Número 959,

Internacional

Oriente Médio

No Oriente Médio, os bumbos da guerra soam alto

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 16/07/2017 00h48, última modificação 14/07/2017 11h44
Desde a Guerra dos Seis Dias, o paiol de pólvora nunca esteve tão perto de explodir
Usaf/Master Sgt. Lance Cheung
Porta-aviões

O porta-aviões George Bush no canal de Suez, a caminho de Israel. E, talvez, de uma nova guerra

Washington não age mais como uma superpotência com uma política de Estado discernível. Após fornecer armas e apoio aéreo para os guerrilheiros curdos e o exército e milícias do Iraque, o Pentágono está bem perto do objetivo declarado de destruir o Estado Islâmico enquanto controlador de um território no Oriente Médio, mas, os EUA não sabem o que fazer do desfecho. Não querem enviar tropas nem ver a região controlada por curdos independentes, por milícias xiitas simpáticas ao Irã, ou pelo governo de Bashar al-Assad, mas não tem uma alternativa a propor.

Na crise do Catar, o presidente Donald Trump encoraja a Arábia Saudita e seus satélites, o secretário de Estado Rex Tillerson tenta mediar o conflito e acalmar os ânimos, o Pentágono autoriza a venda de caças ao Catar e o senador republicano Bob Corker, presidente do comitê de Relações Exteriores, quer proibir a venda de armas a ambos os lados, após Washington ter-se comprometido com 110 bilhões de dólares aos sauditas e 32 bilhões ao Catar.

Na Síria, a Casa Branca ameaçou o governo Assad pela suposta preparação de um ataque químico do qual não mostrou provas e nem sequer o Departamento de Estado e o comando militar dos EUA no Oriente Médio pareciam informados. Dias depois, o secretário da Defesa James Mattis disse que, após a advertência, a Síria “voltou atrás”.

Entretanto, aviões espiões dos EUA rondam o litoral sírio, onde a Rússia possui uma grande base armada com mísseis antiaéreos, um porta-aviões nuclear foi enviado para a primeira visita a Israel desde 2000 e Tel-Aviv faz preparativos para uma possível guerra com o Hezbollah.

Tudo se passa como se cada seção do aparelho de Estado estadunidense conduzisse sua própria política, ouvindo mais os lobbies com acesso aos seus líderes do que um ao outro. Ao mesmo tempo, a Casa Branca enfraquece deliberadamente seu próprio braço diplomático sem protestos aparentes da parte de Tillerson, enquanto confia uma missão tão complicada quanto a mediação entre israelenses e palestinos ao genro Jared Kushner, inexperiente e obviamente parcial, como judeu e como apoiador de colonos militantes na Cisjordânia. Previsivelmente, ao encontrar Mahmoud Abbas, fez o papel de menino de recados de Benjamin Netanyahu e a reunião foi um completo fracasso.

A verba do Departamento de Estado foi drasticamente cortada na proposta orçamentária, bem como as contribuições a agências e organizações internacionais. As negociações de Genebra sobre a Síria estão praticamente abandonadas. Os diplomatas da era Obama foram afastados, na maioria dos casos sem substitutos.

Aviões espiões dos EUA rondam a Síria e deixam os russos de dedo no gatilho (Foto: U.S. Navy/Cristopher Gaines)
Como exemplificam os mísseis disparados contra a Síria e os navios de guerra enviados às vizinhanças da Coreia do Norte, Trump prefere espetáculos de poder militar a conversações discretas – o que, aliás, vai ao encontro dos gostos de comentaristas da mídia e do seu público, condicionados por Hollywood, mesmo depois dos fiascos do Vietnã e do Iraque, a acreditar que bombas resolvem quaisquer problemas.

A única peça da estratégia tradicional estadunidense ainda de pé é a menos lógica: o apoio incondicional a Israel, com a consequente hostilidade inabalável ao Irã. Na falta de uma articulação a uma política regional e mundial mais ampla que dê a essa postura limites claros e propósitos para além dos interesses imediatos do atual governo de Tel-Aviv, essa aliança tornou-se um fator de instabilidade, provavelmente contraproducente a longo prazo para os próprios beneficiários imediatos.

As provocações ao Irã e seus aliados, bem como as humilhações adicionais impostas aos palestinos, criam os riscos de levar os radicais iranianos de volta ao poder, aprofundar as divisões do mundo árabe, estimular o surgimento de mais grupos terroristas e levar ao confronto direto com a Rússia.

Talvez esse seja mesmo o propósito de alguns dos atores em jogo. Pelo menos Steve Bannon, o estrategista-chefe de Trump, entusiasma-se pela ideia de uma grande guerra capaz de abrir caminho a uma transformação radical do Estado e da sociedade, como teria acontecido nos casos da Guerra da Independência, da Guerra Civil e da Segunda Guerra Mundial.A crise do Catar é uma bomba-relógio com data para explodir: 3 de julho, quando se cumprem dez dias do ultimato saudita.

