Notícia falsa associa vacina da Covid a ‘nanopartículas de controle social’

Conteúdo, feito por servidor público da Câmara, ganhou alcance após ser compartilhado pela deputada Bia Kicis e por site bolsonarista

Youtuber Claudio Lessa, que criou vídeo com informações falsas sobre vacinas (Foto: Reprodução)

Youtuber Claudio Lessa, que criou vídeo com informações falsas sobre vacinas (Foto: Reprodução)

Saúde,Sociedade

Um vídeo com informações falsas sobre as vacinas da Covid-19 em desenvolvimento foi o conteúdo sobre o tema que mais alcançou diferentes públicos no Facebook em setembro, diz estudo publicado nesta quinta-feira 8.

 

 

O conteúdo, feito pelo jornalista e servidor público da Câmara dos Deputados Cláudio Lessa, ganhou destaque pela publicação no site Jornal da Cidade Online, citado na CPMI das Fake News, e pelo compartilhamento na página da deputada Bia Kicis (PSL-SP), investigada em inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo financiamento de notícias falsas.

A análise de engajamento foi feita pelo grupo de pesquisa União Pró-Vacina (UPVacina), iniciativa da USP Ribeirão Preto para monitorar e combater notícias falsas sobre vacinas e promover conteúdo baseado na ciência.

No vídeo, Lessa afirma que vacinas modificam o DNA do ser humano e contêm “nanopartículas de controle social” – argumentos recorrentes entre grupos antivacina e que têm tido maior alcance devido ao alto volume de buscas pelas vacinas em fase de testes.

Lessa se refere à vacina como “lixo que está sendo produzido” contra a “peste chinesa” e, sem citar quaisquer referências e atribuindo as afirmações a “opiniões” de “várias pessoas”, apresenta informações falsas sobre a imunização.

“Na opinião de várias pessoas, essas novas vacinas experimentais representam um crime contra a humanidade”, dispara Lessa em certo momento. Depois, o jornalista diz que a vacina faz parte das intenções do bilionário Bill Gates, criador da Microsoft, de “promover a drástica redução da população mundial”.

Agências de checagem de fatos, como Projeto Comprova, Agência Lupa e Aos Fatos, classificaram as alegações do vídeo como notícias falsas.

Lessa consta como Analista Legislativo da Câmara dos Deputados e, segundo o Portal de Transparência da Câmara, ganha mais de 34 mil reais mensalmente como salário bruto. Ele chegou à Casa por indicação política do ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), que atualmente cumpre pena domiciliar por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Kicis, por sua vez, recebe mais de 33 mil reais como deputada federal.

 

Cláudio Lessa, jornalista e analista na Câmara, em trecho do vídeo com informações falsas. A referência a teorias conspiratórias de “dominação” pela vacina é recorrente. (Foto: Reprodução)

 

As publicações no site e na página de Kicis foram feitas respectivamente nos dias 24 e 25 de setembro e, juntas, tiveram 232,3 mil interações, entre curtidas, comentários e compartilhamentos no Facebook.

Na análise do grupo, o post e a matéria foram compartilhados por 79,7 mil usuários, enquanto as outras sete notícias provenientes de sites jornalísticos com maior engajamento no mesmo mês, como CartaCapital, G1 e Folha de S. Paulo, tiveram 79,6 mil compartilhamentos em conjunto.

O alcance foi tão grande que serviu de impulso para as principais teorias conspiratórias dos grupos antivacina, que têm tentado ganhar fôlego entre a população conforme o interesse pelo desenvolvimento da imunização cresce. De acordo com o estudo do UPVacina, o número de compartilhamentos do vídeo de Lessa foi 52 vezes maior do que a soma de todos os conteúdos produzidos nos principais grupos antivacina no Facebook entre maio e julho.

 

Análise de repercussão feita pelo estudo. As notícias na posição de 2 a 10 foram feitas por sites jornalísticos (Foto: União Pró-Vacina)

 

No Youtube, o alcance do conteúdo também foi grande. Até esta quinta-feira 8, o vídeo tinha cerca de 180 mil visualizações. Outras 350 mil pessoas viram a peça na página da deputada no Facebook. Se ambos fossem apenas um vídeo no YouTube, teriam atingido mais de 530 mil visualizações, superando o vídeo mais visto na plataforma sobre vacinas no mês de setembro, que teve 500 mil reproduções.

O estudo ainda destaca que, no caso do vídeo original no YouTube, além de não existir nenhum aviso sobre notícias falsas, o conteúdo segue sendo monetizado. Isso permite que tanto a rede quanto Lessa lucrem com propagandas de diversas empresas, entre elas oito grandes marcas de destaque no Brasil, diz o levantamento: Mercado Livre, Samsung, Carrefour, MRV, Bradesco, iFood, Gomes da Costa e Natura.

Na página de Bia Kicis, o Facebook apenas mostra um aviso de que “as mesmas informações foram verificadas em outra publicação por verificadores de fatos independentes”. Mesmo assim, é possível assistir e compartilhar o vídeo.

 

Aviso do Facebook alerta usuários de que vídeo na página de Bia Kicis contém informações falsas (Foto: Reprodução/Facebook)

 

Grupos radicais “celebram” a disseminação de notícias falsas

 

Para  João Henrique Rafael Jr., analista de comunicação do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (IEA-RP) e também idealizador do UPVacina, os conteúdos falsos e carregados de teorias conspiratórias geralmente ficam restritos aos grupos antivacina no Facebook, mas a capacidade do vídeo de Lessa demonstrou o perigo de essas informações atingirem um público “muito mais amplo”.

“Os conteúdos antivacina, no Facebook do Brasil, ainda ficam restritos a poucos grupos com uma capacidade de alcance limitada. O grande problema que a projeção externa gera é a introdução dessa temática, baseada em argumentos falsos e sem nenhuma evidência científica, para um público muito mais amplo, que normalmente não teria contato com esse tipo de conteúdo”.

Ter a legitimação de figuras como uma deputada federal e de um site que se diz jornalístico, além de aumentar o alcance da publicação, também é um fator celebrado por “grupos radicais”, diz o analista. “A replicação desse tipo de conteúdo por personalidades, influenciadores e autoridades acaba gerando um efeito muito danoso”, avalia.

No processo rápido de engajamento das redes, o analista acredita que as plataformas precisam ser mais assertivas contra a distribuição de conteúdos do gênero. A sinalização de notícia falsa pelo Facebook, por exemplo, levou cinco dias.

“Considerando que um conteúdo com essa projeção demorou cinco dias para ser marcado como falso no Facebook, e que o vídeo completou hoje 1 mês no YouTube, sem nenhuma moderação, inclusive lucrando com o conteúdo, não é possível afirmar que as políticas adotadas até agora estão resolvendo esse problema tão grave, ainda mais nesse momento em que lidamos com uma pandemia e as informações verdadeiras são fundamentais para o melhor enfrentamento da situação”, afirma.

CartaCapital questionou a deputada Bia Kicis sobre o compartilhamento de notícias comprovadamente falsas em suas redes, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem. O espaço continua aberto.

Kicis foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal em maio, em operação relacionada à apuração de ofensas, ataques e ameaças contra ministros do STF.

 

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