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Coaches de misoginia

O Judiciário ainda não sabe como lidar com os chamados red pills, a semear o ódio contra as mulheres nas redes sociais

A agressividade quase nunca fica restrita às plataformas digitais – Imagem: Miguel Schincariol/AFP
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Há poucos dias, um autointitulado “coach de masculinidade” viralizou nas redes sociais com um vídeo, no qual ensina os homens a se portar diante de uma mulher. O influenciador Thiago Schutz, responsável pelos canais do “Movimento Red Pill Brasil”, conta que estava “tomando um Campari” e uma moça ofereceu-lhe uma cerveja. Ele prontamente recusou a oferta, porque, se aceitasse, estaria “se curvando” diante da mulher. Eis a primeira dica para manter a postura de macho alfa: recusar todo convite que soe como uma forma de a mulher tentar “colocar o homem abaixo dela”.

O episódio ganhou repercussão quando a atriz e produtora Lívia La Gatto fez um vídeo para ironizar o “ensinamento” e foi ameaçada de morte pelo “Calvo do Campari”, como ficou conhecido na internet, devido ao ridículo comportamento. Se ela não apagasse em 24 horas o conteúdo, que nem sequer citava o nome dele, a solução seria “processo ou bala”, advertiu Schutz em mensagem privada. O episódio serviu para expor uma crescente e preocupante tendência: a formação de clubes do Bolinha que usam fóruns ­online para propagar a misoginia e a violência contra as mulheres.

A turma identifica-se como red pill. A expressão é uma referência ao filme ­Matrix (1999), dirigido pelas irmãs ­Lana e Lilly Wachowsky, duas mulheres ­transexuais. Em certo momento da trama, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre uma pílula azul, que o manteria em um mundo de ilusão, ou uma pílula vermelha, que o despertaria para a realidade. Grupos misóginos passaram a usar o termo para se referir a quem “caiu na real”, um homem “redpillado”. São os masculinistas, homens que veem as mulheres como inimigas porque estas poderiam, a qualquer momento, rebaixá-los à condição de inferioridade.

Lola Aranovich, professora de Literatura em Língua Inglesa da Universidade Federal do Ceará, investiga esses masculinistas há anos, e expõe esse comportamento no blog Escreva, Lola, Escreva. Ela explica que o red pill sempre foi um movimento de ódio às mulheres e “conta com a adesão de milhões de homens frustrados e fracassados no mundo inteiro”. Nesse universo, observa Aranovich, alguns se destacam e encontram maneiras de lucrar com a oferta de cursos e treinamentos. O termo coach seria um mero desdobramento do colonialismo cultural, tão presente no mundo corporativo. “O movimento PUA (Pick-up Artist, ou ‘artista da sedução’) é um dos grupos misóginos que fazem parte do movimento red pill e ganha dinheiro ensinando homens que têm dificuldade de relacionamento com as mulheres a conquistá-las sexualmente. E a tática principal é tratar mal as mulheres, porque um dos princípios do red pill é que a mulher não gosta de homem bonzinho e não sabe escolher.”

Você contrataria esse coach para aprender a ser um macho-alfa? – Imagem: Redes sociais

O discurso começa com uma roupagem de autoajuda, mas escala para a incitação à violência. “Quando falamos em red pill, não estamos nos referindo a um machista genérico. São grupos organizados que agem, muitas vezes, para destruir vidas de mulheres. Eles espalham todo tipo de preconceito, principalmente contra mães solo, gordas e mulheres negras”, denuncia a blogueira feminista, que muitas vezes foi alvo desses grupos.

Para a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, o fenômeno pode ser analisado pelas lentes da psicanálise com o que Freud chama de “angústia da castração”. “É uma ideia mais ou menos assim: ‘Tenho uma coisa muito preciosa que as mulheres não têm e que eu não posso perder’. A base real do corpo é o pênis, e os homens começam a ter muita angústia de que eles possam perder qualquer outro signo de masculinidade, e um desses signos é o poder.” O movimento masculinista ganha fôlego à medida que o debate feminista também avança, pois a igualdade de direitos e o empoderamento feminino são vistos como formas de agressão à masculinidade.