O primeiro-genro foi encarregado de 'mediar' israelenses e palestinos, apesar de ser partidário explícito dos colonos judeus (Foto:Brendan Smialowski/AFP)
Para levantar o bloqueio imposto em 3 de junho, Riad e seus satélites ou aliados Bahrein, União dos Emirados Árabes e Egito fizeram 13 exigências na sexta-feira 23, muitas delas provocativas e inaceitáveis para um país soberano, tais como o fechamento da Al-Jazeera e demais empreendimentos catarenses de mídia, a entrega de quaisquer indivíduos acusados de “terrorismo” pelos sauditas e aliados, o rompimento de relações com o Irã, o fechamento da base turca ali existente e indenizações por supostos prejuízos causados pelo Catar à Arábia Saudita e seus aliados nos últimos anos. O que acontecerá ao fim do prazo não foi especificado: ação militar?

Os sauditas dizem que as exigências são “inegociáveis” e o Catar, que são “inaceitáveis”, enquanto Tillerson pressiona ambos a barganhar. A Turquia desafiou os sauditas e enviou mais tropas ao país, além de ajudar a abastecer o emirado de produtos essenciais. O Irã também ofereceu apoio logístico. Em um mundo de uma ou mesmo duas superpotências, isso se reduziria a jogo de aparências, enquanto poderes maiores negociam ou arbitram uma solução.

Em um mundo de potências em disputa, como o anterior às guerras mundiais, o desfecho de tais impasses é imprevisível e possivelmente violento. Sem superiores capazes de impor um acordo, nenhum dos lados pode recuar sem se humilhar e ser repudiado pelas próprias bases. É a mesma lógica que produz vendetas brutais e intermináveis entre famílias ou facções de áreas onde o Estado não pode ou não quer impor autoridade.

A mídia e a opinião liberais deram de intitular Angela Merkel de “líder do mundo livre”, mas, para ela e seu país, liderar a Europa Continental já é um desafio de bom tamanho. Ali, a confusão é menos imediatamente explosiva, mas mais ampla. Trump opõe-se frontalmente aos parceiros nas questões comerciais e ambientais e junta-se a lobistas dos EUA e políticos europeus cujo objetivo declarado é destruir a União Europeia.

O G-7 não é mais uma entidade com um propósito e, pela ambivalência e fragilidade do governo britânico, mal se pode falar de G-6. A própria Otan é uma incógnita, dado o desdém de Trump e sua resistência a reafirmar o compromisso de socorrer os aliados se atacados pela Rússia. A cúpula do G-20 em Hamburgo, prevista para 7 e 8 de julho, será interessante como oportunidade de se observar a reconfiguração de conflitos e alianças, mas não se espere a solução de quaisquer problemas.

Tillerson tenta acalmar a crise e conversa com o chanceler do Catar, em aparente contradição com a atitude do chefe (Foto: Thaer Ghanaim/AFP)

Enquanto isso, convém observar a pouco noticiada adesão formal da Índia e do Paquistão, em junho de XXX, à Organização de Cooperação de Xangai (SCO pela sigla em inglês), criada em 1996 para articular projetos de infraestrutura e contraterrorismo na China, Rússia e antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central.

Com isso, a SCO passa a representar metade da população e um quarto da produção mundial. Em comparação, o G-7 (se ainda é um bloco) tem 10% da população e 39% da produção. Além disso, Bielo-Rússia, Irã, Mongólia e Afeganistão são observadores que, com exceção do último, pediram para se tornar membros plenos e Turquia, Armênia, Azerbaijão, Sri Lanka, Nepal e Camboja são “parceiros de diálogo”.

Essa articulação é simultânea ao projeto chinês de uma nova “Rota da Seda” para integrar economicamente toda a Eurásia e ao abandono por Trump do Tratado Transpacífico e da “virada para a Ásia” planejados por Obama. A política errática dos EUA no Oriente Médio pode lhe abrir caminho também nessa região. É fácil imaginar Síria, Iraque e Catar na SCO. Israel e Arábia Saudita, aos quais Trump parece dar carta branca para se entenderem e ditarem regras à região, podem ver-se às voltas com uma oposição muito maior do que um pequeno emirado.

Turquia e Irã nunca tiveram um choque direto, apesar de seus patrocinados – rebeldes sírios e Estado Islâmico de um lado, governo Assad e Hezbollah do outro – terem passado anos a se trucidar mutuamente na Síria. Ancara teve um papel na mediação entre Teerã e o Ocidente e, se perdeu as esperanças de impor um governo a seu gosto na Síria, pode se entender com os aiatolás. Existe interesse comum em conter o nacionalismo curdo, os israelenses e os sauditas e em apoiar os palestinos e o Catar. Ambos têm atualmente boas relações com a Rússia, enquanto o vínculo da Turquia com a Otan e a União Europeia é cada vez mais frágil.

No mínimo, deve-se esperar um realinhamento de alianças. Mas como nos Bálcãs de 1914, movimentos nacionalistas e radicais desafiam regimes arcaicos e fronteiras artificiais, enquanto o equilíbrio entre potências emergentes e decadentes está em vias de alteração. Para muitas das forças em jogo, a questão não é de ganhos e perdas, mas de vida ou morte: as monarquias sobreviverão ou cairão, os curdos serão esmagados ou criarão sua nação, os palestinos terão seu Estado ou serão definitivamente anexados.

A guerra pode parecer a única saída, principalmente se as grandes potências também a quiserem. O estopim poderia ser a crise do Catar, um choque entre Israel e o Hezbollah, ou entre os EUA e a Síria de Assad. E, como em 1914 ou 1939, não há como prever a dimensão que essa guerra poderia tomar.