A Maré e o vírus: o dia a dia no complexo de favelas carioca em meio à pandemia

'A cultura da sociabilidade, que faz funcionar a vida na favela, entra em tensão com o isolamento social, principal defesa contra o vírus'

Um morador busca distração no isolamento, o ativista Henrique Gomes visita Seu Luiz, a psicóloga Priscila, que mora no ponto mais alto e rua e Dona Penha com os filhos dos vizinhos (Fotos: Antonello Veneri)

Um morador busca distração no isolamento, o ativista Henrique Gomes visita Seu Luiz, a psicóloga Priscila, que mora no ponto mais alto e rua e Dona Penha com os filhos dos vizinhos (Fotos: Antonello Veneri)

Sociedade

Desde a minha adolescência eu transito por toda a Maré: através da minha relação com a música, conheci pessoas e lugares de todo o complexo, onde moro até hoje. Esse conhecimento profundo do território que construí ao longo dos anos foi fundamental para a minha entrada na Redes da Maré, uma ONG que há mais de 20 anos atua em áreas como educação, arte, cultura, segurança pública e desenvolvimento comunitário dentro da Maré.

Hoje estou como mobilizador e articulador comunitário, e sempre tive forte ligação com a rua e com as pessoas. Com a pandemia de Covid-19, fui obrigado, como muitos, a reorganizar minha rotina de trabalho e, desde setembro de 2020, atuo na “linha de frente” em um centro de testagem direcionado aos moradores da Maré. Coordenamos o programa “Isolamento Seguro”, em parceria com a Fiocruz, que consiste em dar suporte ao morador diagnosticado com Covid-19, para que o mesmo permaneça em sua própria casa, oferecendo insumos de limpeza e de higiene pessoal e alimentação pronta (em quentinhas individuais) durante o período de isolamento e doença.

Pensar em isolamento social como medida de proteção não é simples no Complexo da Maré. É preciso levar em conta o contexto cultural e social específico e evitar produzir imaginários estereotipados e universalizantes sobre a favela.

Henrique Gomes e seu Luiz (Foto: Antonello Veneri)

A Maré é múltipla e complexa, organizada a partir da dinâmica social. Desde sempre, neste lugar, as ferramentas comunitárias funcionam seguindo esse princípio: cuidado compartilhado de crianças e idosos, coletividade na preparação da comida, mutirões para “bater a laje”, brincadeiras na rua e outras práticas culturais (música e festas de aniversário ao ar livre…) são características da favela e explicitam a sociabilidade como essência. A isso se somam as questões objetivas de estrutura física que temos na favela. O fato de as casas serem, em sua maioria, de tamanho reduzido, transforma a rua em um espaço efetivo de sociabilidade, como uma “casa expandida”. A rua como possibilidade de existência e respiro, o contato com o outro, como bases para sobrevivência, refletem práticas e modus operandi históricos nas populações subalternizadas e periféricas.

Dentro de um espaço sistemático e intencional de precariedade e ausência de direitos básicos, como a falta de acesso à moradia digna, à saúde mental e física, à segurança pública, ao lazer, temos nesses encontros uma estratégia de construir alternativas de acesso.

 

Dona Penha cuida dos filhos dos vizinhos (Foto: Antonello Veneri)

A sociabilidade é uma práxis cotidiana responsável pela manutenção da vida nas comunidades, principalmente nesses tempos desafiadores, que deixaram claro que nunca estaremos no mesmo barco diante de desigualdades sociais tão alarmantes.

 

No contexto pandêmico, essa cultura da sociabilidade, que faz “funcionar” a vida na favela, entra em tensão com o isolamento social, principal mecanismo de defesa contra o vírus. 

 

Logo em seguida ao fechamento das escolas, precisei deixar minha filha Alice na casa da sogra, para que eu e minha esposa pudéssemos continuar trabalhando. O entendimento de que a pandemia não ia terminar tão cedo me fez começar a praticar uma forma pessoal de sociabilidade, a “coronogamia”. “Corona” referente ao vírus e “gamia”, sufixo que acompanha termos que classificam tipos de relacionamentos, como monogamia e poligamia. Nesse sentido, o neologismo “coronogamia” diz respeito a escolher uma família e com ela acordar uma “fidelidade” nas visitas e no recebimento em casa, como forma de proteção, sem cortar vínculos presenciais necessários para a sobrevivência.

Sendo impossível, num contexto de favela, privilegiar um ideal de trabalho remoto e isolamento seguro dentro de casa, achei a “coronogamia” uma forma de manter afetos. Eu e Andreza, minha esposa, escolhemos uma família e, nessas visitas, fortalecemos uma relação entre as nossas duas casas, com intuito de que essa sensação de sociabilidade permanecesse, sendo uma forma de fissurar a dureza imposta pelo isolamento, que interfere diretamente na “essência” dos territórios da favela.

Constatei que a maioria das pessoas estava fazendo e agindo de maneira muito semelhante à minha, mantendo uma ideia de “normalidade” na relação com outras pessoas, criando relações de “coronogamia”. Não acredito que haja uma reflexão profunda que faça com que essa prática seja intencional, ao contrário, há uma espontaneidade natural em justificar o contato, uma ótica muito peculiar dos territórios favelados, que materializam o conceito de comunidade e família estendida como práxis organizacional e de existência.  

Os meninos improvisam um pingue-pongue na rua (Foto: Antonello Veneri)

Nesse contexto, a “coronogamia” se estabelece como um processo orgânico de relações. É um desafio imaginar o cenário para os próximos meses. Provavelmente, a situação será ainda mais difícil, mas mantenho a esperança de que possamos refletir com os aprendizados advindos da contradição do cotidiano e da práxis favelada sobre sociabilidade e prevenção. 

Nesse contexto, uma prioridade é ampliar a discussão, fugindo de clichês descontextualizados que apenas culpam os moradores de favelas sobre os efeitos de não seguirem os “protocolos” (uso de máscara, isolamento social etc.). Participar desse debate é importante, nesta época de distanciamento, para entender e, paradoxalmente, se aproximar do outro.  

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº1149 DE CARTACAPITAL, EM 18 DE MARÇO DE 2021
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É músico, coordenador de projetos na ONG Redes da Maré e está cursando Serviço Social na UFRJ. Mora e trabalha no Complexo da Maré, um conjunto de 16 favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro

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