‘Foi uma cena do Titanic, cada um pegando cilindro de oxigênio e escolhendo quem salvar’

Profissional de saúde narra a CartaCapital o dia de trabalho dentro da UTI do Hospital Universitário Getúlio Vargas, em Manaus

Foto: EBC

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Saúde

33 ventiladores apitando ao mesmo tempo. Correria. No visor de cada aparelho, as mensagens: Baixa de oxigenação! Baixa de concentração de oxigênio!

“Foi uma cena do Titanic, cada um pegando o seu salva-vidas, que era o cilindro de oxigênio e tentando salvar. Todo mundo correndo de um lado pra outro, pegando cilindro pequeno, conectando no ventilador. E os cilindros pequenos não davam para todos os leitos, tivemos que escolher em quem colocar, ou seja, pacientes que tinham o melhor prognóstico de sair da crise da Covid, o paciente mais jovem. Tivemos que escolher quem salvar”.

O relato é de um integrante da equipe médica do Hospital Universitário Getúlio Vargas, um dos principais da rede pública de Manaus. O profissional, que preferiu não se identificar por temer represálias, não conteve as lágrimas ao narrar para CartaCapital o momento em que faltou oxigênio aos pacientes internados na UTI do hospital, na quinta-feira 14.

 

“Os pacientes foram parando, e a gente não tinha o que fazer. Não podíamos reanimar, porque não havia oxigênio”.

 

Para uma doença como a Covid-19, que compromete o funcionamento dos pulmões, a circulação artificial de oxigênio é mais importante que qualquer remédio. “É muito difícil, você enquanto profissional, especialista na área, fica de mãos atadas, porque não tinha a condição, o oxigênio”.

Diante a escassez, a equipe médica se uniu para tentar evitar mais mortes. “A gente decidiu pronar todo mundo. Pronar é colocar o paciente de barriga para baixo para tentar ventilar a região posterior. Como a gente estava sem oxigênio, a gente tinha que favorecer áreas de ventilação do pulmão”.

 

 

Muito emocionado, o profissional de saúde relembrou uma outra decisão difícil para todo o corpo médico. “Dentro da UTI também haviam pessoas que não estavam intubadas, mas usavam máscaras. Tivemos que salvar os pacientes que não estavam sedados”.

 

“Optamos por [salvar] quem estava lúcido, porque quem estava sedado não ia sofrer. E assim a gente fez”

 

Pela manhã, narra, a equipe médica viu morrer sete pacientes. “O nosso estado é de desespero. E tudo que está acontecendo é real, não tem nada aumentado, é pânico mesmo, de todos os profissionais olharem um pra cara do outro e falar, eu tenho capacidade, diploma, pós graduação, residência, doutorado, eu sei o que estou fazendo, mas não tenho o que eu preciso, que é o oxigênio”.

A escassez também atinge outras cidades do Amazonas. Em outro relato a CartaCapital, o médico Robson Siqueira detalha a situação no município de Itacoatiara-AM, a 270 quilômetros de Manaus.

 

 

Fornecedor diz que vai importar oxigênio da Venezuela

A White Martins, empresa que fornece oxigênio para Manaus, informou que importará o insumo da Venezuela, após ter identificado a disponibilidade do material em suas operações no no país vizinhos.

Segundo a empresa, a demanda por oxigênio em Manaus cresceu cinco vezes nos últimos quinze dias. O aumento do consumo saltou para 70 mil metros cúbicos por dia – quase o triplo da capacidade diária de produção da unidade local, de 25 metros cúbicos. Segundo a companhia, o consumo “segue crescendo fora de controle e qualquer previsibilidade”.

 

Sepultamento em área reservada às vítimas da COVID-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus (Foto: MICHAEL DANTAS / AFP)

 

Antes da pandemia, a empresa diz que sua unidade local operava com 50% de sua capacidade, e isso era suficiente para atender os clientes, porque o consumo oscilava entre 10 mil e 15 mil metros cúbicos por dia. Entre abril e maio de 2020, na primeira onda da pandemia, a demanda alcançou pico de 30 mil metros cúbicos.

No cenário atual “sem precedentes”, a White Martins diz ter ampliado sua capacidade de produção para 28 mil metros cúbicos diários e direcionado todos os insumos para o setor medicinal. A empresa também tenta levar oxigênio de fábricas em outros estados, por meio de vias fluvial e aérea, e pôde contar ainda com a colaboração de quinhentos cilindros com suporte da Força Aérea Brasileira.

A empresa afirma ter enviado comunicados às autoridades sobre a “alta complexidade do fornecimento de oxigênio medicinal para Manaus” e solicitou apoio diante de um “cenário extremamente desafiador”, como a mobilização de órgãos competentes e de outras empresas.

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Repórter do site CartaEducação

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