalhar

por Matheus Pichonelli publicado 03/10/2011 17h59, última modificação 07/10/2011 11h55
Dançarina vira assunto na internet e nega trabalho como garçonete. Ao fundo, público protesta: quer a volta da sua Geni

Leio no noticiário online que causou furor, na última semana, a revelação de que a cantora e dançarina Gretchen anda trabalhando como garçonete nos Estados Unidos. A notícia se espalhou feito vento na internet, provocou discussões acaloradas nas redes sociais e até reação da artista via Twitter, seguida de uma entrevista de esclarecimento em programa dominical.

Tudo porque a autora de clássicos como a “Melô do Piri Piri” fora fotografada com boné e avental em posição duvidosa numa reles lanchonete em Orlando. E contra imagens não há reparo – por muito menos, o atacante Adriano, ex-Flamengo, teve de prestar depoimento à polícia sobre uma foto, que caiu na boca (e nos olhos) do povo, em que aparecia, ao lado de supostos traficantes, empunhando uma suposta arma em uma suposta favela. Tudo suposto, porque a arma era de brinquedo e a pose, uma brincadeira, conforme a justificativa oficial do atleta.

Gretchen não teve a mesma sorte. Não podia dizer que o boné ou o avental eram de brinquedo nem que a lanchonete era uma suposta lanchonete. Se fosse chamado para atestar a veracidade da imagem, como fez com as fotos de Scarlet Johannessen nua, o perito Molina bem poderia confirmar as andanças da dançarina pelo chão da baixa ralé, ainda que no primeiro mundo (o que poderia soar como agravante).

Restou a ela prestar depoimento ao programa do Gugu, e jurar na presença das testemunhas que o flagrante era apenas ambientação para um comercial que gravaria para o café de um amigo (sim, porque sempre pega bem, ao menos por esses lados da transmissão, dizer que se conhece o dono do estabelecimento, qualquer estabelecimento). “Eu tinha que passar dois dias lá como uma garçonete normal”.

Não colou, mas especialistas avaliam que a cantora ainda pode ser absolvida. Mesma sorte não terão alguns colegas meus – uns da infância, outros da maioridade – que caíram no mesmo crime. Faltará a eles um Gugu Liberato para defendê-los nas rodas de conversa, encontros de turma, almoços em família, apresentação para os pais da namorada, ou inquirições na balada quando forem emparedados com a pergunta: “o que você faz na vida?”.

Por esses lados, os círculos sociais não comportam quem responda com um “rapaz, perdi o emprego”; “bicho, fali”, “mano, tá fogo”; “me formei e não consigo emprego”. Quem se atreve é enviado até segunda ordem para o calabouço dos cidadãos de segunda classe. Por isso é mais recomendado que se saia com um “tamos levando”. Ou que se fantasie determinados luxos, como o personagem de Ben Affleck no filme “A Grande Virada”. Pega muito, mas muito melhor, dizer: “Troquei de carro”, “tô financiando um apê”, “trouxe o Playstation de Miami para as crianças”, “tô indo pro meu 18º doutorado sobre a poligamia das frutas do conde”. Mesmo que seja mentira.

No Brasil o futebol é só esporte favorito em dia de jogo: esgotado o tempo regulamentar, não há exercício mais comum do que dividir o mundo entre vencedores e vencidos. O exercício é quase um patrimônio natural, embora com influência da escola americana, que confunde ascensão profissional com dever moral. “O filho da dona Dirce tá super bem: acaba de tirar um carro novo e vai levar a esposa para um cruzeiro nos Estados Unidos”. “E o sobrinho do Ederval? Não tinha onde cair morto e agora acaba de inaugurar sua primeira filial”.

O filho da dona Dirce e o sobrinho do Ederval estão no seleto grupo dos que poderão escancarar conquistas em encontros de turma. A Gretchen não terá a mesma sorte: está condenada à pena de uma população que se deleita em ver a idade chegar, a grana acabar, o brilho apagar – e, como nada se perde, tudo se transforma em chacota de quem realmente acredita que ser flagrado em trajes serviçais soa menos nobre que com algemas em ação da PF. Os primeiros são “coitados” e os segundos, “doutores”.

Ao aparecer em público para negar qualquer relação com o trabalho braçal, qual deputado flagrado com dinheiro na cueca, e ao mesmo tempo falar da dignidade de quem rala para pagar as contas, Gretchen pareceu não entender que a chacota tinha outra natureza.

É que, flagrada em vestes proletárias, ficou estranha ao papel reservado a ela: o papel, único e exclusivo, de Geni da tevê brasileira, como se fosse ela a recriação da personagem de Chico Buarque a quem as pessoas gostavam de arremessar pedras para purgar as próprias contradições.

Como quem exige a repatriação de sua Geni, o País que a mandou rebolar feito cavalo que teve os testículos amarrados agora ri de sua tentativa de abdicar do papel. É como se o boné e o avental não lhe caíssem bem. Trabalhar e pagar as contas? Conta outra, diz a plateia, sedenta para expor nossos supostos fracassos em redes sociais. Neste picadeiro, soaria menos estranho se a dançarina mantivesse o sorriso, e a pose, enquanto as pedras são arremessadas em seu rosto - desde que não perca o rebolado.

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