Vacinas brasileiras contra a Covid patinam por falta de dinheiro e interesse do governo

Para além da Butanvac, mais de uma dezena de projetos financiados por startups e universidades penam para conseguir recursos federais

Foto ilustrativa: Governo do Estado de São Paulo

Foto ilustrativa: Governo do Estado de São Paulo

Política,Saúde

O Brasil parou para ver a enfermeira Mônica Calazans tomar a primeira dose de uma vacina contra a Covid-19 no País, o marco inicial da imunização e da esperança pelo fim da crise sanitária vigente.

Mas, agora, em um futuro ainda incerto sobre o quanto durará a imunidade vacinal contra o SARS-COV-2, a busca por vacinas 100% brasileiras esbarra em uma batalha para garantir investimentos mínimos para levar adiante as pesquisas. Tudo isso em meio à falta generalizada de recursos para a ciência.

O Ministério da Saúde, a Anvisa e a Rede Vírus (braço do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação criado para mapear pesquisas de combate ao coronavírus em 2020), acompanham ao menos 20 projetos de desenvolvimento de vacinas brasileiras. Quase todas ainda estão em fase pré-clínica — a exceção é a vacina Butanvac, desenvolvida pelo Instituto Butantan.

Outras duas, embora em fase preliminar, também são consideradas promissoras: a Versamune, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e a Spintech, desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais.

No meio do caminho, pesquisadores enfrentam a frágil estrutura brasileira em relação a centros imunobiológicos ou unidades fabris capazes de produzir vacinas — não à toa, o Butantan corre para expandir sua operação para viabilizar uma produção nacional da Coronavac ainda este ano, — e na mais aguda crise de financiamento da ciência dos últimos anos.

Mesmo com a mobilização causada pela pandemia e com repasses do MCTI, o interesse do estado brasileiro em ter um imunizante 100% nacional parece mínimo. 

No caso da Butanvac, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga chegou a afirmar na CPI da Covid que a vacina seria “uma promessa na tecnologia brasileira e no desenvolvimento do complexo industrial da saúde”, mas não cravou, por parte do Ministério, nenhum financiamento e mencionou apenas conversas genéricas com o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas.

“Dentro dos BRICS [bloco formado entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], por exemplo, nós somos o único país que ainda não tem uma vacina testada em seres humanos”, pontua Flávio Guimarães da Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e um dos pesquisadores responsáveis pela Spintech.

O interesse do estado brasileiro em ter um imunizante 100% nacional parece mínimo

A realidade dos pesquisadores é de cortes e incertezas. A Versamune viu-se sem um crédito extraordinário de R$ 200 milhões para a execução das fases na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP após veto do presidente Jair BolsonaroAtualmente, o financiamento enviado do MCTI foi de  3,8 milhões de reais para a fase pré-clínica já concluída. O consórcio que desenvolve o imunizante tenta mais captar 30 milhões para viabilizar as fases I e II após aval da Anvisa. Nenhuma sinalização foi dada. 

A Versamune, que é fruto de uma parceria da startup brasileira Farmacore, da americana PDS Biotechnology e da FMRP, havia recebido um aporte inicial de 5 milhões de dólares das duas empresas antes de apresentar projeto a demais parceiros, entre eles o Ministério da Saúde, explicou a CEO da Farmacore, Helena Faccioli Lopes. 

Com a documentação já submetida à Anvisa e em fase de ajustes para aguardar a liberação dos testes em humanos, os desenvolvedores do imunizante pleiteiam mais recursos para a tirar o projeto do papel. Para o ensaio clínico de fase I e II, o consórcio está buscando recursos com o governo federal, estimados em R$ 30 milhões. “[Esse valor] compreende tanto o desenvolvimento do lote para o estudo como a definição de rendimentos de produção e estabelecimento das condições para produção industrial”, explica ela .

