Trabalhadoras da enfermagem são maioria invisibilizada

É preciso reconhecer as mulheres na enfermagem como trabalhadoras

Foto: Carol Garcia/GOVBA

Foto: Carol Garcia/GOVBA

Artigo,Saúde

Nas publicações anteriores busquei retratar a partir da perspectiva histórica, os determinantes sociais, filosóficos, culturais, econômicos e raciais das condições de trabalho da equipe de enfermagem brasileira. Evidenciei nesse processo de construção, os elementos que cerceiam a participação de 55,4% dos profissionais  assistenciais universitários do setor saúde, e cerca de 70% ou mais,  dos níveis médio e elementar. Esse quantitativo de trabalhadoras é responsável por cerca de 60% das atividades produzidas no sistema de saúde, mas historicamente, permanece pouco valorizado, mal remunerado, subalternizado na estrutura patriarcal do setor.

Nesse contexto de grandes restrições à atuação por melhores condições de trabalho, justa remuneração e valorização social, impõem-se, inevitavelmente, estratégias de enfrentamento, a começar pela construção da ‘consciência feminina’, a partir do reconhecimento ‘espelhado’ de quem somos. Somos a maioria da população brasileira, cerca de 52,1% da força de trabalho segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a maioria a ocupar postos de trabalho mais precarizados e de reduzido alcance de poder, o gênero cuja expectativa de vida é a maior, as mais prejudicadas nas reformas trabalhista e da previdência, visto que, além da inserção desigual no mundo do trabalho, permanecemos responsáveis pelas atividades de cuidado, da preservação e reprodução da vida acumulando desgastes, nos espaços público e privado.

Tais condições, decorrentes do desempenho de tarefas reconhecidas como ‘extensão’ do papel feminino, incidem diferenciadamente nesse coletivo, numa relação inversa à estratificação social e racial dos grupos, isto é, quanto mais baixa for a inserção na estrutura organizacional, mais desprotegidas estarão essas mulheres, tanto no que se refere à seguridade, como no acesso às políticas públicas. No contexto da pandemia o Brasil ocupou a primeira posição no ranking de contaminação e de mortes entre os profissionais de enfermagem, predominantemente entre as profissionais do nível médio.

 

Temos que reconhecer para além das opressões de gênero, classe e raça, que produz a ‘violência simbólica’, aquela naturalizada social e historicamente, a condição endêmica do assédio, das violências física, psicológica, e sexual evidenciadas nos alarmantes indicadores de morbidades e mortalidade no nosso país.

A partir do reconhecimento de que somos mulheres, precisamos construir e favorecer estratégias de ‘participação’, assim compreendida pela associação de pensamentos, sentimentos e valores, que resultem na apropriação de saberes e práticas, na compreensão das raízes dos problemas, e na tomada de direção dos processos da vida, que garantam o alcance de conquistas e a manutenção de direitos.

Apontam as feministas as contribuições que os movimentos de mulheres produziram ao longo do século passado e mais recentemente, em diferentes países, inclusive no Brasil.  As ditas ‘ondas feministas’, surgidas após marcos importantes consistiram em disparadores para ‘lutas coletivas’, permeadas pela tomada de consciência e um protagonismo politizado que possibilita o surgimento de ‘sujeitos políticos’1 e indiscutível resistência.

Algumas publicações mencionam a eclosão de um novo feminismo a partir de 2013 constituído por movimentos grevistas das servidoras da educação, a Marcha das Mulheres Negras realizada em 2015, as candidaturas de parlamentares, a eleição e atuação brilhante de Marielle Franco, a intensa mobilização para a campanha #Elenão, e por fim, o número crescente de mulheres eleitas   em todo país, particularmente no atual processo eleitoral. Essa nova onda feminista se destaca pelo protagonismo das mais jovens, o que precisa ser encarado como uma potência a mover o conjunto das mulheres, de diferentes gerações e identidades, mas ainda submetidas às múltiplas opressões.

A capacidade de nos percebemos como grupo social majoritário submetido à diferentes níveis de opressões, deve, antes de tudo, constituir-se em contexto produtor de solidariedade, de fortalecimento da ‘consciência feminina’, de estímulo à participação e consolidação da ‘atuação coletiva’.  Essa é a condição para a posse e o controle das estratégias de luta que produzam as mudanças necessárias nos espaços privado e público, segundo os interesses e saberes das mulheres. Façamos parte dessa história, esse é o momento para agirmos a nosso favor.

É preciso perceber ainda, que podemos falar como integrantes de um coletivo feminino a ocupar postos qualificados na estrutura organizacional do sistema de saúde.  Contudo, temos que reconhecer um contexto interno onde coexistem diferentes níveis de exploração que atingem outros grupos de mulheres, das quais dependemos no processo produtivo como as Agentes Comunitárias, as profissionais Administrativas, as do Serviço de limpeza, e outras que mantém nossa rede de apoio como as Cuidadoras, as Crecheiras, as Babás, as Empregadas Domésticas.  Nós produzimos muito para esse Sistema e temos direito às políticas que nos deem suporte e condições de vida dignas para todas.

Tomemos o controle das nossas vidas!!

Toda vez que uma mulher se movimenta na estrutura social, ela alavanca várias outras mulheres2


[1] Drumond N. Nova onda feminista: o papel estratégico da luta das mulheres. Revista Movimento, n.II -12, 2019.

[2] Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

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Enfa. Mestre em Saúde Pública, Doutora em Ciências. Ativista pelo SUS público, de qualidade e SEM RACISMO. Integrante da Soweto Organização Negra.

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