Número 959,

Saúde

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Parkinson: dois séculos

por Rogério Tuma publicado 16/07/2017 00h43, última modificação 14/07/2017 11h43
O saber enciclopédico de um médico levou-o a identificar o segundo mais comum mal degenerativo

No início do século XIX, os médicos eram plurais, tinham um conhecimento largo, eram bons observadores e não contavam com exames subsidiários para auxiliá-los a entender do que sofria seu paciente. Tudo dependia da observação à beira do leito e da sabedoria e inteligência individual do médico.

Naquele tempo surgiram as maravilhosas descrições das doenças e nasceu o processo investigativo para entender por que elas ocorrem, não apenas baseado na observação dos órgãos após a morte, o perío-do da fisiopatologia clínica.

James Parkinson nasceu em 1755 em Londres, foi também político liberal, escreveu sob o pseudônimo de Old Hubert vários panfletos políticos pregando a reforma sem violência. Foi um dos primeiros a escrever folhetos e livros de orientação a pacientes e familiares, iniciando o jornalismo médico. Parkinson também era ferrenho defensor dos direitos dos doentes mentais.

Em seu texto original, o médico descrevia a doença em três de seus pacientes, mas, curiosamente, de outros três indivíduos que havia inicialmente apenas observado andando pelas ruas de Londres. Um deles jamais o consultou, “um lamentável sujeito que foi apenas visto a distancia”. 

Intitulou a doença como “paralisia agitante” e, somente 50 anos depois, Jean-Martin Charcot, o grande professor de Neurologia do Hospital da Salpêtrière em Paris – na época o mais importante hospital de neurologia do mundo –  decidiu nomeá-la doença de Parkinson, por discordar do termo paralisia, pois a força dos pacientes era normal.

Hoje, sabemos que a lentidão dos movimentos, o tremor em repouso e a marcha de pequenos passos podem coexistir em mais de 30 doenças diferentes e, por isso, cunhou-se o termo parkinsonismo, em que a doença de Parkinson é a mais comum causa desse quadro, responsável por 80% dos casos.

Nesses 200 anos, muito mudou no entendimento e na história natural da doen-ça de Parkinson. Em sua descrição inicial, o dr. Parkinson instigou os patologistas da época a procurar lesões anatômicas onde exatamente o problema clínico está. 

A doença recebeu contribuições no seu entendimento por força da natureza, quando alguns indivíduos que sobreviveram à epidemia de influenza de 1916 a 1918 apresentavam um parkinsonismo pós-encefalite, por infecção do vírus no cérebro; mas também, mais recentemente, depois que traficantes tentaram desenvolver uma droga artificial parecida com o alucinógeno “pó de anjo”, e destruíram o sistema dopaminérgico do cérebro de usuários, desencadeando um parkinsonismo agudo, a droga hoje é utilizada em modelos experimentais em animais para entender melhor a doença e testada em novos tratamentos.

Apenas em 1919 é que foram demonstradas alterações na substância negra, uma região do cérebro de marcada coloração escura pela presença de neuromelanina, área sugerida a ser investigada por James Parkinson cem anos antes. A dopamina, neurotransmissor crucial para efetuarmos movimentos automáticos como andar, só teve sua existência confirmada no cérebro em 1958.

Em 1961, injeções endovenosas de dopamina em pacientes com Parkinson mudaram a história natural da doença. Clínicas psiquiátricas repletas de pacientes mudos e rígidos, com errôneo diagnóstico de esquizofrenia catatônica, tiveram seus pacientes voltando ao normal com apenas uma injeção.

Desde então, pesquisas genéticas e em nível molecular evoluíram na compreensão e no tratamento da doença. As tecnologias mais avançadas, como estimulo elétrico com marca-passo cerebral, implante de células-tronco, drogas neurotróficas e neuroprotetoras, tiveram seu início no tratamento da doença de Parkinson.

Hoje, apesar de não termos ainda a cura para a doença, os pacientes vivem muito mais e muito melhor, mas a medicina de hoje ainda amarga a saudade de médicos que passam horas observando e ouvindo seus doentes, descobrindo coisas que os que observam a vida pelo microscópio e os laboratórios de biologia molecular demoraram dois séculos para redescobrir. 

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