Centrais prometem “ocupar Brasília” e miram Doria

Sociedade

Três dias após a greve geral, que teve a adesão de 40 milhões de trabalhadores, as centrais sindicais voltaram às ruas do País contra as reformas de Michel Temer no Dia do Trabalhador. Em São Paulo, o Ato Político de Resistência do 1º de Maio, organizado pela CUT e as frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, e a festa de feriado da Força Sindical foram marcados por avisos ao governo de que a pressão contra as reformas continuará.

Os sindicalistas da CUT e da Força também miraram o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que chamou os organizadores do movimento grevista da sexta-feira 28 de “vagabundos”. Na semana passada, Doria tentou, ainda, proibir judicialmente a manifestação da CUT desta segunda-feira 1º. Sua liminar foi derrubada pelo Tribunal de Justiça, mas, segundo a central, permaneceram as tentativas de barrar o protesto.

Segundo integrantes da CUT, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a serviço da prefeitura, tentou rebocar o caminhão da entidade e o da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB) da Avenida Paulista, onde ocorreu a concentração dos manifestantes. Além disso, a CET teria tentado impedir que militantes do Partido da Causa Operária montassem bancas de distribuição de jornais.

Já na rua da Consolação, o carro de som da CUT foi barrado, dessa vez por policiais militares. A assessoria de imprensa da central afirmou que a PM não tinha justificativa clara, e mesmo assim detiveram o carro e os manifestantes seguiram sem ele.

Para o presidente da CUT de São Paulo, Douglas Izzo, a postura do prefeito tucano ajuda a fortalecer a resistência. “A administração pública, que deveria estar aqui para ajudar democraticamente na realização do evento, está para tentar inviabilizar. Mas nascemos na defesa da liberdade de expressão, na luta contra a repressão e continuaremos enfrentando todas as adversidades de todos os golpistas”, afirmou.

Apesar dos esforços contrários de Doria, a CUT reuniu 200 mil manifestantes, segundo a organização. A multidão caminhou até a Praça da República, onde os artistas Emicida, Mc Guimê, Leci Brandão, As Bahias e a Cozinha Mineira, Bixiga 70, Ilu Obá De Min, Sinhá Flor, Marquinhos Jaca e Mistura Popular realizaram apresentações.

Em outra frente, em ato na zona norte de São Paulo, a Força Sindical também disparou contra as reformas e o prefeito paulistano. Durante a festa de feriado da central, sindicalistas revezaram-se no palco para criticar o tucano. “Lave sua boca”, “o que você fez foi cretinice”, e “vagabundo é você” foram algumas das réplicas dos sindicalistas às críticas de Doria.  A entidade estimou 700 mil presentes na festa de feriado

Além de se unirem contra o prefeito, as centrais afinaram o discurso contra as reformas de Temer. Em seu manifesto conjunto do dia do trabalho, CUT, Força e as demais entidades prometeram “ocupar Brasília” caso prosperem as medidas impopulares em tramitação no Congresso.

A ideia foi reforçada pelo presidente da CUT, Vagner Freitas, neste feriado. “Temos que continuar, a greve demonstrou que estamos na ofensiva. Quando for pautada a reforma da Previdência, nós vamos ocupar Brasília e impedir a votação que retira nossos direitos. Estou convocando todas e todos a fazer a maior marcha que a classe trabalhadora já fez para impedir que tirem nossos direitos”.

No ato da Força Sindical, o deputado federal Paulinho da Força (SD-SP), por sua vez, sugeriu que a paralisação de sexta-feira 28 foi só o começo. “Se o governo não entendeu, vai ter mais”, afirmou o líder da central e ainda integrante da base aliada de Temer. 

Está marcado para terça-feira 2 um encontro entre as centrais sindicais e o líder do PMDB no Senado, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), além do presidente da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE), para debater o destino da Reforma Trabalhista, aprovada na Câmara.

Em seguida, na quinta-feira 4, as organizações dos movimentos sindical e sociais se reunirão para discutir os próximos passos. As alternativas são uma marcha até a capital federal ou uma nova greve geral, sendo possível que ambas as ações aconteçam.

