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Aplicar o Enem apenas aos prejudicados “é a única solução”

por Paula Thomaz — publicado 18/11/2010 12h32, última modificação 18/11/2010 15h36
Para professora de pós-graduação em Educação da PUC-SP, Isabel Cappeletti, abrangência do Enem é o que torna os erros da prova graves

Para professora de pós-graduação em Educação da PUC-SP, abrangência do Enem é o que torna os erros da prova graves

Uma semana após a realização da última prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) o ministério da Educação decidiu por reaplicar a prova aos cerca de dois mil estudantes prejudicados por erro da prova amarela. Prestes a marcar a data do novo exame, nesta terça-feira 17, a juíza federal Karla Almeida Miranda Maia, da 7ª Vara Federal do Ceará, concedeu uma nova liminar que permite a todos os estudantes que se sentirem prejudicados a fazer uma nova prova. A Advocacia Geral da União já recorre da decisão por acreditar que as providências adotadas pelo MEC são suficientes.

Em entrevista ao site de CartaCapital, a professora de pós-gradução em Educação da PUC-SP, Isabel Cappeletti, acredita que a solução proposta pelo MEC “não deixa de ser paliativa, mas diante das expectativas dos alunos e do alto custo já investido, creio ser a única solução: afinal quem paga as contas somos todos nós.”

Previsto em contrato entre o MEC e a gráfica, os custos da reaplicação serão arcados pela RR Donnelley, que assumiu o erro da impressão da prova amarela.

Leia a entrevista abaixo.

A Paula Thomaz

CartaCapital: Qual modelo de Enem a sra. considera o mais adequado: o que avaliava somente o ensino médio ou o atual, que passou a valer como ingresso para o ensino superior?
Isabel Cappeletti
: Os exames externos que fazem parte do Sistema  Nacional de Avaliação, como é o caso do ENEM,deveriam enfatizar o objetivo de recolher informações que subsidiassem a definição de Políticas Públicas em função dos resultados obtidos.O Estado tem o dever de avaliar os resultados de seus investimento para tomar decisões em benefício da qualidade sócio-cultural da educação. O desempenho dos alunos do Ensino Médio nas provas é apenas a ponta do iceberg, não tem o poder explicativo das causas dos fracassos e/ou sucessos conquistados. Na minha opinião, não é função do governo fazer vestibular para as universidades, além do que, as diferenças regionais e de propostas são grandes graças ao que ainda resta de autonomia na proposição e execução de seus projetos pedagógicos, que muitas vezes são alterados em função do desejo de que seus alunos se saiam bem nas provas do ENADE.

CartaCapital: Como a senhora vê as múltiplas funções do Enem?
IC:
A questão não está na multiplicidade de funções, mas no uso que se faz dos resultados, como por exemplo o rankiamento a serviço da regulação do mercado. No caso do PROUNI, que tem se revelado uma boa política, e que precisa de uma prova seletiva, porque não utilizar o ENEM economizando custos financeiros e operacionais?

CartaCapital: Acha possível o Enem se tornar a única forma de avaliação para ingresso nas universidades federais no futuro? O que precisa mudar no atual modelo?
IC
: Já respondi essa questão, quando considero que não é função do governo fazer vestibular para ingresso nas universidades, até mesmo porque nos dois últimos anos tem demonstrado a dificuldade de operacionalizar a execução de um projeto gigantesco como esse.

CartaCapital: A decisão do Ministério, de aplicar a prova apenas aos prejudicados no último exame é a mais acertada?
IC:
Não deixa de ser uma solução paliativa, mas diante das expectativas dos alunos e do alto custo já investido, creio ser a única solução: afinal quem paga as contas somos todos nós.

CartaCapital: Os erros desta edição do Enem foram minimizados por Fernando Haddad. A sra. acha que foram menos graves mesmo ou o exame não poderia ter nenhum erro?
IC:
A atividade humana está sempre sujeita a erros, e sinceramente acho uma pena que o ministro tenha que passar por uma situação de tanto constrangimento no final deste seu mandato. Ao minimizar os erros ocorridos, o ministro está exercendo o papel público que pode exercer diante das circunstâncias. Não seria elegante, nem  mesmo ético, expor seus colaboradores. Creio que em seu gabinete o tom é outro.

CartaCapital: Muitos exames/vestibulares costumam ter questões anuladas por ter duas opções de respostas ou erro de enunciado. Se ocorre em vestibulares, por que quando é o Enem isso se torna grave?
IC:
Talvez  por sua abrangência, divulgação, pelo interesse que desperta na mídia, e pela promessa, que não tem sido ratificada por pesquisas já realizadas, de acesso às universidades. Aberto a todos os alunos concluintes do Ensino Médio, a hipótese provável, é que os alunos que tiveram um percurso escolar de qualidade, como tem acontecido, ocuparão as vagas oferecidas.

CartaCapital: O ministro da Educação levantou a hipótese de o Enem ter várias edições durante o ano. Como a senhora enxerga esta possibilidade?
IC
: Sinceramente espero que fique na hipótese. Já pensou quantos questionamentos vão surgir com duas provas diferentes e com duas operações de alto custo? Gostaria de ver o ENEM cumprir seu objetivo primeiro de avaliar o sistema de ensino agregando outras variáveis e outros procedimentos de avaliação, e divulgando intensamente na Mídia, não os rankings entre instituições de ensino, mas as políticas  públicas definidas em função dos resultados de uma avaliação, e não apenas de um exame.

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