Sociedade

A situação de indígenas após as fortes chuvas em Santa Catarina

Atendimento do Ministério dos Povos Originários na Terra Indígena Ibirama-LaKlanõ foi ampliado; riscos aumentam com novas chuvas

Santa Catarina - Força-tarefa do governo federal, coordenada pelo ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, visita municípios de Santa Catarina atingidos pelas fortes chuvas. Foto: Dênio Simões/MIDR
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O Ministério dos Povos Indígenas anunciou novas medidas de apoio a povos indígenas da Terra Indígena Ibirama-LaKlanõ, em decorrência das fortes chuvas que atingem a região sul do Brasil, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, onde habitam povos Xokleng, Guarani e Kaingang.

Entre as medidas está a ampliação do efetivo da defesa civil, com levantamento de quantos indígenas já foram resgatados para local seguro e aqueles que ainda se encontram ilhados ou em situação de risco, visando acelerar as remoções. Também foi solicitado um levantamento das quantidades de alimento e água potável já disponibilizadas à população indígena resgatada, bem como apresentação de um plano de continuidade dessas medidas até o fim da situação de calamidade.

As autoridades também prosseguirão com o atendimento de saúde aos indígenas já resgatados, incluindo o fornecimento de medicamentos e de profissionais de saúde em número compatível com a população atingida.

O ministério determinou a apresentação imediata de laudo que comprove a segurança do comportamento das águas após o fechamento das comportas da Barragem Norte, sobretudo após o transbordo das águas acima da estrutura de contenção. Além disso, um plano de contingência deverá ser apresentado para o caso de rompimento da construção de contenção, que implicaria em inundações abruptas e sem precedentes no Vale do Itajaí, segundo o governo.

Outra iniciativa anunciada é a criação de um Gabinete interministerial de Crise Humanitária e Ambiental, que será composto por agentes federais, estaduais e da sociedade civil. O objetivo é realizar uma gestão integrada da situação emergencial, além de facilitar a interlocução entre agentes públicos e a população afetada.

Indígenas a abandonam suas casas

Não há mais lugar seguro nas aldeias da Terra Indígena Ibirama La Klanõ, em José Boiteux, Santa Catarina. Muitos moradores já deixaram suas casas e agora correm para salvar móveis e objetos que deixaram para trás.

“Nós estamos usando a igreja e o posto de saúde como abrigo. Mas há muitos que não querem sair de casa e estão em área de risco”, diz por telefone à DW, nesta sexta-feira (13/10), o cacique Voia de Lima, liderança do povo xogleng, também denominado laklanõ.

Acompanhado de um grupo, o cacique montou um acampamento improvisado de lona perto da barragem Norte. A estrutura, construída dentro do território indígena para segurar o nível do rio Itajaí-Açu e diminuir os impactos das cheias no Vale do Itajaí, está com as comportas fechadas por determinação do estado de Santa Catarina.

Barragem acima, onde moram os habitantes da Ibirama La Klanõ, a água represada acelera o alagamento nas comunidades. O acesso por terra a muitas das nove aldeias já não existe mais, e uma delas está sem comunicação devido ao alagamento de postes.

“É a pior situação que já vivemos. E a Defesa Civil abandonou a gente”, lamenta o cacique, que percorre as casas isoladas, levando mantimentos e fraldas que a comunidade recebe de doadores.

Estado de calamidade

O risco de inundação continua alto na região, segundo boletim do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Até esta sexta-feira, o órgão havia emitido 57 alertas de alagamentos e deslizamentos vigentes.

No estado vizinho, na região sudoeste do Rio Grande do Sul, o risco de enchentes passou a ser alto, devido à propagação da onda de cheia em rios na bacia do rio Uruguai. Segundo o Cemaden, cidades às margens de rios e córregos localizados em áreas urbanizadas, podem sofrer alagamentos.

Em Santa Catarina, 113 dos 295 municípios declararam situação de emergência desde o começo das chuvas fortes, no início de outubro. Estima-se que mais de 14 mil pessoas estejam desabrigadas até o momento.

Em Blumenau, que fica às margens do Itajaí-Açu, a Oktoberfest, considerada a maior festa alemã do continente, reabriu a venda de ingressos nesta sexta-feira. Sua programação, que vai até 29 de outubro, chegou a ser suspensa alguns dias devido às fortes chuvas e risco de alagamento.

Sem informações para os indígenas

Em comunicado publicado em seu site, a Defesa Civil de Santa Catarina informou que monitora o nível da barragem Norte, que estaria com 96,5% da sua capacidade. A água armazenada começou a verter – passar para o outro lado da estrutura – nas primeiras horas do sábado.

“É importante destacar que o vertimento de barragens é uma operação controlada e monitorada de perto por equipes técnicas”, afirmou o órgão na nota.

O cacique Voia Lima, que acampa ao lado da estrutura, afirma que ainda não viu funcionários do governo no local fazendo vistorias: “Só vemos pessoas curiosas que vêm aqui fotografar e nos fazer doações.”

Em Taió e Ituporanga, que já verteram parte da água, até 125% do volume do reservatório foi contido pelas estruturas, informa a Defesa Civil, frisando que isso teria ajudado a reduzir o nível dos rios e os danos provocados pelas cheias no Vale do Itajaí.

Ainda segundo a nota da Defesa Civil, o controle na barragem Norte “não representa qualquer risco de inundação para o município” de José Boiteux. Não há qualquer menção aos impactos na Terra Indígena Ibirama La Klanõ.

(Com informações de Agência Brasil e DW)

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