Temer não tem mais legitimidade ou condições de governar o Brasil”, afirmou Freitas. “E Lula nos deu a senha ao dizer que ele tem tempo para esperar até 2018, mas os 14,5 milhões de trabalhadores não podem esperar, então é fora Temer, é diretas já”.

Freitas também defendeu a redemocratização dos meios de comunicação que, em sua maioria, deram pouco destaque à greve geral de 28 de abril, diferentemente de veículos internacionais. “Transformar a greve geral em assunto de trânsito é um crime contra a democracia”, disse. 

Encerrando seu discurso de cima do carro de som ainda na Avenida Paulista, o presidente da CUT convocou todos os manifestantes a marchar em Brasília. “Temer apodrece e com ele não podemos deixar que apodreça o Brasil. Chegou a hora de tomarmos em nossas mãos nossos destino, de ter a classe trabalhadora como protagonista, e não essa minoria da elite conservadora brasileira que escraviza nosso povo, desrespeita a democracia, e tenta de maneira vil tirar nossos direitos. Mais importante do que a marcha de hoje até a Praça da República é a marcha até Brasília”.

Leia a íntegra do manifesto das centrais sindicais:

1º DE MAIO DE 2017 – A GREVE DE 28 DE ABRIL CONTINUA

O dia 28 de abril de 2017 entrará para a história do povo brasileiro como o dia em que a maioria esmagadora dos trabalhadores disse NÃO à PEC 287, que destrói o direito à aposentadoria, NÃO ao PL 6787, que rasga a CLT e NÃO à lei 4302, que permite a terceirização de todas as atividades de uma empresa!

Sob a palavra de ordem “Em 28 de abril vamos parar o Brasil” todas as centrais sindicais e suas bases se mobilizaram, de norte a sul do país, impulsionando uma imensa paralisação das atividades e grandes manifestações de protesto. Trabalhadores dos transportes urbanos, das fábricas, comércio, da construção civil, prestadores de serviços, escolas, órgãos públicos, bancos, portos e outros setores da economia cruzaram os braços. E este ato contou com o apoio dos movimentos sociais, como a UNE, de entidades da sociedade civil como a CNBB, a OAB, o Ministério Público do Trabalho, associações de magistrados e advogados trabalhistas, com o apoio dos nossos companheiros do movimento sindical internacional, e contou também com uma enorme simpatia popular.

Com nossa capacidade de organização, demos um recado contundente ao governo Temer e ao Congresso Nacional: exigimos que as propostas nefastas que tramitam em Brasília sejam retiradas. Não aceitamos perder nossos direitos previdenciários e trabalhistas.

Nos atos de todas as centrais sindicais pelo país neste 1º de Maio de 2017, dia do trabalhador, reafirmamos nosso compromisso de unidade para derrotar as propostas de reforma da previdência, da reforma trabalhista e da lei que permite a terceirização ilimitada.

O próximo passo é Ocupar Brasília para pressionar o governo e o Congresso a reverem seus planos de ataques aos sagrados direitos da classe trabalhadora. Sobre essa base, as centrais sindicais estão abertas, como sempre estiveram, ao diálogo.

Se isso não for suficiente assumimos, neste 1º de Maio, o compromisso de organizar uma reação ainda mais forte.

VIVA A LUTA DA CLASSE TRABALHADORA! VIVA O 1º DE MAIO!

ABAIXO AS PROPOSTAS DE REFORMAS TRABALHISTA E DA PREVIDÊNCIA!

NENHUM DIREITO A MENOS!

Assinam os presidentes das centrais sindicais:

Antônio Neto, da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB)

Adilson Araújo, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)

Wagner Freitas, da Central Única dos Trabalhadores (CUT)

Paulo Pereira da Silva, Paulinho, da Força Sindical

José Calixto Ramos, da Nova Central (NCST)

Ricardo Patah, da União Geral dos Trabalhadores (UGT)

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