1 ano da tragédia de Brumadinho: dramas continuam e Vale recupera valor

O rompimento da barragem de Córrego do Feijão matou 270 pessoas em 25 de janeiro de 2019. Muitas feridas seguem abertas

(Foto: AFP)

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Sociedade

O balanço de uma tragédia como a de Brumadinho não precisa ir muito além do número de vítimas para ter as dimensões compreendidas: há um ano, o rompimento da barragem de Córrego do Feijão matava 270 pessoas naquele que seria um dos maiores acidentes de mineração do mundo.

No último dia 21, o Ministério Público de Minas Gerais denunciou o ex-presidente da Vale, Fábio Schvartsman, dez funcionários da mineradora e cinco da consultoria alemã Tüv Süd por homicídio duplamente qualificado por cada uma das vítimas do desastre do dia 25 de janeiro de 2019.

A denúncia, apesar de ter chegado, não dá conta de abarcar toda a dinâmica de Brumadinho após a perda de quem ali trabalhava, morava, descansava a turismo ou estava de passagem. Entenda as principais linhas sem nó da história que, depois do acidente de Mariana, levou o Brasil a ficar de luto novamente.

Quem pode enterrar seus mortos?

São 270 vítimas, mas nem todas as famílias tiveram o direito de enterrar seus entes. Onze pessoas não foram encontradas até hoje, apesar do trabalho incessante do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais.

São seis mulheres e cinco homens que, no momento da tragédia, estavam no refeitório da Vale – com a maioria das outras vítimas – ou em cima da barragem. Cerca de 95% do território que os mais de 9,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos devastaram já foram vistoriados pelas equipes, mas ainda nada.

E para quem fica?

As sequelas emocionais para quem sobreviveu ao rompimento da barragem deixaram os habitantes de Brumadinho à mercê de ansiolíticos e antidepressivos. Dados da Secretaria Municipal da Saúde mostraram, também, um aumento no número de suicídios e tentativas de suicídio no município.

No primeiro semestre de 2019, foram registradas 39 tentativas de suicídio na cidade – uma alta de 23% em relação ao mesmo período de 2018. Em relação aos antidepressivos, o uso aumentou aproximadamente 60% de um ano para o outro. Para os ansiolíticos, a porcentagem chega a 80%.

Além disso, moradores da cidade apresentam estresse com o constante barulho das máquinas e helicópteros que atuam nas áreas atingidas pela lama. A necessidade de sair dos antigos lares, que foram destruídos ou afetados na estrutura, foi um fator extra na abrupta mudança de vida de quem sobreviveu.

A tragédia de Brumadinho vai muito além do que se noticiou (Foto: André Mantelli)

À Vale, o lucro

Enquanto a população de Brumadinho ainda sofre inúmeras consequências do desastre, o mercado tem o privilégio de atuar de maneira técnica – tanto que a empresa-algoz pelo desastre já recuperou uma boa parte de seu valor de mercado desde o ano passado. No começo de janeiro, as ações da mineradora chegaram a ultrapassar, por alguns centavos, o valor do dia 25 de janeiro de 2019.

Segundo um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo, já foram desembolsados mais de 6,55 bilhões de reais em indenizações, ações com reparação e despesas em relação ao acidente em 2019. O valor, no entanto, é menor que o juros sobre o capital que a empresa distribuiu aos acionistas no mesmo ano, que chegou no patamar dos 7,25 bilhões de reais.

Em relação aos pagamentos feitos para a população, segundo a empresa, entre 10 e 15 mil pessoas recebem integralmente o auxílio emergencial de um salário mínimo por adulto.

“Para as ações de reparação e compensação pelo rompimento, a empresa possui provisionados recursos de 24,1 bilhões de reais. Este orçamento prevê repasses para programa de indenizações, intervenções ambientais, projetos socioeconômicos, apoio a medidas do poder público e descaracterização das barragens a montante em Minas Gerais”, escreve a Vale em um portal criado, em seu site, para informar sobre os planos feitos até o momento.

Um ponto final após “Mariana e Brumadinho”

Um ano depois de Brumadinho, que veio depois de um desastre suficientemente trágico como o de Mariana, o Brasil ainda tem 41 barragens de mineração sem declaração de estabilidade e 17 sem planos de emergência nas mãos das autoridades, como prevê a lei.

De acordo com o Relatório de Segurança de Barragens 2018, em dezembro pela Agência Nacional de Água (ANA), existem 68 barragens classificadas como “críticas”, isto é, com algum comprometimento estrutural importante, ainda ativas no Brasil.

O número representa um aumento de 51% em relação a 2017, quando o relatório apontou 45 estruturas com essa classificação. Em 2016, foram registradas 25. Entre as estruturas problemáticas, estão 4.830 barragens – entre as quais 1.742 são usadas para irrigação, 990 para abastecimento humano, 687 para hidrelétrica e 492 para contenção de rejeitos da mineração.

Há ainda estruturas voltadas para a dessedentação animal, recreação, aquicultura, entre outros. Entre as mineradoras, a Vale é a que aparece com o maior número de estruturas enquadradas: são 120.

*Com informações da Agência Brasil

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