O investimento para a fase 3, que envolve logística de aplicação, estudos estatísticos, relatórios técnicos e um grande número de voluntários, é ainda maior. “Deverá girar em torno dos R$ 300 milhões.”, calcula. Comparado a custos internacionais para busca do mesmo resultado, entretanto, o valor não é assim tão vultoso. Nos Estados Unidos, a busca pela vacina da Moderna recebeu cerca de 500 milhões de dólares (ou R$ 2,5 bilhões de reais) para amparar a estrutura de testes necessários para garantir a segurança de um imunizante. Hoje, a Moderna oferece cerca de 90% de eficácia e é chave na estratégia americana de imunizar toda a população adulta até o mês de julho. 

 

‘Se precisarmos revacinar a população, vai ser esse pesadelo de novo?’

Se o mundo já avança na imunização contra a Covid-19, por que buscar mais vacinas? Flávio Guimarães da Fonseca alerta que, como o vírus da gripe, o SARS-COV-2 deve exigir reforços eventuais para o sistema imunológico no futuro. “Daqui algum tempo, se nós precisarmos revacinar toda a inteira, vai ser de novo esse pesadelo?”

Governos e agência reguladoras tem muito claro, avalia ele, que é necessário investir em biotecnologia. “Ficou escancarada a nossa dependência de importação em um momento de crise mundial.”

Nos laboratórios, a taxa de sucesso de um projeto de vacina (quase sempre, lenta) pode complicar a busca pelo modelo mais promissor — que deverá ser submetido a testes em humanos de forma controlada e, depois, em maior escala. A avaliação de todo o percurso é sempre da Anvisa.

Bons e maus exemplos

A vacina 2H120 Defense, ainda em fase pré-clínica, surgiu de uma pesquisa no programa de doutorado da Universidade Estadual do Ceará, a UECE. Os pesquisadores utilizaram anticorpos relacionados ao combate a um coronavírus aviário e conseguiram chegar em resultados animadores na geração de imunidade.

“Fizemos vários testes para saber se os anticorpos produzidos pelos animais imunizados com esse outro coronavírus, não-detectado em humanos, neutralizava o SARS-COV-2. Após essa observação positiva, nós entendemos que esse vírus pode gerar uma potencial vacina”, explica Izabel Florindo, professora de Imunologia da instituição e uma das coordenadoras do projeto.

Com o resultado, os pesquisadores conseguiram aval do governo do Ceará para financiar as fases subsequentes do projeto. O valor ainda não foi confirmado, mas há conversas para que as próximas fases do projeto aconteçam com o apoio da Fiocruz e de laboratórios da Universidade Federal do Ceará. 

Se o caso da UECE mostra como projetos de pesquisa podem desaguar em um possível imunizante, a vacina da Universidade Federal do Rio de Janeiro já é o exemplo de como tudo pode ruir repentinamente.

Os pesquisadores conseguiram R$ 2 milhões iniciais por meio de uma plataforma de aporte internacional a projetos científicos. O projeto “já induziu a formação de altos níveis de anticorpos nas espécies de animais em que foi testada”, diz a universidade ema nota enviada à reportagem.

No entanto, no começo de maio, a reitora da UFRJ alertou que o orçamento direcionado do Ministério da Educação para a instituição só sustentaria as operações até julho. Sem verbas descontigenciadas, o futuro seria o fechamento. O susto passou momentaneamente com o desbloqueio de R$ 152 milhões para a UFRJ, liberados pelo Ministério da Economia após intensa mobilização popular. O projeto da vacina ainda respira, mas não em solo firme —  especialmente pela previsão de recursos semelhantes aos outros projetos para concluir as fases I, II e III.

 

 

Escolhas

À frente das pesquisas da Spintech, da UFMG, Flávio Guimarães da Fonseca explica que as respostas dos testes em animais apontaram produção de anticorpos e geração de resposta celular por meio de linfócitos, células também essenciais no combate às infecções. Como a Versamune, o imunizante não utiliza um vírus inteiro inativado, mas sim uma proteína recombinante entre a proteína S e uma outra quimérica (artificial, produzida no laboratório).

