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Brumadinho, MG

Sociedade

Ah, aconteceu? Foi como em Angra dos Reis, no pequeno município do Vale do Rio Preto, RJ, como no Rio Bumba, em Niterói, ou mais recentemente em Mariana, Minas Gerais? Talvez, como na boate Kiss em Santa Maria, RS.

Escrevo para CartaCapital neste 31 de janeiro. Rumo ao trabalho, invariavelmente, ouvindo a Rádio USP, se não o melhor da música brasileira, ótimas aulas desde que deixei aquele ilustre campus, quando cursava Ciências Sociais.

Presto atenção em um professor, especialista em segurança, que diz faltar ao Brasil a “cultura da segurança, da prevenção, tudo isso trocado pela cultura da ganância”.

– Ah, pode-se ir ao limite de 8 metros? Tudo bem, mais dois metros não mudarão nada. E assim, a barragem chega aos 80 metros. Quem fez isso? Os cinco técnicos já presos? Que bom. Até que enfim foram tomadas providências rápidas.

Porra nenhuma! O capitalismo selvagem deste país sem peias que fez isso.

Não acompanho os números de mortos, desaparecidos, feridos, ou sem saberem como voltarão à lida laboral. As folhas e telas cotidianas fazem isso para mim. Todas comiseradas, como estaremos eu e vocês. Sugiro marcha e culto ecumênico no Sacrário de Aparecida do Norte, assim estarão garantidos o céu aos mortos e esperançosos aqueles que têm pessoas desaparecidas.

A falta da cultura da prevenção, dá como exemplo o professor: “quem instalaria um refeitório em local próximo a locais de possíveis deslizamentos futuros?”

Deem-me a licença, mas a cobertura da tragédia de Brumadinho nada tem de incomum se comparada às tragédias de nosso cotidiano, algumas citadas acima. O número de mortos por assassinato pode comprovar as atrocidades feitas contra populações pobres, negras ou minoritárias.

“Quem instalaria um refeitório em local próximo a locais de possíveis deslizamentos futuros?”<i>(Crédito: Corpo de Bombeiros/Divulgação)</i>

Essas são assassinadas diariamente nos chamados bares de chacina, e vocês pouco ligam e ainda pedem para se armar. Para quê? Morrerem em mãos mais preparadas de corrupção explícita contra a o Estado institucionalizado? Ou para caçarem perdizes no sul do Brasil ou castores dos EUA?

Se de parente ou amigo próximo, clamam por punição e mais policiamento. Numa metrópole como São Paulo, o quê. Uma viatura em cada rua? Façam a conta.

Já pensaram em caçar e matar a burrice lendo mais? Algum livrinho, até gibi, aí em suas mãos?

Morrem milhares em acidentes rodoviários pelo país, embarcações fluviais afundam e afogam populações da região Norte, tudo passa. Cai um avião com 150 pessoas e as folhas noticiarão isso por semanas, ainda mais se alguém ilustre estiver entre as vítimas.

Conheço Brumadinho e seu entorno. Não por minérios e Vale, mas pela pequena agricultura até aonde me levaram 44 anos de andanças.

Em 2018, lá o IBGE contava 40 mil pessoas. Acredito a maioria dedicada à mineração e à Vele. Mas ainda tenho dúvida se a participação agrária não teria a mesma dimensão.

Por lá visitei muitas lavouras de hortifruticultura e famílias vivendo delas. Está na microrregião de Belo Horizonte. Tem, portanto, acesso fácil à capital do Estado. Se destaca pelos seus mananciais de água em região montanhosa, como mostra a foto que ilustra esta coluna. Já viram, né?

O conceito brasileiro hoje de segurança é vatapá: “Bota um ‘bocadinho’ mais”, até que exploda em otimização de lucros, bônus e tragédias.

Na região metropolitana de Belo Horizonte existem 14 municípios. Entre eles, Brumadinho é onde mais se faz agricultura familiar. Quando lá estive eram 100 hectares de feijão. Hoje em dia, já estavam em 150. Milho, hoje, 500 hectares. E muita, muita, hortifruticultura e gado leiteiro.

Poderia me estender. Pra quê, se tudo foi às desgraças e boi vivo nem mais “se tange, engorda e mata”, como queria Geraldo Vandré, mas com gente, hoje em dia, não é diferente? Indignem-se. Inté.

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Criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

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