“Ideal é que manifestações não ocorram”, diz médico de Centro de Contingenciamento

Atos a favor e contra o governo Bolsonaro estão marcados para a próxima semana. Faltam dados para orientar isolamento, diz infectologista

 (Foto: Carl DE SOUZA / AFP)

(Foto: Carl DE SOUZA / AFP)

Saúde

O rápido avanço do novo coronavírus no Brasil, que já contabiliza 76 casos confirmados, relembrou um assunto que estava em alta no cenário político e acabou ficando abafado pelo vírus: as manifestações contra e pró-governo da próxima semana.

Um é o ato do dia 15 de março, que mira o Congresso Nacional e diz apoiar o governo do presidente Jair Bolsonaro, que até endossou as manifestações pelo WhatsApp. Do outro lado, no dia 18 de março, estudantes convocam a oposição a ir às ruas contra a gestão do ministro Abraham Weintraub e à favor das universidades públicas.

A forma como o coronavírus está se espalhando, porém, deveria brecar que os manifestantes se reunissem nas ruas na próxima semana. Quem avalia o risco é o infectologista Marcos Boulos, que integra o Centro de Contingenciamento de Coronavírus montado em São Paulo para analisar a doença no estado e no Brasil.

“Ainda não é uma orientação, mas, em relação às manifestações, o ideal é que não ocorra”, diz Boulos, que não crava que as pessoas fiquem em isolamento por conta da falta de dados que comprovem a necessidade eminente deste movimento.

“O vírus vai aumentar na população. Já estão aparecendo uns poucos casos de pessoas que replicaram o vírus, e ele vai passando de maneiras geométricas. Em duas semanas termos uma situação bastante intensa. A partir daí, as medidas têm que ser tomadas – elas não são padronizadas, porque o grupo de saúde, o tipo das pessoas e cada país têm uma proposta diferente”, diz o médico.

Em coletiva nesta quinta-feira 12, o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), afirmou que ainda não é o momento para cancelar eventos “independentemente do número de pessoas” no Estado, baseado nos dados recolhidos pelos pesquisadores do Centro de Contingenciamento até agora. “Apenas pessoas com mais de 55 anos, que configuram grupo de risco, cabe a recomendação que evitem. Não temos decisões políticas, mas sanitárias”, disse Dória.

Ao reiterar o ponto de Dória, Marcos Boulos destaca que a calma na orientação por parte do governo surge para evitar mais pânico, apesar do medo já instaurado pelo crescimento do Covid-19 no País.

“O ideal é que a proposta [de cancelamento dos eventos] tenha uma base técnica e isso não está muito claro ainda, por isso que a gente precisa observar melhor o comportamento da infecção aqui e nos lugares que ela se alastra, como Estados Unidos e Europa, e tomar uma decisão em duas semanas”, analisa.

“Nós discutimos isso em São Paulo e estamos convencidos dessa estrategia. A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) encerrou suas aulas por um tempo, mas isso não foi bem discutido, tanto que a Unicamp tem um representante dentro do Centro de Contingenciamento e ele foi contra [a medida], porque foi uma decisão sem suporte técnico nesse momento”, diz Boulos.

No exterior, o cenário de isolamento e de orientações para o cancelamento de shows, jogos de futebol e grandes aglomerações é mais incisivo conforme o número de casos confirmados.

Após um pronunciamento do presidente americano Donald Trump, os Estados Unidos devem fechar as fronteiras para voos vindos da Europa na sexta-feira 13 à meia-noite. Os americanos já cancelaram jogos da liga nacional de basquete, a NBA, e adiaram o festival de música Coachella de abril para outubro. O número de casos nos EUA já passa de 1300.

A Itália, segundo país com mais casos no mundo e que já contabiliza mais de 12.400 pacientes, está em estado de isolamento completo desde a terça-feira 12. Lugar foco da infecção, a China rapidamente isolou cidades como Wuhan, epicentro da crise, para evitar o contágio em mais localidades. Nesta sexta-feira, o governo chinês anunciou que o pico da doença já tinha passado no país, e declarou que o Covid-19 deve ser superado até junho caso as nações realizem esforços conjuntos.

Marcos Boulos analisa que os modelos seguidos pela China, Itália e Estados Unidos se repetem e que parecem corretos para bloquearem a infecção, mas repete que a melhor estratégia, agora, é que pessoas com sintomas evitem locais públicos e que todos tomem os devidos cuidados com a higiene e contato.

Entre as recomendações, lavar as mãos com regularidade ou passar álcool em gel e evitar contato das mãos com os olhos, nariz e boca estão sendo divulgadas para a população. Com sintomas, a pessoa deve contatar o sistema de saúde, que irá avaliar a necessidade de quarentena. Confira mais medidas para permanecer seguro.

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