Sem desmerecer qualquer conceito da Teoria Queer, pois os gêneros fluidos não são foco desse debate, e tratando apenas da questão de gênero mais básica, que seria a relação homem e mulher, a psicanalista observa: “Os verdadeiros machos são aqueles que não temem a mulher. São aqueles que se orgulham quando a mulher recebe um prêmio, quando a mulher deles começa a ganhar mais dinheiro. Esses são machos no bom sentido da palavra. Quer dizer, eles estão tranquilos com a masculinidade deles. Os homens que estão tranquilos com a sua masculinidade podem admirar as mulheres, podem eventualmente ganhar menos que uma mulher, que a própria mulher deles, reconhecer as suas qualidades e os seus valores. Os inseguros são justamente esses que viram os chamados ‘machos alfa’. Ou seja, acham que ser homem basta para eles serem superiores”.

O comportamento dos red pills pode ser decifrado com o que Freud chamava de “angústia da castração”, sustenta Maria Rita Kehl

Bruna Camilo de Souza Lima e Silva, doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, estudou em sua tese o fenômeno do masculinismo no Brasil. Para isso, chegou a se infiltrar em alguns grupos no ­Telegram. O relato da pesquisadora é assustador: “Eles veem alguns assassinos como heróis. O caso Eloá, que aconteceu há muitos anos, quando o namorado sequestrou a ex-companheira e a assassinou, é tido como um ‘case de sucesso’. O assassino, Lindemberg Alves, é visto como herói. Na visão desses masculinistas, ela o desmoralizou ao decidir romper o relacionamento. Quando o discurso de um grupo legitima esse tipo de violência, dá força a um homem para ele fazer o que quiser com uma mulher. Reforça o feminicídio, a violência doméstica e várias outras formas de violência, inclusive a psicológica”.

A pesquisadora observa, ainda, que os masculinistas e a extrema-direita estão intrinsecamente ligados. “A extrema-direita vem sendo o grande guarda-chuva que acolhe todos esses tipos de violência, de dominação. Não conseguimos falar de relações de poder sem falar de gênero, masculinidade, feminilidade etc. Não por acaso, muitos masculinistas têm como mentor o falecido ideólogo Olavo de Carvalho. Isso foi uma surpresa para mim, quando me infiltrei nesses grupos.”

“Os verdadeiros machos são aqueles que não temem o sucesso feminino”, pondera Kehl – Imagem: Damião A. Francisco/CPFL Cultura

A Justiça ainda tem dificuldade para tipificar o discurso de ódio de gênero como crime, mas algumas medidas começaram a ser tomadas. No Rio de Janeiro, a procuradora Patrícia Carvão explica que o Ministério Público tinha um núcleo de gênero dedicado exclusivamente ao combate da violência doméstica, como ocorre na maioria das promotorias, mas o grupo está sendo reformulado. Chegou-se à conclusão de que era necessário abarcar outras formas de violência para ampliar a proteção às mulheres.

Mesmo sem um núcleo especializado, as mulheres vítimas de discurso de ódio podem contar com o respaldo do Ministério Público, explica a procuradora. “Uma vítima desse tipo de prática pode nos procurar e receberá o encaminhamento adequado. Primeiro, a gente presta um serviço de acolhimento, direcionando a mulher para atendimento psicológico, se for necessário. Aqui, essa pessoa será informada sobre todos os seus direitos e pode ser orientada a procurar uma delegacia especializada.”

Doutora em Direito Constitucional pela PUC de São Paulo e professora da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, Melina Girardi ­Fachin avalia que os juristas precisam se preparar melhor para enfrentar o discurso de ódio nas plataformas digitais. “Esse tipo de conteúdo é visto por muitos como uma autorização para comportamentos violentos contra as mulheres”, alerta a advogada, uma das coordenadoras do livro Mulheres, Direitos Humanos e Empresas (Editora Almedina). “Precisamos repensar a autorregulação ­privada das plataformas digitais. Até que ponto as empresas de tecnologia devem assumir a responsabilidade por esses discursos de ódio que são veiculados em ­suas plataformas?” •

Publicado na edição n° 1251 de CartaCapital, em 22 de março de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Coaches de misoginia’

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