Sociedade

Não à homofobia

Ato contra homofobia reúne 500 pessoas em São paulo

por Lucas Conejero — publicado 25/11/2010 17h02, última modificação 30/10/2011 22h48
Protesto foi realizado na região central, perto da Universidade Presbiteriana Mackenzie; vias de acesso foram fechadas pelos manifestantes. Por Lucas Conejero

No final da tarde da última quarta-feira, 24, um ato de repúdio ao polêmico "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", assinado pelo  chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie Augustus Nicodemus Gomes Lopes, aconteceu em frente a entrada principal da Universidade, no bairro de Higienópolis, capital paulista.

Sob cartazes que diziam "educação laica, chega de inquisição" e “Eu sou, e daí?” 500 manifestantes, segundo a Policia Militar, fecharam completamente a rua Itambé e parte da rua Maranhão. Com apoio de um pequeno carro de som, líderes do movimento LGBT discursaram para uma platéia barulhenta.

No começo da noite, o grupo formado por militantes LGBT e estudantes mackenzistas seguiu em marcha pelas ruas do centro da cidade até chegar à estação Brigadeiro do metrô, na Avenida Paulista, onde um jovem foi agredido no último dia 14 por aparente motivação homofóbica.

“Essa manifestação surgiu no Facebook. Somos jovens universitários, sem partidarismo ou envolvimento com instituições governamentais. O que nos une é a indignação perante o posicionamento da universidade,” dizia o principal manifesto do ato.

De acordo com os organizadores da manifestação, a posição “conservadora e reacionária” do chanceler “jogou no lixo” todo conhecimento adquirido pela humanidade “em história, ciências sociais e metafísica” ao refutar com argumentos bíblicos um projeto de lei.

O "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", publicado recentemente e já retirado do site da universidade, repudia a aprovação do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, que propõe a criminalização da homofobia.

Em nota, a assessoria de imprensa do Mackenzie "se posiciona contra qualquer tipo de violência e descriminação", mas nitidamente defende o ponto de vista do chanceler ao afirmar “ser contra tentativas de se tolher a liberdade de consciência e de expressão garantidas pela Constituição."

“Nós, de várias denominações cristãs […] nos levantamos contra o uso indiscriminado do termo “homofobia”, que pretende aplicar-se tanto a assassinos, agressores e discriminadores de homossexuais quanto a líderes religiosos cristãos que, à luz da Escritura Sagrada, consideram a homossexualidade um pecado”, diz o texto do chanceler.

Segundo o francês Stephen Barris, membro do departamento de comunicação da ILGA (International Lesbian and Gay Association) presente na manifestação, a reação demonstra a vitalidade e a força do movimento LGBT no Brasil.

“Diferente de outros países, aqui não existem direitos básicos garantidos, como por exemplo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ao mesmo tempo, políticas públicas contra a descriminação estão em andamento. Essa peculiaridade é muito interessante e com certeza será debatida pela comunidade mundial”, comenta Stephen.

“Nas últimas semanas, setores conservadores da sociedade realizaram ações intensas. Não só contra  homossexuais, mas também contra nordestinos. Alguns segmentos de direita sentiram-se frustrados com a derrota nas urnas e partiram para o ataque”, declara o advogado Eduardo Piza, que também acompanhava a manifestação. Piza é presidente do Instituto Edson Neris. A entidade leva o nome do adestrador de cães morto brutalmente por skinheads nas ruas do centro da capital paulista no ano 2000.

O advogado afirma que discutir a ausência de uma legislação protetiva não configura tolher a liberdade de expressão de nenhuma instituição. “Se você descriminar um negro, pode ser preso, mas se descriminar um homossexual não pode. Esse é o problema principal pois endossa a violência. Se a lei existisse, os rapazes que agrediram o garoto na Paulista não estariam protegidos pela certeza da impunidade”, completa.

Nitidamente intimidados, professores da instituição que acompanhavam o protesto afirmaram temer retaliações caso opinassem sobre o assunto. O DCE – Mackenzie manteve posição conservadora e chapa branca, não participou do ato e procurado pela reportagem, não pronunciou–se oficialmente contra o chanceler.



registrado em: Sociedade