O virologista explica que a produção das proteínas quiméricas tem sido feita em culturas de bactérias, avaliadas pela equipe como de fácil manejo e produtividade de proteína por litro do futuro IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) da vacina. Tudo foi pensado considerando a estrutura nacional para esse tipo de biotecnologia — há unidades fabris no Brasil que já operam em sistemas do gênero.

“É uma tecnologia de domínio nacional, seria simples de ser transferido para uma unidade produtora, seja ela uma unidade fabril pública ou privada. Tudo foi feito objetivando uma rápida transferência no caso de sucesso da vacina na Anvisa”, explica.

O dinheiro que o grupo recebeu do MCTI até o momento foi da ordem de R$ 2 milhões, utilizado na primeira etapa de testes. Para a fase clínica, o projeto conta com R$ 30 milhões vindos da Prefeitura de Belo Horizonte e emendas parlamentares na ordem de R$ 1,5 milhão de deputados estaduais e federais de MG. A Rede Vírus, que acompanha o desenvolvimento do imunizante, não cravou qual será o valor investido pelo governo federal daqui para a frente.

A estimativa do pesquisador para o avanço à fase III é de R$ 300 milhões, valor semelhante ao apontado pela Versamune. Esse recurso, que sustenta a testagem em milhares de voluntários, pode ser o maior gargalo do atraso da produção das vacinas brasileiras.

Para Flávio, se trata também de uma escolha que vem sendo feita há anos no Brasil: ser um país consumidor e não um país desenvolvedor de biotecnologias.

“Quando a emergência sanitária surgiu, a gente atravessava um dos piores momentos de financiamento científico na história. Laboratórios absolutamente sucateados, sem mão de obra qualificada, sem treinamento de pessoal, com pesquisadores desmotivados. O resultado foi isso que a gente viu: a gente não conseguiu e não estava preparado para fazer uma pesquisa de desenvolvimento emergencial de vacina”.

Quais são as vacinas brasileiras em desenvolvimento?

Consultada por CartaCapital, a Anvisa informou que acompanha ou já foi contatada acerca de sete vacinas [leia a nota completa abaixo]. Já a Rede Vírus, do MCTI, lista cerca de 20 projetos acompanhados pela iniciativa em seu site. O Ministério da Saúde não respondeu os questionamentos da reportagem. 

Vacinas em acompanhamento pela Anvisa:

  1. Butanvac, desenvolvida pelo Instituto Butantan. Recebeu aprovação para seguir aos estudos clínicos.
  2. Versamune-CoV-2FC, desenvolvida por meio de parceria entre a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da Universidade de São Paulo (USP), e as empresas Farmacore Biotecnologia Ltda e PDS Biotechnology, dos Estados Unidos.
  3. S-UFRJvac, desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda em fase pré-clínica e sem submissão formal à Anvisa  
  4. SpiNTec, desenvolvida por meio da parceria entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Fundação Ezequiel Dias (FUNED), ainda em fase pré-clínica e sem submissão formal à Anvisa. 
  5. Vacina da UECE, desenvolvida pelo Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular (LBBM) da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Houve reunião de orientação com Anvisa, mas ainda não há pedido de estudo
  6. Vacina de biopolímero (PHB) coberto pela proteína viral da UFPR – Universidade Federal do Paraná. Houve uma reunião com os investigadores a pedido da Anvisa. Não foi enviada documentação, nos colocamos à disposição para dar o suporte necessário. 
  7. Parceria entre Diretoria de Tecnologia e Inovação do SENAI  e CIMATEC (Bahia – Brasil), HDT Bio Corp (EUA) e Gennova Biopharmaceuticals Ltd. (Índia), e Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), por meio do seu Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos). Não foi submetida formalmente, mas tem trocado informações com a Anvisa.

 

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